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O pré-adolescente que está começando a comprar ações

Gostaria de combater três ideias que têm chegado até mim como supostamente sofisticadas e eruditas, quando, na minha opinião, são grandes clichês, fatos estilizados altamente superficiais que podem levar a péssimas decisões financeiras

16 de julho de 2019
15:46 - atualizado às 9:46
"Apanhador no Campo de Centeio"
Imagem: shutterstock

Em determinado momento da história americana, se você não tivesse lido “O Apanhador no Campo de Centeio”, você era uma pessoa superficial.

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Claro que profundidade não tem nada a ver com a leitura deste ou daquele livro. Ao menos para mim, essa coisa tem mais a ver com erudição, educação clássica formal, sensibilidade, uma dose de lógica formal e, me desculpe, um pouco de vivência de rua. Sim, porque se não tiver inteligência de rua, você não encontrará a intensidade das relações humanas — e não há nada mais profundo do que elas.

Mas, por um bom tempo, foi assim: para não passar por raso, você precisava ter lido “O Apanhador”. O próprio livro era um ataque à superficialidade, com o protagonista, Holden Caulfield, narrando sua angústia e comentando a alienação da época; o personagem criado por Salinger se tornou uma representação da rebeldia adolescente. Foi uma espécie de marco-zero da cultura jovem americana. Pode parecer estranho, mas até os anos 1950 não tinha muito essa coisa. Pouco se falava do adolescente, apenas um ser em transição entre a criança e o “homem pronto” — o melhor que poderia acontecer-lhe era ter essa fase passando rápido e sem maiores constrangimentos.

Agora, se você já tivesse lido “O Apanhador no Campo de Centeio” (olha, como não tinha resenha no Google, pode ter sido um problema para muita gente), então, pronto, teria transposto a barreira da superficialidade.

Como surgiram especialistas sobre finanças e investimentos nos últimos meses, meu Deus! São quase tão populares quanto os doutores em Direito, comentaristas precisos e cirúrgicas sobre a Vaza Jato.

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Estão todos eles prontos para opinar sobre qualquer coisa, com a certeza adolescente de que sabem os rumos da Bolsa, do dólar, dos juros. Até mesmo da moeda de Hong Kong — depois que o Stuhlberger falou (hoje os gestores também são popstars!), a moeda de Hong Kong virou celebridade nacional.

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O problema do mundo não são as pessoas que não sabem, mas, sim, aquelas que não sabem o suficiente, resumiu Taleb. Um curso de Day Trade de final de semana, as recomendações do seu agente autônomo cujo escritório acaba de abrir (eles não deveriam fazer isso, eu sei), a leitura do seu fórum de ações favorito, a participação naquele grupo de WhatsApp mais quente do momento. Desculpe decepcioná-lo, mas essas coisas não vão ajudar muito. Talvez possam até ser deletérias para você, porque vão transmitir-lhe uma falsa segurança de que você está no controle. E, meu caro, nós não estamos no controle. Ninguém sabe nada.

A cada dia, surgem surpresas para bagunçar qualquer prognóstico desenhado para este ou aquele ativo, para atrapalhar os planos traçados para sua construção patrimonial. A vida inteira é assim. Seu trabalho, suas relações pessoais, sua multa de trânsito. Se quer fazer Deus rir, conte a Ele seus planos.

O mercado é muito, mas muito mais eficiente do ponto de vista informacional do que se supõe. A dificuldade de superar esse camarada é muito maior do que as pessoas normalmente pensam. Algumas poucas horas de estudo ou a leitura daquele seu site favorito não vão torná-lo mais esperto do que a média, a ponto de fazer escolhas certeiras capazes de alçá-lo a um novo patamar.

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Como disse Warren Buffett, a diversificação é a arma daqueles que não sabem o que estão fazendo. Pois então o que vamos fazer é justamente diversificar, porque não temos a menor ideia do que estamos fazendo. Na verdade, ninguém faz. Há aqueles que não sabem, e aqueles que acham que sabem, com ampla vantagem para os primeiros. Poucas coisas são piores do que achar que você está no comando. Isso é a antessala do excesso de concentração e da alavancagem. Cara, ainda estou tentando entender quem sou eu. Você acha que vou saber para onde vai o dólar?

Com o texto de hoje, além de fazer um alerta geral, gostaria de combater três ideias que têm chegado até mim como supostamente sofisticadas e eruditas, quando, na minha opinião, são grandes clichês, fatos estilizados altamente superficiais que podem levar a péssimas decisões financeiras.

1) "Com a queda da Selic, estou comprando títulos de crédito privado, em especial aqueles incentivados, com isenção de IR. São uma delícia.”

Deixe-me ser bastante claro e direto aqui. Na minha opinião, há uma bolha no mercado de crédito brasileiro. Alguma hora vai ter um default (calote) inesperado ou algum fundo de crédito vai abrir o bico (candidatos mais óbvios são aqueles com prazos de resgate curto). Isso vai ferir dezenas de milhares de investidores.

Há uma lógica perversa nesse mercado. O investidor pessoa física está incomodado com a baixa rentabilidade de suas aplicações tradicionais, dado o novo contexto de taxas de juros. É legítimo que seja assim. É para se incomodar mesmo.

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O ponto nevrálgico é que ele quer sair dessa condição, ter um retorno melhor, mas não correr risco. E aí, meu caro, não rola. O mundo inteiro corre risco. Para conquistar mais, você precisará se arriscar mais. Não tem almoço grátis. Corrijo: a diversificação é o último almoço grátis disponível, mas esqueçamos isso por um momento.

Daí o sujeito confunde a falta de volatilidade do mercado de crédito com ausência de riscos e vai migrando excessivamente seu portfólio para essa categoria. Nada como um retorno maior sem adição de vol.

As plataformas de varejo, com seus gerentes, bankers e agentes autônomos (todos eles apenas respondem à estrutura de incentivos, pois também possuem boletos a pagar e bocas a alimentar), percebem essa avidez pelos produtos de crédito e enfiam o que quiserem em algumas pessoas físicas, que muitas vezes não sabem a qualidade tóxica daquilo que estão comprando. Basta ter algum prêmio sobre o CDI, não ter volatilidade e possuir incentivo tributário para ser atraente para bastante gente.

Isso alimenta as plataformas de varejo por algum tempo, com gordas taxas de originação, distribuição e colocação. Uma hora vai dar problema. Voltando à frase original: "Você vai se preocupar quando já for tarde demais”. Por enquanto, ninguém tem interesse em parar a engrenagem.

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Não precisa ir muito longe. Vamos olhar matéria de hoje do Valor: “Sem liquidez, Coruripe busca 800 milhões de reais com CRA em plataforma”. Destaco um pequeno trecho da reportagem: “A captação de recursos por meio desse CRA é crucial para solucionar problemas de liquidez de curto prazo da usina. A outra questão é que a Coruripe deu como garantia para esse CRA créditos que estima ter a receber por conta de uma ação que move contra a União por perdas que teve com políticas governamentais que interferiram nos preços praticados no setor na década de 1980”.

Eu sei lá o que vai ser dessa oferta e da Coruripe em particular. No entanto, não precisa ser muito gênio para perceber que isso não é ideal para uma plataforma de varejo. E não é um caso isolado. É uma prática recorrente, porque todo o “mecanismo" joga a favor. Uma hora a conta chega. Pode demorar, mas chega.

2) “Vou vender meus prefixados porque já estão baixos demais”

Ah é? Vai vender o pré? E vai comprar o quê? Em termos relativos, até acho a Bolsa melhor do que o juro. Mas tem limite para isso. Você vai ter 100 por cento em ações? Óbvio que não — aqui já estamos no talo, perto de 40 por cento; mais do que isso é loucura.

E se o juro for 5 por cento para sempre (aqui empregado no sentido de “no horizonte tangível”)? Acha exagero? Meu, é inflação caminhando para 3 por cento (como qualquer outro mercado emergente minimamente razoável; lembre-se de que o mundo inteiro é deflacionário por conta de tecnologia e demografia), com juro real de 2 por cento. “Ah, mas juro real de 2 por cento é muito baixo para o padrão brasileiro.” Sim, mas o juro está fora do padrão no mundo inteiro. Por favor, me aponte um lugar do planeta, que não seja um mercado totalmente periférico ou caótico, cujo juro real é superior a esse. O juro real de curto prazo no mundo civilizado é zero ou negativo. Essa é a realidade. Perceba o quanto de high yield está negociando com taxa negativa.

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Talvez você diga que é um mundo estranho, no que eu concordaria. Mas é o mundo que existe hoje. Se o seu modelo mental não se reconcilia com a realidade objetiva, talvez não seja um problema da realidade objetiva. Ela está aí e não liga a mínima para o que a gente pensa dela. A existência, aliás, é um grande absurdo.

Para Albert Camus, um dos precursores do Absurdismo, a pergunta realmente relevante a um homem é se ele deveria se suicidar. Acho que a melhor resposta está na passagem de “Notre-Dame de Paris”, de Victor Hugo: “(...) um condenado à morte, uma hora antes de morrer, pensava e dizia que se tivesse de viver em algum lugar alto, em um penhasco, e numa área tão estreita que só coubessem dois pés — e cercado de abismos, mar, trevas eternas, solidão eterna e tempestade eterna — e fosse forçado a permanecer assim, em pé no espaço de um archin a vida inteira mil anos, toda a eternidade, seria melhor viver assim do que morrer agora!? Contanto que pudesse viver, viver, viver! Não importa como viver, mas apenas viver!... Que verdade! Deus, que verdade! O homem é um canalha! E é canalha aquele que por isso o chama de canalha”.

Ainda há gordura na curva de juros, principalmente na parte longa. Dado que você não vai se suicidar, enjoy it! De Camus a Lobão, “não tente se matar, pelo menos esta noite, não”.

3) “Bolsa vai ficar parada ou caindo até a volta do recesso. Então, vou vender agora e voltar a comprar às vésperas da votação em segundo turno da reforma da Previdência.”

Eis o gênio capaz de fazer timing no mercado. Ninguém sabe quando a Bolsa vai subir ou cair. Tenha uma tese, apoiada nos fundamentos e no preço dos ativos, e se agarre a ela. Tudo que podemos fazer, na melhor das hipóteses, é comprar coisas por preços inferiores aos seus verdadeiros valores intrínsecos, na esperança de que A (o preço) vai convergir a B (o valor). A velocidade e a forma de convergência não nos pertence. Minha ideia, expressada já há algum tempo, é de que a grande porrada vai estar nas microcaps — já está acontecendo e vai mais ainda.

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Os movimentos em Bolsa acontecem em saltos, de súbito e de maneira não linear. No dia que você resolver sair das ações, é capaz de amanhecer com uma alta de 10 por cento na sua cabeça. E daí você não pega nunca mais o movimento, porque dificilmente vai ter a frieza de comprar 10 por cento acima do preço que vendeu.

Há uma série de drivers potenciais mapeados para as ações brasileiras nas próximas semanas, muito além da Previdência. Citaria alguns: possível revisão de preços-alvo pelos analistas de bancos e corretoras por conta da atualização de suas taxas de desconto, efetivação de corte de 50 pontos-base na Selic na próxima reunião do Copom (com sinalização de novas reduções em vista), temporada de resultados corporativos (tanto aqui quanto nos EUA; no fim do dia, as ações seguem os lucros das empresas), possibilidade de anúncio de um pacote de medidas do governo federal capaz de estimular sobretudo varejo, construção civil e infraestrutura, notícias vazadas sobre intenções de concessões e privatizações, eventuais M&As (sim, isso vai voltar com força), IPOs, etc. Fora todo o resto que não podemos sequer imaginar, mas que adora nos surpreender.

Para mim, o verdadeiro gênio do mercado é aquele que percebeu não haver gênio algum. Ou que todos são gênios. Em termos práticos, dá no mesmo.

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