Menu
2019-04-16T12:51:43-03:00
Estadão Conteúdo
Reflexo no exterior

“Discurso liberal é obscurecido pelo conservador”, diz brasilianista

Anthony Pereira, diretor de pesquisas sobre o Brasil no King’s College de Londres, afirma que Bolsonaro deve trabalhar para construir uma base no Congresso e deixar de elogiar ditadores, como Alfredo Stroessner, do Paraguai

8 de abril de 2019
8:18 - atualizado às 12:51
Jair Bolsonaro, Israel
Presidente da República, Jair Bolsonaro - Imagem: Alan Santos/PR/ Agência Brasil

O escritor britânico Anthony Pereira, diretor de pesquisas sobre o Brasil no King's College de Londres - um dos principais centros acadêmicos do Reino Unido -, diz que o discurso economicamente liberal do presidente Jair Bolsonaro está sendo superado por outras narrativas que não ajudam a imagem do País no exterior, como declarações de cunho conservador e sua luta contra a esquerda, mesmo quando ela representa igualdade de direitos e cidadania. Nesta entrevista, o brasilianista, coautor do livro Entendendo o Brasil Contemporâneo, afirma que Bolsonaro deve trabalhar para construir uma base no Congresso e deixar de elogiar ditadores, como Alfredo Stroessner, do Paraguai. Confira os principais trechos:

Após quase cem dias, qual é impressão que Jair Bolsonaro transmite sobre o Brasil?

As mensagens da administração Bolsonaro são um tanto quanto confusas e contraditórias. O discurso economicamente liberal, que parece ser o principal pilar da agenda de reformas, está sendo obscurecido por dois outros discursos, um socialmente conservador e outro que é nostálgico para a ditadura de 1964-85. Isso pôde ser visto quando o presidente Bolsonaro foi para os Estados Unidos. Na entrevista com a jornalista Shannon Bream, da Fox News, ele falou sobre o relacionamento comercial com os Estados Unidos por cerca de 40 segundos. O restante da entrevista foi marcado pelo presidente defendendo suas visões de negros, mulheres e gays, e negando que ele tivesse algo a ver com o assassinato da vereadora Marielle Franco. A Fox apoia Donald Trump e não é um meio de comunicação que o presidente Bolsonaro descreveria como "esquerdista" ou criador de "notícias falsas", mas ainda assim fez essas perguntas ao presidente. Isso mostra que, fora do Brasil, o discurso econômico está sendo superado por outras narrativas, que não ajudam o Brasil internacionalmente.

Quais são as perspectivas para os próximos meses?

Acredito que o governo está em um momento difícil. Há grandes expectativas de que a reforma da Previdência seja bem-sucedida e comece a reduzir o déficit orçamentário, colocando o Brasil em uma trajetória de crescimento e criação de empregos. No entanto, a reforma proposta pode ser diluída. Além disso, as relações entre o Executivo e o Congresso não parecem ideais.

Bolsonaro é geralmente comparado a Donald Trump. Quais diferenças e semelhanças você vê entre eles?

Ambos usam a mídia social de forma agressiva, gostam de antagonizar os adversários e aumentar o medo e a raiva. Mas em termos de ideologia, políticas e seus partidos, eles são muito diferentes. Trump é um nacionalista econômico e acredita que seu protecionismo está preservando e criando empregos. Bolsonaro tenta vender a ideia de que seu governo é economicamente liberal, que reduzirá o déficit orçamentário por meio da reforma previdenciária, tarifas mais baixas, privatização de empresas estatais e atração de investimentos estrangeiros. Trump não é altamente ideológico. É um negociador, tenta defender setores-chave da economia dos EUA, como aço, automóveis, agronegócio e alta tecnologia. Já Bolsonaro não parece entender a economia e parece disposto a assumir posições ideológicas mesmo quando elas prejudicam os produtores brasileiros.

E na parte política?

presidente Trump tem o apoio de uma poderosa máquina partidária, o Partido Republicano. O controle dos republicanos sobre o Senado é o motivo pelo qual o presidente Trump não deve perder o cargo se houver um pedido de impeachment. Bolsonaro não tem tal máquina e deve trabalhar muito mais para construir uma maioria no Congresso do que Trump teve que fazer.

Desde o golpe de 1964 nunca houve tantos militares em um governo civil. O presidente, o vice, ministros de Estado e importantes assessores têm origem no Exército. O que isso significa?

O governo e as Forças Armadas se beneficiam mutuamente. Mas há um risco: se o governo falhar, a imagem das Forças Armadas pode ser prejudicada. A deferência que muitas pessoas parecem ter com os militares é uma fraqueza potencial da democracia brasileira. Reflete uma falta de confiança em políticos civis e também uma disposição potencial para aceitar a tutela militar sobre o governo, o que equivale à tutela militar sobre a soberania popular. Isso é perigoso. Em última análise, as pessoas é quem garantem a democracia.

Em viagens ao exterior, o presidente costuma criticar a esquerda, a ideologia de gênero e dizer que quer combater o comunismo, mesmo discurso usado da campanha. Como isso é visto?

Muitas pessoas acham esse discurso desconcertante e anacrônico, algo muito mais relevante para a Guerra Fria do que para as sociedades de hoje. A esquerda tem um papel a desempenhar na democracia. Igualdade de direitos, independentemente de raça, etnia, religião, orientação sexual - e gênero - não é uma ideia ‘comunista’. É claro que é um ideal que não é totalmente realizado em qualquer lugar - pessoas marginalizadas nas democracias capitalistas sabem disso muito bem -, mas sugerir que não é digno como um ideal parece ser um grande retrocesso. Isso divide o Brasil desnecessariamente e também vai contra a Constituição e a jurisprudência do Brasil.

Bolsonaro já elogiou ditadores como Augusto Pinochet (Chile) e Alfredo Stroessner (Paraguai). Há uma percepção de que ele ainda não entendeu a "liturgia do ofício". O senhor concorda?

Avalio que as críticas estão corretas. O discurso autoritário do presidente obscurece uma grande conquista brasileira dos últimos quarenta anos, que é o desenvolvimento de organizações da sociedade civil e a criação de instituições democráticas viáveis. Também desafia outro ideal que foi reafirmado na transição de regime na década de 1980, que é que a violência do Estado deveria estar sujeita ao estado democrático de direito, e que não deveria ser exercido arbitrariamente. É desconcertante quando o presidente sugere que as ditaduras, incluindo a brasileira, são melhores do que as democracias. Isso enfraquece sua própria autoridade.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Comentários
Leia também
A REVOLUÇÃO 3.0 DOS INVESTIMENTOS

Que pi… é essa?

Eu decidi sair do banco, mas não queria entrar em uma enrascada. Bem, acredito que eu tenha encontrado um portal para fugir dessa Caverna do Dragão das finanças. E cá estou para explicar essa descoberta.

Radiocash

“Quando comecei a criar o Me Poupe, eu queria transformar finanças em mainstream”, conta Nathalia Arcuri

A plataforma de conteúdo e educação financeira tem uma CEO com uma jornada polêmica e impactante; confira no RadioCash

Economia na defesa

Privatização da Eletrobrás é ‘entrega elevadíssima’, afirma secretário de Guedes

Segundo associações do setor, o texto aprovado vai aumentar o custo da energia para consumidores em R$ 84 bilhões nas próximas décadas

Entre a cruz e a espada

Bitcoin se aproxima da “Cruz da Morte”: O que isso significa para a criptomoeda?

O bitcoin tocou essa linha imaginária no último final de semana, o que deve determinar o futuro da moeda para os próximos meses

Buscando confiança

Números de abril mostram melhora do IRB, mas queda da ação mostra que desconfiança persiste

Estratégia de rever contratos, principalmente no exterior, diminuiu as receitas fora do Brasil, mas ajudou sinistralidade e resultado final

Economia dos eua

Dirigente do Fed admite inflação alta, mas defende contínuo apoio monetário

Presidente da distrital do banco admitiu que as leituras recentes de inflação estão “altas” e devem ser monitoradas de perto

Carregar mais notícias
Carregar mais notícias
Fechar
Menu

Usamos cookies para guardar estatísticas de visitas, personalizar anúncios e melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar, você concorda com nossas políticas de cookies