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Julia Wiltgen

Julia Wiltgen

Jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com pós-graduação em Finanças Corporativas e Investment Banking pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Trabalhou com produção de reportagem na TV Globo e foi editora de finanças pessoais de Exame.com, na Editora Abril. Hoje é editora-chefe do Seu Dinheiro.

Chegamos lá

Com Ibovespa a 100 mil pontos, ainda vale a pena entrar na bolsa?

Finalmente chegamos lá, os históricos 100 mil pontos! É claro que é só uma marca “psicológica”, mas a pergunta que fica realmente é: a bolsa já subiu demais, dadas as circunstâncias? Ainda vale a pena entrar ou aumentar posição? Ouvi alguns nomes de mercado para responder à questão

Julia Wiltgen
Julia Wiltgen
19 de março de 2019
5:03 - atualizado às 9:54
Trampolim em piscina
Para especialistas, novas altas do Ibovespa estão condicionadas à aprovação da reforma da Previdência e devem se dar aos poucos. - Imagem: Shutterstock

O principal índice da bolsa brasileira finalmente atingiu a histórica marca dos 100 mil pontos, um recorde em termos nominais. Desde o segundo turno das eleições presidenciais, foi uma alta de 16,6%, sendo 13,8% apenas neste ano. Quem ficou fora da bolsa pode estar se perguntando: com o Ibovespa a 100 mil pontos, ainda vale a pena entrar? Ou o índice já subiu demais? E para quem já está posicionado, é o caso de comprar mais?

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Eu conversei com profissionais de mercado de diferentes perfis para saber quais são as suas perspectivas para a bolsa brasileira em 2019, já que a marca “psicológica” dos 100 mil pontos já foi atingida logo no início do ano.

A maioria deles continua otimista e acha que ainda há espaço para ganhos, portanto valeria a pena entrar sim. Mas, a partir de agora, a coisa muda um pouco de figura.

Ibovespa a 100 mil pontos: expectativa vs. realidade

Se a bolsa vinha subindo animada pelas expectativas dos investidores em relação ao crescimento econômico brasileiro e à aprovação das reformas, agora a alta deve estar mais condicionada à concretização dessas expectativas.

Em outras palavras, o governo vai ter que mostrar serviço, e a economia vai ter que engatar de fato, pois as expectativas já estão no preço.

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“É importante deixar claro que 100 mil pontos é apenas uma marca psicológica. Não quer dizer nada, é apenas uma referência”, diz José Tovar, sócio-fundador da gestora Truxt Investimentos. “A bolsa pode continuar subindo se a reforma passar, se houver privatizações e se a melhora no ambiente de negócios continuar”, prossegue.

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Tovar admite que a reforma é de difícil implementação, porém a forma de apresentação, de tirar privilégios dos mais ricos, foi muito bem feita. A expectativa do mercado é também de que a proposta para os militares venha com uma cota de sacrifício da parte deles.

O sócio da Truxt acredita, ainda, que as expectativas em torno da reforma da Previdência já estejam de fato no preço atual, mas que, se houver confirmação, o Ibovespa pode continuar o movimento de alta, até porque a tendência, nesse ponto, é começar a atrair capital estrangeiro.

“A bolsa andou na expectativa da reforma, muito impulsionada pelos locais. Mas o estrangeiro, por enquanto, continua cético”, observa.

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Já o Santander considera que o patamar de 100 mil pontos já incorpora a realidade, como alguns sinais de melhora da economia, da tramitação da reforma e da governabilidade.

“Talvez o divisor de águas entre expectativa da realidade tenha se dado um pouco antes dos 100 mil pontos. Agora já tem algum componente de realidade, desde que o governo começou a se movimentar mais pela aprovação da Reforma”, diz Ricardo Peretti, estrategista de pessoa física da corretora do banco.

O Santander reviu sua perspectiva para o Ibovespa no fim deste ano, de 105 mil pontos, no início de janeiro, para os atuais 115 mil pontos. Ou seja, uma valorização de 15% caso a reforma da Previdência seja aprovada. “Ainda enxergamos potencial de alta e, com Ibovespa a 100 mil pontos, nossa posição ainda é compradora”, diz Peretti.

O Santander não foi o único. O Bradesco também reviu suas previsões, de 112 mil para 116 mil, revelando uma perspectiva de valorização de 16% para o Ibovespa a partir de agora. Já o Itaú BBA, que esperava o Ibovespa a 100 mil pontos só no fim de 2019, agora prevê que a bolsa chegue a 111 mil naquela data, um ganho de 11% a partir de agora.

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Mas isso não quer dizer que a valorização das ações virá fácil. Pelo contrário. Os profissionais com quem eu conversei lembraram que o Brasil ainda tem um grave situação fiscal e que a aprovação da reforma da Previdência pode ser bastante desafiadora.

A tramitação não deve ser rápida e as forças de oposição prometem ser barulhentas, o que pode atrasar ou mesmo desidratar uma reforma mais robusta.

Privatizações e outras reformas mais localizadas também podem encontrar obstáculos, e são fundamentais para uma retomada mais forte e prolongada do crescimento.

Devido aos percalços no caminho da concretização das expectativas, quem estiver posicionado em bolsa ou entrar agora não deve esperar mais altas vertiginosas, como os quase 11% de janeiro. Como me disse o estrategista do Santander, será preciso paciência, pois a alta, se vier mesmo, deve ser “de grão em grão”.

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“Mesmo assim, um upside de 15% no ano frente a uma Selic de 6,5% é bem relevante”, frisa Peretti.

Mas o mercado não costuma precificar justamente as expectativas?

Se os investidores costumam justamente apostar em expectativas, como a bolsa poderia continuar subindo com a concretização delas? A aprovação da reforma da Previdência e a retomada do crescimento já não estão no preço das ações hoje?

Raphael Cordeiro, sócio da gestora de patrimônio Inva Capital, acha que sim. Para ele, o Ibovespa a 100 mil pontos já precifica um bom crescimento econômico neste ano, um risco-Brasil controlado e a aprovação de uma reforma da Previdência razoável.

A queda da bolsa no final de fevereiro, entretanto, já estaria mostrando que o mercado percebeu que a aprovação da reforma não será assim tão fácil, diz.

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Cordeiro acredita que agora pode inclusive ser um bom momento para realização de ganhos. Essa recomendação se dá especialmente para quem gosta de manter a exposição às diferentes classes de ativos em patamares fixos. Quando uma delas sobe demais, o percentual alocado naquela classe aumenta, então é hora de rebalancear.

“Em março de 2016, começamos a recomendar um pequeno posicionamento em bolsa, mesmo para clientes que ainda não investiam em ações. Agora, estamos considerando vender parte dessas posições. Lá atrás, previmos um ciclo de cinco anos de prosperidade, já se passaram três, então já passamos da metade da festa”, diz.

Para quem não entrou na bolsa até agora, Cordeiro recomenda entrar aos poucos, ao longo deste e dos próximos trimestres. Como a taxa de juros está muito baixa, o mercado de ações se torna atraente.

“Entretanto, entrar com muito dinheiro neste momento pode expor o investidor a alguma desvalorização patrimonial que o faça querer mudar de estratégia. E poucas coisas são piores do que mudar de estratégia toda hora”, alerta.

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Para o sócio da Inva Capital, há uma tendência de que o valor considerado justo para o mercado de ações suba aos poucos, na velocidade do seu custo de capital, atualmente próximo de 12% ao ano. Esta velocidade ainda seria atraente para os investidores brasileiros.

“Ou seja, se falarmos que o Ibovespa a 100 mil pontos seria o preço justo, para março de 2020 seria razoável esperar um Ibovespa a 112 mil pontos [alta de 12% em um ano]”, explica.

Além disso, a inflação teria que se manter controlada para que os juros continuem baixos. Para Cordeiro, há pouco espaço para a queda de juros, mas há mais chance de eles recuarem do que subirem, pois a retomada do crescimento parece estar começando a patinar.

Um novo tempo?

Mas há quem acredite que o país está realmente passando por uma mudança de mentalidade. Portanto, se as atuais expectativas se concretizarem, os benefícios de longo prazo sustentariam um crescimento prolongado, refletindo-se numa alta mais sustentada do Ibovespa.

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“Desde a virada do ano aumentamos as posições em bolsa dos nossos clientes porque entendemos que o Brasil pode estar em um ponto de inflexão”, diz Dennis Kac, sócio e CIO da gestora de fortunas Brainvest.

Para ele, houve uma compreensão, por parte do brasileiro, de que o Estado está inchado e ineficiente, o que se refletiu na eleição de representantes de viés mais liberal do ponto de vista econômico nas últimas eleições.

“Se as ideias que estão sendo desenhadas pela equipe econômica forem implementadas - reforma da Previdência robusta, redução do Estado, programa de privatizações - o Brasil irá para outro patamar”, acredita Kac.

Se isso acontecer, diz ele, “essa pernada de bolsa pode ser muito maior do que a gente tem visto até agora. Se entrarmos num ciclo de quatro ou cinco anos de crescimento, os lucros das empresas vão crescer muito”.

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Na opinião do sócio da Brainvest, a bolsa ainda tem espaço para subir muito mais do ponto de vista dos fundamentos econômicos, mas também do fluxo, com uma potencial entrada de capital estrangeiro.

“Estão acontecendo coisas importantes no Brasil, mas os estrangeiros não estão entendendo ainda. Se a reforma da Previdência for bem executada, esses investidores vão ver que o governo começa a entregar o que prometeu e ficarão mais confiantes. A confiança do empresário brasileiro tende a voltar com força também, destravando uma série de investimentos ainda represados”, explica.

Volatilidade à vista

De fato, o Ibovespa a 100 mil pontos de hoje ainda não é a máxima histórica se olharmos o desempenho da bolsa em dólar ou corrigido pela inflação. O ponto mais alto do índice, segundo as duas perspectivas, se deu em maio de 2008.

Mas mesmo que o Ibovespa ainda tenha boas chances de valorização, o investidor deve estar preparado para volatilidade.

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De saída, posso te dizer que se você não tolera desempenhos negativos ou não tem reserva de emergência em aplicações conservadoras, esqueça essa história de querer aproveitar pontualmente a alta da bolsa só para não se sentir de fora da festa. Se você não tem o perfil, não tem perfil.

Agora, se você tem uma reserva que pode ficar intocada no médio ou longo prazo e está de boa com a volatilidade da bolsa, ainda dá para aproveitar.

“Para quem tem alguma poupança e não vai precisar do dinheiro nos próximos 12 ou 24 meses, é legal ter um percentual em bolsa”, diz José Tovar, da Truxt.

Mas esteja ciente de que quedas são comuns após fortes altas como esta, já que muitos investidores realizam lucros e fazem o rebalanceamento das suas carteiras, que ficaram mais concentradas em renda variável.

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Além disso, a existência de dúvidas quanto à forma como será conduzida a reforma da Previdência e o receio dos investidores estrangeiros são legítimos. Os desafios à frente devem contribuir para um sobe e desce maior, a princípio.

“Se você tem um horizonte de longo prazo, ainda dá para entrar ou para aumentar posição. Mas se seus objetivos são de curto prazo, de fato não é o melhor momento”, diz Dennis Kac, da Brainvest.

Caso você não deseje escolher ações específicas, você pode investir em um bom fundo de ações, ou então em um ETF atrelado ao Ibovespa, como o BOVA11 ou o BOVV11.

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