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Victor Aguiar

Victor Aguiar

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e com MBA em Informações Econômico-Financeiras e Mercado de Capitais pelo Instituto Educacional BM&FBovespa. Trabalhou nas principais redações de economia do país, como Bloomberg, Agência Estado/Broadcast e Valor Econômico. Em 2020, foi eleito pela Jornalistas & Cia como um dos 10 profissionais de imprensa mais admirados no segmento de economia, negócios e finanças.

Alívio na bolsa

Ibovespa se recupera e sobe mais de 2%, mas incertezas seguem pressionando o dólar

Declarações mais alinhadas em Brasília ajudaram a dar força ao Ibovespa nesta segunda-feira (20). Mas o cenário político continua cheio de indefinições, o que trouxe pressão ao dólar

Victor Aguiar
Victor Aguiar
20 de maio de 2019
10:31 - atualizado às 9:50
Selo marca a cobertura de mercados do Seu Dinheiro para o fechamento da Bolsa
Ibovespa fechou em alta e recuperou os 91 mil pontos, mas o dólar continuou estressado - Imagem: Seu Dinheiro

O Ibovespa finalmente teve um dia de alívio. Mas engana-se quem pensa que o tsunami da semana passada é página virada: as águas em Brasília seguem turbulentas e exigem cuidado para serem navegadas.

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O principal índice da bolsa brasileira ganhou força ao longo da sessão desta segunda-fera (20), fechando em alta de 2,17%, aos 91.946,19 pontos. É o maior avanço em termos percentuais num mesmo pregão desde 28 de março, quando o Ibovespa encerrou o dia com ganho de 2,70%.

Contudo, esse movimento de recuperação não contaminou o mercado de câmbio: o dólar à vista até chegou a operar em queda no início do dia, mas terminou a sessão em leve alta de 0,08%, a R$ 4,1034.

Essa diferença de comportamento mostra que, embora o noticiário desta segunda-feira tenha sinalizado certa redução nas tensões em Brasília, o clima ainda é de incerteza. Assim, o mercado aproveitou a redução pontual no risco político para promover ajustes técnicos na bolsa, mas sem desfazer as posições no câmbio — o dólar tem servido como um mecanismo de proteção contra a instabilidade no front doméstico.

Guerra e paz

O cenário político local dava indícios de que continuaria estressado. Afinal, um grupo de deputados do Centrão sinalizou, na última sexta-feira (17), que trabalhava num texto alternativo à reforma da Previdência, de modo a substituir a proposta enviada pelo governo.

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A intenção dos parlamentares seria garantir que o projeto tenha o "DNA da Câmara", mas sem mudar os prazos da tramitação. E essa iniciativa provocou uma reação rápida por parte do governo, que defendeu a proposta originalmente enviada ao Congresso ao longo do fim de semana.

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Em meio à incerteza em relação ao que poderia ocorrer em Brasília, o mercado amanheceu de olho nos passos e declarações dos principais atores políticos nesta segunda-feira. E as sinalizações foram todas no sentido de colocar panos quentes em mais essa crise.

O economista-chefe da Guide Investimentos, Victor Cândido, destaca que uma fala do presidente da comissão especial da Câmara, Marcelo Ramos (PR-AM), contribuiu para trazer algum alívio ao Ibovespa durante a manhã — mais cedo, o índice chegou a cair 0,19%, aos 89.822,25 pontos.

Em entrevista à Rádio Eldorado, Ramos afirmou que a reestruturação da Previdência Social é urgente e que esse entendimento levará à aprovação da reforma, independente da relação entre o Congresso e o Planalto.

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E, no início da tarde, o próprio presidente Jair Bolsonaro se manifestou sobre o imbróglio. Em discurso no Rio de Janeiro, ele afirmou que "não há briga entre os poderes",e que se a Câmara e o Senado têm uma proposta melhor que a do governo para a reforma da Previdência, as casas devem apresentar esse projeto.

"O mercado interpretou bem [a fala do presidente]", diz Glauco Legat, analista-chefe da Necton, ponderando que as declarações dão a entender que Bolsonaro está mais aberto a ouvir o que o Congresso tem a dizer. "Ao mesmo tempo, os deputados mostram que têm interesse de votar a Previdência, propondo alternativas".

Por outro lado, Legat ressalta que há certa percepção, por parte do mercado, de que a apresentação de uma "reforma alternativa" por parte dos deputados do Centrão mostram a fragilidade de Bolsonaro na condução do poder Executivo — uma situação que mantém o front político bastante indefinido no curto prazo.

Por fim, o relator da reforma da Previdência na comissão especial, Samuel Moreira, defendeu que a reforma da Previdência tenha uma potência fiscal de R$ 1 trilhão, destacando que trabalha em cima do projeto enviado pelo governo — e que, se houver substitutivo, esse é um processo natural da técnica legislativa.

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Assim, com os posicionamentos mais alinhados dos principais agentes políticos ao longo do dia — e sinalizando a priorização da pauta econômica —, o mercado teve maior tranquilidade para promover um movimento de correção na bolsa nesta segunda-feira.

"A bolsa está reagindo mais a essa dinâmica interna hoje, com os papéis de maior peso passando por um ajuste", diz Cândido. "Esse movimento mostra que o mercado vê um piso [para o Ibovespa], o que é um bom sinal".

Por outro lado, Legat, da Necton, ressalta que há certa percepção, por parte do mercado, de que a apresentação de uma "reforma alternativa" por parte dos deputados do Centrão mostra a fragilidade de Bolsonaro na condução do poder Executivo — uma situação que mantém o front político bastante indefinido no curto prazo.

Em relatório de análise gráfica, o Itaú BBA destaca que, no lado de alta o Ibovespa encontra uma primeira resistência as 91.800 pontos — superada no fechamento desta segunda-feira, o que indica que o índice poderá avançar até os 92.500 pontos. Na ponta oposta, o suporte inicial está ao redor dos 87.500 pontos, de acordo com o banco.

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Dólar sob pressão

Apesar do alívio no Ibovespa, o dólar à vista continuou estressado. Ao longo do dia, a moeda americana oscilou entre os R$ 4,0788 (-0,52%) e os R$ 4,1221 (+0,53%), terminando a sessão em leve alta.

O mercado tem usado o dólar como ativo de proteção contra o cenário de incertezas que se desenha no horizonte, tanto no front local quanto no exterior. E, em meio a essa indefinição quanto à proposta de reforma da Previdência, a demanda pela moeda americana segue elevada.

E nem mesmo o anúncio de leilões de linha pelo Banco Central (BC) —  ou seja, operações com compromisso de recompra —, no total de até US$ 3,75 bilhões até a quarta-feira (22), foi suficiente para acalmar o estresse do mercado hoje. E isso num dia em que a moeda americana perdeu força no exterior.

"O mercado parece estar precificando o dólar num novo patamar", diz Legat, da Necton. "O contexto externo piorou nas últimas semanas e, no lado interno, os fatores políticos também trazem instabilidade".

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Cautela elevada lá fora

O clima foi bastante negativo nos mercados globais nesta segunda-feira, em meio à falta de avanços nas negociações comerciais entre Estados Unidos e China.

Pelo contrário: a guerra comercial parece continuar ganhando força após o governo americano colocar a Huawei numa espécie de "lista negra" — e, com isso, interrompendo as relações comerciais de diversas companhias americanas com a empresa chinesa.

Com resultado, as principais bolsas globais operaram em queda durante todo o dia. Em Nova York, o Dow Jones (-0,33%), o S&P 500 (-0,67%) e o Nasdaq (-1,46%) caíram em bloco. Na Europa, o tom foi igualmente negativo, com as bolsas da Alemanha, Itália e França recuando mais de 1% — o índice Stoxx 600 teve perda de 1,06%. "A aversão ao risco continua bem grande no exterior", diz Cândido, da Guide.

Esse ambiente de maior cautela também se verificou no mercado de câmbio: o dólar perdeu força ante as principais divisas do mundo nesta segunda-feira. Tom semelhante foi visto em relação às moedas emergentes, com o dólar recuando ante o peso mexicano, rublo russo, rand sul-africano e peso chileno.

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Assim, chamou a atenção o comportamento do dólar ante o real nesta segunda-feira — e as tensões políticas locais foram as principais responsáveis por manterem o câmbio ainda estressado por aqui.

Juros em queda

A curva de juros, por outro lado, passou por um amplo movimento de alívio e operou descolada do dólar: os DIs com vencimento em janeiro de 2021 recuaram de 7,05% para 6,97%, os DIs para janeiro de 2023 caíram de 8,30% para 8,19%, e os DIs para janeiro de 2025 foram de 8,91% para 8,79%.

Esse ajuste ocorre em meio à piora nas expectativas para a economia brasileira. Segundo o boletim Focus divulgado nesta segunda-feira, as projeções de crescimento do PIB fora cortadas de 1,45% para 1,24% — é a 12ª revisão negativa consecutiva.

A projeção dos economistas para a Selic ao fim de 2019 segue em 6,5%, mas foi reduzida de 7,5% para 7,25% ao término de 2021.

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Petrobras e bancos se recuperam

As ações da Petrobras e do setor bancário avançaram em bloco nesta segunda-feira, recuperando parte das perdas acumuladas no mês e dando força ao Ibovespa como um todo.

No mesmo horário, os papéis ON da Petrobras (PETR3) fecharam em alta de 1,85%, enquanto os PNs (PETR4) tiveram alta de 3,40%. Entre os bancos, Itaú Unibanco PN (ITUB4) avançou 2,60%, Bradesco ON teve ganho de 3,45%, Bradesco PN subiu 2,72% e Banco do Brasil ON (BBAS3) terminou em alta de 3,84%.

Tanto os papéis da Petrobras quanto os dos bancos, contudo, ainda têm um maio amplamente negativo, acumulando perdas superiores a 5% desde o início do mês.

Vale lidera perdas

Os papéis ON da Vale (VALE3), por outro lado, recuaram 2,03% e tiveram o pior desempenho do índice, em meio ao risco de rompimento da barragem Sul Superior da mina de Gongo Soco, em Barão de Cocais (MG).

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A Justiça de Minas Gerais determinou que a mineradora apresente estudo dos impactos do rompimento das estruturas da barragem e elevou a multa aplicada à Vale para o teto de R$ 300 milhões. A empresa iniciou obras para erguer um muro e tentar conter a lama caso a estrutura se rompa.

Ajuste técnico

O clima de menor pressão na bolsa, somado à percepção de que diversos papéis estavam muito baratos após a forte correção dos últimos dias, fez com que diversos setores do Ibovespa apresentassem altas relevantes nesta segunda-feira.

Os segmentos que são beneficiados por um ambiente de juros mais baixos estiveram entre os que mais se beneficiaram desse ajuste técnico — como pano de fundo, o boletim Focus, que já mostra uma expectativa de redução da Selic em 2020.

Um exemplo de setor que avançou em bloco hoje é o de varejo, com B2W ON (BTOW3) (+4,69%) e Lojas Americanas PN (LAME4) (+4,94%) se destacando entre as maiores altas do Ibovespa. Magazine Luiza ON (MGLU3) (+2,48%), Via Varejo ON (VVAR3) (+1,99%) e Lojas Renner ON (LREN3) (+3,76%) também avançaram.

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O segmento de construção também foi bem, com Cyrela ON (CYRE3) fechando com ganhos de 6,88% e MRV ON (MRVE3) subindo 5,54%. Por fim, as operadoras de shoppings centers se destacaram, caso de Iguatemi ON (IGTA3) e Multiplan ON (MULT3), com altas de 4,30% e 6,40%, respectivamente.

Quem também passou por um movimento de ajuste foram as ações PNA da Braskem (BRKM5), que fecharam o pregão em forte alta de 10,11% — liderando a ponta positiva do Ibovespa. Mas, mesmo com os ganhos de hoje, os ativos da petroquímica ainda acumulam perdas superiores a 15% em maio.

Suzano em queda

Quem também apresentou desempenho desempenho negativo foi a ação ON da Suzano (SUZB3), em queda de 1,92%. Mais cedo, o Credit Suisse cortou o preço-alvo para os papéis, de R$ 49 para R$ 42 — a recomendação segue em "neuro". De acordo com o banco, o ambiente de demanda por celulose no mundo "não tem animado", com alguma fraqueza na China e na Europa.

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