A Bula da Semana: Otimismo local desafia tensão externa
Fundos e investidores locais ampliam aposta na Bolsa brasileira com o avanço da reforma da Previdência, relegando impacto da guerra comercial no crescimento global

O cenário internacional continua nebuloso por causa das tensões comerciais entre Estados Unidos e China, mas o mercado financeiro doméstico desafia esse ambiente de maior aversão ao risco e tenta manter o otimismo. A confiança na agenda de reformas e na onda de privatizações e concessões blinda os ativos locais da pressão externa, relegando os impactos da disputa entre as duas maiores economias do mundo no crescimento global.
Ao final da sexta-feira, o Ibovespa acabou sucumbindo às baixas das bolsas de Nova York, mas encerrou a semana com valorização de 1,3%, conseguindo se recuperar do tombo de 2,5% apenas na segunda-feira passada, quando perdeu momentaneamente a marca dos 100 mil pontos, após o yuan romper a barreira de 7 por dólar pela primeira vez desde 2008. E tudo isso mesmo com uma saída maciça de recursos estrangeiros da Bolsa brasileira.
Apenas naquele dia 5 de agosto, os “gringos” sacaram R$ 2 bilhões da renda variável, dando continuidade às retiradas nos dias seguintes, e gerando um déficit de quase R$ 5 bilhões só neste início de mês. No ano, o fluxo de capital externo na Bolsa já está negativo em mais de R$ 15 bilhões, com os fundos institucionais locais dando saída para os estrangeiros.
A falta de apetite dos investidores estrangeiros pelos ativos brasileiros explica, em parte, a valorização do dólar pela quarta semana seguida, saltando de níveis abaixo de R$ 3,80 e encostando-se à marca de R$ 4,00. O comportamento também reflete a piora do cenário internacional, com a escalada da guerra comercial.
Nova era
O fato é que os gringos não “compraram” o governo Bolsonaro e vem retirando recursos da Bolsa brasileira desde outubro de 2018 - com exceção às entradas mensais em janeiro e março deste ano. Enquanto isso, os investidores locais e institucionais estão animados com a perspectiva de avanço das reformas no Brasil.
A aposta é de que a reforma tributária deve ocupar, em breve, o lugar de destaque da Previdência na pauta do Congresso. Isso, combinado com a retomada do investimento produtivo por meio de privatizações e concessões, a redução da burocracia e a aprovação das leis de saneamento, de telecomunicações etc., também sustentam todo esse otimismo.
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Com isso, muitos fundos de investimentos e investidores pessoa física estão migrando seus recursos da renda fixa para a renda variável, em busca de maior rentabilidade. Esse movimento também é reflexo da adaptação dos investidores à nova era de juros baixos no país, que parece estar levando o mercado financeiro no Brasil a uma fase de transformação.
Ou seja, é preciso abrir mão da “cultura nacional rentista” e investir em ativos mais arriscados para alcançar retornos reais. E ao que tudo indica a Selic deve renovar sucessivas mínimas históricas nos próximos meses, ficando em um nível baixo por mais tempo. Nos juros futuros, há espaço para a taxa vir abaixo de 5% até o fim do ano, permanecendo neste patamar até o fim de 2020.
Os dados fracos da atividade doméstica, o comportamento benigno da inflação e a aprovação da reforma da Previdência alimentam essa aposta. E essa visão de que o Banco Central deve ser mais agressivo no ciclo de cortes da Selic ainda em 2019 tende a favorecer a Bolsa brasileira, renovando o fôlego para o Ibovespa ir além dos 100 mil pontos.
Falta combinar com o mundo...
O grande problema a esse cenário interno otimista são as incertezas econômicas vindas do exterior, em meio aos receios quanto ao impacto da guerra comercial na atividade global. Daí, então, que a pergunta que fica é: se os EUA entrarem mesmo em recessão na segunda metade de 2020, como preveem os mais alarmistas, e o Brasil não avançar na rota do crescimento, como fica o apetite por risco por aqui?
Nesse caso, e se os principais bancos centrais resgatarem a era de juros zero, com a Selic seguindo no piso recorde e gerando um juro real de 1% ou menos, os mercados acionários tendem a seguir valorizados, ainda que sem crescimento econômico? Ou haverá um ajuste no valuation das empresas (?), uma vez que a disputa entre EUA e China tende a elevar os custos, impactando no lucro e, portanto, no preço por ação?
Há ainda toda uma discussão sobre a cadeia produtiva global, com as indústrias se reajustando e diversificando fornecedores, e sobre o repasse ao consumidor final, encarecendo os preços dos produtos. Apesar da perspectiva de demanda mais fraca, pode haver uma de oferta, o que atrapalharia a manutenção de um mundo de juros baixos. São, de fato, várias variáveis - sendo que muitas outras nem foram apontadas aqui.
E o principal ponto de interrogação desse jogo de perguntas é quanto mais tempo irá durar a guerra comercial? O problema é que as negociações entre EUA e China voltaram à estaca zero, o que tende a manter o cenário de fragilidade dos ativos de risco pelo mundo. Tal perspectiva só deve mudar se os presidentes de ambos os países, Donald Trump e Xi Jinping, sentarem novamente à mesa para negociar.
Até mesmo a próxima rodada de negociações, envolvendo representantes do alto escalão, prevista para setembro, em Washington, está pendente, mas “tudo bem”, segundo palavras do próprio Trump. O mais provável de acontecer no mês que vem, então, é o início da cobrança de tarifa de 10% sobre US$ 300 bilhões em produtos chineses importados aos EUA, taxando, assim, todos as importações da China ao país.
E essa nova rodada de tarifação é apenas mais uma arma do arsenal de Trump. O mercado financeiro está temeroso com a possibilidade de o presidente norte-americano optar por desvalorizar o dólar, a reserva mundial de valor. Embora ele critique tal especulações, nos bastidores da Casa Branca é crescente a pressão por uma intervenção do Tesouro dos EUA no mercado de câmbio. Mas as consequências de tal ação não são claras.
...e com o Congresso
Além disso, há o risco doméstico de o governo Bolsonaro não conseguir entregar a agenda econômica em um velocidade acelerada, como o esperado. Até mesmo o andamento da reforma da Previdência no Senado, que deveria ser encerrado em setembro, pode ficar para outubro, adiando novas discussões no Legislativo.
Na Câmara, presidente da Casa, Rodrigo Maia, já avisou que aprovar a reforma tributária será mais difícil do que a da Previdência, uma vez que irá atingir uma parcela do empresariado brasileiro. Por isso, Maia, cobrou empenho dos empresários e dos deputados para tratar da questão, mas dificilmente haverá consenso.
Já no Senado, a entrega do parecer do relator, Tasso Jereissati, sobre as novas regras para aposentadoria na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) deve levar até três semanas, abrindo espaço para a votação na comissão só nos primeiros dias do mês que vem. Até lá, o colegiado promove diversas audiências públicas para tratar do assunto.
Para o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, o debate na Casa sobre a Previdência deve ser encerrado entre 45 e 65 dias. Assim, a reforma da Previdência só deve sair de cena na virada do terceiro para o último trimestre deste ano, adiando qualquer efeito significativo da aprovação da reforma sobre as expectativas econômicas e a demanda ainda em 2019.
Também segue incerta a inclusão de estados e municípios na reforma da Previdência, bem como o sistema de capitalização. Esses assuntos devem ficar para uma PEC alternativa, de modo a não atrasar a aprovação do texto principal. Afinal, quaisquer mudanças ou acréscimos na proposta precisaria ter o crivo novamente de 308 deputados.
Com isso, a ordem é olhar para 2020, tentando prever o cenário para o primeiro ano da próxima década. Dados de atividade a serem conhecidos no Brasil, EUA, China e zona do euro nesta semana devem dar o tom da economia no início do terceiro trimestre e podem ajudar a lançar luz sobre o horizonte à frente.
Confira a seguir os principais destaques desta semana, dia a dia:
Segunda-feira: A semana começa trazendo como destaque publicações do Banco Central. Às 8h30, saem o relatório de mercado Focus e também o índice de atividade econômica (IBC-Br) em junho, tido como uma proxy do desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) no trimestre passado.
Terça-feira: As atenções se voltam para o índice de preços ao consumidor nos EUA (CPI) em julho, que deve reforçar o cenário de ausência de pressão inflacionária, favorecendo as perspectivas de cortes nos juros norte-americanos à frente. No fim do dia, a China anuncia dados sobre a produção industrial e as vendas no varejo em julho, além dos investimentos em ativos fixos.
Quarta-feira: Preços de importação e de exportação nos EUA em julho podem acalorar as discussões sobre a guerra comercial com a China. Na zona do euro, destaque para os dados preliminares do PIB no segundo trimestre. Já no Brasil, as atenções se voltam para o âmbito político, com a CCJ do Senado dando início à votação dos requerimentos.
Quinta-feira: A agenda econômica doméstica volta a ser destaque, trazendo a divulgação do primeiro IGP do mês, o IGP-10 (8h). Nos EUA, merece atenção o desempenho da indústria e do varejo em julho, além do custo da mão de obra.
Sexta-feira: Dados do setor imobiliário norte-americano em julho e números preliminares deste mês sobre a confiança do consumidor nos EUA concentram a agenda do dia.
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