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Mariana Poli, gerente de comunicação da Flash, conferiu de perto a edição histórica do South by Southwest; ao Seu Dinheiro, ela conta como festival ajustou o foco para a importância do elemento humano na tecnologia e nas relações
Intuição humana, intencionalidade e a importância do tempo presente. É curioso, para não dizer sintomático, que justamente no maior evento de inovação do mundo vários dos debates tenham deslocado o olhar do futuro para um presente mais focado em pessoas. Porém foi justamente isso muito do que se viu na edição 2026 do South by Southwest, o SXSW.
No ano que marcou o 40º aniversário do festival, o SXSW ficou mais dinâmico e descentralizado. A duração foi reduzida para apenas sete dias, de 12 a 18 de março. No entanto, com a reforma do Austin Convention Center, o evento pulverizou a cidade texana de painéis e encontros, tornando-a um grande hub de inovação.
Com tanta demanda, quem não aguenta perder um lance, dançou. Literalmente: além das 850 sessões, a cidade reuniu de 4.400 músicos em mais de 300 showcases. É o lado entretenimento do festival, que torna Austin o lugar para se estar durante a SXSW. Em 2026, destaques incluíram nomes como Los Lobos e Jack Johnson, além da Grammy winner Lola Young.
É claro que, em qualquer evento de inovação atualmente, a inteligência artificial ocupa parte significativa dos debates. No entanto, se 2025 a IA foi grande protagonista das conversas do SXSW, em 2026 o clima é outro. Quem afirma é a gerente de comunicação e conteúdo da Flash, Mariana Poli.
Junto a uma delegação de brasileiros convidados pela Flash, a jornalista acompanhou a movimentação da cidade em diferentes painéis – a empresa, aliás, promoveu seu próprio evento por lá, o Flash Insights Sessions. E o que se viu em Austin foi uma atenção muito maior ao fator humano em uma atualidade já redesenhada pelas tecnologias de IA.
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"A tecnologia já está pacificada como parte da vida dos trabalhadores (ao menos os que atuam em escritórios e grandes centros urbanos). Discussões sobre as aplicações da tecnologia ficaram no passado, abrindo espaço para reflexões a respeito de como nós escolhemos usar a IA e o que precisamos preservar como seres humanos", conta a especialista.
Ao Seu Dinheiro, Mariana Poli topou reunir algumas das principais tendências observadas em Austin. Abaixo, resumimos os highlights.
Diferente do ano passado, em que a inteligência artificial era hype, em 2026 ela é vista como infraestrutura básica. Assim, ela deve fazer parte do dia a dia dos trabalhadores, mas ainda há espaço para evoluções sobre a maneira de usá-la.
Durante o Flash Insights Sessions, evento organizado pela Flash, Neil Redding, futurista e estrategista de inovação, propôs que esta tecnologia não seja vista como um software passivo, mas como um "outro participante" da equipe. Isso exige uma "relação participativa" em que humanos e máquinas colaboram lado a lado, em vez de apenas emitir comandos.
Também é preciso refletir sobre como usamos a IA sem perder a nossa capacidade cognitiva. Delegar excessivamente tarefas à tecnologia causa a atrofia de habilidades fundamentais. Em outras palavras, o debate agora é sobre intencionalidade: precisamos ser seletivos ao escolher o que automatizar, a fim de preservar competências que valorizamos e que nos distinguem como profissionais.
Neil Redding trouxe um exemplo simples, mas bastante ilustrativo: navegação. Antes, nós usávamos mapas físicos. Hoje, dependemos completamente do GPS. A pergunta não é se isso é melhor ou pior, mas se esta é uma habilidade que estamos confortáveis em perder.
Fundadora do The Mattering Institute, Jennifer Breheny Wallace, jornalista premiada e autora de best-sellers, abriu sua palestra com uma provocação sobre o que motiva a nostalgia nos dias atuais. Para ela, a resposta é simples: queremos voltar a nos sentir como nos sentíamos anos atrás. O que faz falta não é o passado em si, mas “a sensação de pertencimento que costumava estar enraizada na vida cotidiana”.
“Sentimos falta da atenção total que costumávamos receber naqueles telefones fixos de plástico até que as notificações começassem a nos afastar uns dos outros. Sentimos falta de uma época em que ser um bom vizinho significava cuidar uns dos outros, não ficar isolados. Acredito que o que realmente sentimos nostalgia é de ‘importar’ [mattering]. O sentimento de que você é valorizado e que está agregando valor às vidas ao seu redor”.
Wallace argumenta que o excesso de tarefas diárias faz com que vivamos no piloto automático e, consequentemente, deixemos de focar nos pontos positivos das pessoas ao nosso redor. Diante da negatividade, precisamos voltar a nos relacionar de forma genuína, e o “Mattering” surge como um conceito chave que ajuda a fomentar o sentimento de ser valorizado e agregar valor.
“Sentir-se valorizado é um motor de engajamento, e o engajamento é um dos melhores preditores de produtividade, inovação e lucro. Em outras palavras: criar uma cultura de importância não é apenas a coisa certa a fazer pelos seus funcionários. É também bom para os negócios,"
Se os algoritmos estão se tornando cada vez mais hábeis em simular a empatia e a linguagem das pessoas, o que sobrará de genuíno e distintivo para os humanos?
Essa reflexão serviu de fio condutor do painel com a cientista e investidora Rana El Kaliouby, co-fundadora da startup IA Affectiva. Em um bate-papo mediado por Bob Sapien, ex-editor da revista Fast Company, El Kaliouby defendeu que o avanço da IA nos negócios e na vida cotidiana deve ser pautado pelos humanos no centro da tecnologia, e que a máquina pode ser mais inteligente, contanto que o ser humano permaneça mais sábio.
“Acredito que a IA não deve substituir nossas habilidades. Ela deve, na verdade, amplificar e aprimorar o que podemos fazer. E, idealmente, podemos aproveitar a IA e usá-la para resolver problemas realmente significativos”, disse El Kaliouby.

Outro grande nome que ressaltou a importância das habilidades humanas foi o cineasta Steven Spielberg, que destacou a importância da intuição como ferramenta de decisão. Em uma conversa com Sean Fennessey, apresentador do podcast The Big Picture, ele contou que, a depender do filme que irá fazer, prefere dispensar storyboards. Foi o caso em A Lista de Schindler e O Resgate do Soldado Ryan.
“São as situações mais divertidas para mim, porque me surpreendo. Acordo de manhã e sei quantas páginas preciso preencher, mesmo que ainda não saiba ao certo como preenchê-las. É empolgante”, contou. “Nosso melhor traço é a intuição. Se você realmente ouvi-la, se deixá-la te conduzir ao longo do dia, será muito melhor do que ficar intelectualizando tudo”, afirmou.
A discussão sobre emoções apareceu com mais força e com mais urgência no SXSW 2026. A percepção geral é de aumento do esgotamento, impulsionado por um ambiente de trabalho mais intenso, instável e pressionado por performance.
O tema da saúde mental foi bastante presente. No painel “Por que os benefícios de saúde mental inovadores são o futuro do trabalho”, Sherry Rais, CEO da Enthea, disse que a saúde mental não tratada custa à economia e aos empregadores dos EUA cerca de 2,7 trilhões de dólares.
“A questão é que, quando alguém tem depressão ou ansiedade subjacente não tratada e também possui, por exemplo, uma condição cardíaca, diabetes ou câncer, o custo para tratar essas doenças pode subir de seis a sete vezes. Isso ocorre devido à incapacidade de seguir protocolos ou tomar a medicação conforme prescrito."
Para a executiva, programas de bem-estar, horários flexíveis e aplicativos de meditação ajudam, mas atingem apenas parte da equação. Eles aliviam sintomas sem necessariamente alterar o sistema que produz o problema.
“Então, em vez de apenas oferecer algum tipo de solução ou encontrar o mesmo ou mapear [sintomas], queremos pensar em como chegamos à causa raiz do trauma, e se conseguirmos chegar à causa raiz do trauma, então talvez você possa se curar”, acrescentou.
Esther Perel, psicoterapeuta, autora de best-sellers e veterana de SXSW, falou sobre a história de um homem que se apaixonou por uma inteligência artificial. O caso é tema do próximo episódio de seu podcast Where Should We Begin?, onde ela aconselha indivíduos e casais em momentos complexos de suas vidas.
A relação entre os dois se dá majoritariamente pelo WhatsApp, e outra ferramenta foi usada para dar voz à IA. Perel conta que, ao atender o paciente, não conseguia deixar de pensar no filme Her, em que o solitário escritor Theodore se apaixona por Samantha, a voz do sistema operacional de seu computador. Por isso, para falar sobre o assunto, trouxe o diretor do filme, Spike Jonze, para o SXSW.
Segundo a terapeuta, o maior dilema não está no relacionamento amoroso entre o homem e a IA, mas em como os seres humanos estão entendendo o amor. “Um amor que é tão seguro que você nunca precisa se preocupar em ser rejeitado, ser traído ou ter o coração partido. Um amor sem fricções”, reflete.
Perel argumenta que um uso mais saudável da IA seria o dela como ferramenta, algo adjacente e não substituta de uma interação humana. “Ao se acostumar com a disponibilidade indiscriminada e sem vontade própria dos sistemas de inteligência artificial, as pessoas mudariam suas expectativas também em relação aos outros seres humanos”.
| Presença brasileira também é destaque no SXSW A participação brasileira atingiu um patamar histórico, com o país mantendo o posto de maior delegação estrangeira do evento. O destaque foi para a SP House, que estabeleceu novo recorde ao atrair mais de 31 mil visitantes ao longo de quatro dias - um aumento de 107% em relação a 2025. A casa ocupou um espaço de 2,2 mil m² na Congress Avenue com a 3rd Street. Com quase 60 horas de conteúdo, o hub operou como um centro de negócios e visibilidade para startups nacionais. A ideia é que 2026 traga também avanços em negócios gerados sobre o patamar de R$ 172 milhões atingidos em 2025. Mas quem passou por lá também viu cultura brasileira, com destaque para o cinema, com a estreia mundial do filme Beast Race, do diretor Fernando Meirelles. Entre as atrações musicais, o espaço recebeu Mariana Nolasco, NX Zero, Unna X e o projeto Dominguinho, de João Gomes, Mestrinho e Jota.Pê. Em outro eixo, o estado de Minas Gerais também marcou presença, com o Minas Day e a Casa Minas, que promoveu negócios e a cultura mineira durante o SXSW. |
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