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“Nunca mais parei”: como a escalada indoor conquistou quem nunca imaginou subir uma parede  

Da força física ao controle da ansiedade, escalada indoor atrai novos praticantes e transforma a relação com o corpo, o medo e a confiança

Escalada indoor
Escalada indoor - Imagem: Pexels

Foi por acaso. A jornalista Juliana Vaz tinha acabado de se mudar de bairro quando passou em frente à Casa de Pedra, um ginásio de escalada indoor em São Paulo, e ficou curiosa. Pesquisou e descobriu que dava para conhecer o espaço comprando uma diária avulsa. Decidiu ir sozinha, sem conhecer ninguém, algo um pouco incomum em um esporte em que a maioria chega em grupo ou em dupla. Aquele dia foi em novembro de 2017. “Nunca mais parei”, ela conta.

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A história de Juliana é uma entre tantas. É que, já tem algum tempo, a escalada indoor saiu do nicho e passou a atrair um pessoal bem mais variado. O interesse é algo que a professora Thais Makino, da Fabrica de Pedra, relaciona a entrada da modalidade nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020. “É um esporte jovem e as pessoas estão buscando algo novo para praticar”, explica.

Com a exposição olímpica, a percepção mudou e o público passou a ver a escalada como uma prática segura quando bem orientada. Afastou-se, assim, da fama de esporte radical que carregava até pouco tempo atrás.

Juliana Vaz
Juliana Vaz

É preciso aprender a cair

Em vez de rochas naturais, a escalada indoor acontece em estruturas artificiais instaladas em ginásios, que oferecem mais segurança e facilitam o acesso. Por lá, ela pode ser praticada de algumas formas.

O boulder é a mais democrática, com paredes mais baixas, sem cordas, com colchões grossos amortecendo a base. Thais conta que não é preciso curso prévio nem domínio de técnicas de segurança com corda para começar.

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“É preciso aprender a cair no colchão, rolando de maneira parecida com o parkour”, explica. Dá para praticar sozinho ou acompanhado, o que facilita bastante a entrada de gente nova na comunidade.

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Tem também o top rope, que depende de uma corda fixada no topo da parede, passando por um sistema de segurança, com outra pessoa assegurando do chão. A guiada, ou lead, é a mais técnica das três: o escalador sobe clipando a corda em pontos de proteção conforme avança, sem ter a segurança de uma corda já fixada acima. Isso exige mais controle emocional e leitura de risco a cada movimento.

A escalada movimenta o corpo inteiro

Os movimentos, aliás, são bem variados e recrutam praticamente o corpo inteiro: costas, core, pernas, antebraços e a força dos dedos entram em ação o tempo todo. A exigência muda de acordo com o estilo de escalada, a inclinação da parede e o tipo de agarra disponível.

Juliana Vaz
Juliana Vaz

Um reglete, agarra pequena que exige força concentrada nas pontas dos dedos, pede uma resposta muito diferente de um sloper, presa arredondada e sem relevo que depende quase inteiramente do atrito entre a pele e a parede. Uma concha, grande e profunda, permite descansar e recuperar o fôlego. Já uma pinça, por outro lado, obriga o polegar a trabalhar em oposição aos outros dedos para sustentar o peso do corpo.

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Ler essas agarras e decidir qual movimento usar em cada uma é, de acordo com Thais, tão importante quanto a força em si. Com o tempo, o aluno aprende a dividir o peso do corpo entre membros superiores e inferiores, poupa energia e se adapta melhor.

O desempenho e o resultado

Técnicas específicas fazem parte do repertório que o aluno vai construindo aos poucos. Como o flagging, por exemplo, que consiste em abrir uma perna para o lado e usar o próprio corpo como contrapeso. Ou o drop knee, que gira o joelho para dentro e aproxima o quadril da parede para ganhar alcance sem gastar energia extra. Ou ainda o heel hook, que encaixa o calcanhar numa agarra para puxar o corpo em vez de empurrar.

Juliana Vaz
Juliana Vaz

“A distribuição do desempenho é bastante equilibrada: uma parcela depende da força e outra depende da estratégia e da técnica empregadas”, resume Thais. No início, a força ajuda a compensar a falta de repertório, mas é o domínio da técnica que permite a evolução a longo prazo, evitando o vício em movimentos incorretos, difícil de desaprender depois.

Para Juliana, essa visão mais integrada do corpo também mudou a relação com a própria imagem. “A escalada me fez virar uma chave importante: parar de me preocupar em como meu corpo se parece, e sim no que ele é capaz de fazer. Foi me ajudando a ter uma relação mais saudável e a pensar menos em ser magra, em comer bem para ter energia em vez de contar calorias”, conta. 

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O medo não desaparece

Além do físico, a escalada exige uma concentração quase total. Qualquer distração pode resultar em uma queda e é por isso que muitos alunos comentam que a prática ajudou a controlar a ansiedade.

“Tem que estar inteiramente presente e esquecer o restante das preocupações”, diz Thais, que relaciona a prática a um processo contínuo de resolução de problemas, com planejamento e improvisos. 

“É frequente a comparação da escalada com um quebra-cabeça ou um problema matemático, pois movimenta profundamente a mente”, afirma a professora.

Escalada indoor
Escalada indoor

Essa vivência, ela diz, ajuda na autoconfiança: à medida que o praticante evolui e supera desafios, percebe uma capacidade de realizar uma via, nome dado a cada percurso marcado na parede, mais complexa do que imaginava ser capaz.

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O medo também faz parte do processo, mesmo no boulder, com suas paredes mais baixas. É difícil fugir da queda, e aprender a cair com segurança é uma das primeiras coisas ensinadas em aula, numa progressão que respeita o ritmo de cada aluno, começando com quedas de pouca altura e aumentando aos poucos.

Mesmo assim, Thais lembra que o medo não desaparece. O trabalho é ensinar o aluno a conviver com ele, sem deixar que isso paralise a escalada.

Para Juliana, esse aprendizado é pessoal. A escalada, ela diz, a ajudou a lidar com questões psiquiátricas e a regular o estresse e a ansiedade do dia a dia.

“Eu vejo as paredes que subo, a dificuldade dos movimentos, a superação do medo, e isso se reflete em como lido com as minhas questões internas”, afirma.

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"É o meu mundinho"

Apesar de ser um esporte individual, os ginásios de escalada têm um espírito bem forte de comunidade. É comum ver praticantes intercalando escaladas com conversas sobre como resolver determinado movimento, trocando dicas de sequência entre uma tentativa e outra.

Escalada indoor
Escalada indoor

No top rope e na guiada, a corda muda a natureza da relação: para escalar, é preciso confiar a própria segurança a um parceiro, o que exige, explica Thais, uma relação de extrema confiança. Fora do ginásio, os grupos costumam se organizar para viajar, visitar montanhas e passar fins de semana escalando ao ar livre.

Foi esse caminho que Juliana seguiu. Ela optou por seguir para o outdoor, o que trouxe novos desafios: procedimentos de segurança específicos, equipamentos como capacete, freios e cordas, e variáveis como mudança de tempo, erosão da rocha e até bichos pelo caminho, como ninhos de vespa ou de passarinho escondidos no meio da parede.

A comunidade ocupa hoje um espaço grande em sua vida. Ela já trabalhou como social media da Confederação Brasileira de Escalada, faz amigos no ginásio e nas viagens, e organiza sua rotina em função da escalada, combinando treinos, jantares e passeios com o mesmo grupo de pessoas. “É meu mundinho”, brinca.

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Não é um esporte fácil

A escalada também não escolhe idade nem histórico esportivo. Thais conta que não é raro receber alunos que nunca praticaram nenhuma atividade física e que se apaixonam já nas primeiras aulas. Mas ela é honesta com quem chega: “Explico desde a primeira aula que não é um esporte fácil”, ela diz, já que pode doer as mãos e gerar frustração no início.

Mesmo assim, a escalada permite que pessoas com biotipos, capacidades e limitações diferentes encontrem seu próprio jeito de resolver cada movimento. O pai dela é um exemplo: começou a praticar boulder por volta dos 40 anos e, aos 71, continua escalando. “Não pode ficar sem”, conta.

O erro mais comum entre iniciantes, segundo ela, é não prestar atenção às orientações passadas pelos instrutores logo no primeiro dia. Ignorar essas regras pode levar a quedas mal executadas no colchão do boulder ou ao uso incorreto dos equipamentos no top rope, o que aumenta o risco de torções e outros acidentes. Por isso, a checagem dupla dos equipamentos, do próprio praticante e do parceiro, é obrigatória antes de qualquer escalada com corda.

Escalada indoor
Escalada indoor

No boulder, é só observar se não há ninguém embaixo da linha de subida e se a rota não vai cruzar com a de outro praticante. “A escalada é segura, muito divertida e coletiva, mas exige cuidados constantes”, resume a professora.

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“É um esporte acolhedor", diz Juliana. “As pessoas sentem um prazer real de incluir os outros, o desafio mental e físico tira o foco dos problemas e te traz para o momento presente.”

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