Carros voadores estão perto de virar realidade em Nova York – e pode custar o preço de uma corrida de Uber
Táxis aéreos elétricos começam a sair do papel nos Estados Unidos, atraem bilhões de dólares e apoio do governo

O filme De Volta para o Futuro, de 1985, prometeu um mundo com carros voadores até 2015. Por muito tempo, porém, essa realidade pareceu bem mais distante do que previa a ficção. A visão criada por Hollywood, no entanto, começa, enfim, a sair do papel.
Nova York está prestes a se tornar um dos primeiros laboratórios do mundo para os chamados eVTOLs, aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical que prometem transformar um trajeto de até duas horas de carro em um voo de menos de dez minutos.
A proposta parece ambiciosa. Desta vez, porém, ela vem acompanhada de bilhões de dólares em investimentos, do apoio de grandes companhias aéreas e da autorização do governo americano para começar a operar fora dos hangares.

A corrida para tirar os "carros voadores" da ficção
Quem lidera essa corrida é a Joby Aviation. A empresa, avaliada em cerca de US$ 7,6 bilhões, aposta que, em poucos anos, passageiros poderão sair da Times Square e chegar ao aeroporto JFK em menos de dez minutos. Hoje, porém, o mesmo percurso costuma levar entre 45 minutos e duas horas de carro, dependendo do trânsito, além de custar aproximadamente US$ 100 (cerca de R$ 510).
Segundo Paul Sciarra, presidente do conselho da companhia, a meta é que, no futuro, o preço da viagem aérea fique próximo ao de um carro por aplicativo.
Para isso, a empresa desenvolveu uma aeronave elétrica equipada com seis rotores, capaz de decolar verticalmente, voar a cerca de 320 metros de altitude e transportar quatro passageiros, além do piloto, por até 160 quilômetros.
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O governo americano decidiu acelerar os testes
A principal novidade veio neste verão americano. O governo dos Estados Unidos lançou o Engineering and Innovation Pilot Program (EIPP), um programa federal que autoriza fabricantes de eVTOLs a iniciarem operações reais antes mesmo da certificação completa da Administração Federal de Aviação (FAA).
Em um primeiro momento, os voos serão destinados ao transporte de cargas. Depois, as empresas poderão realizar voos experimentais com passageiros. O objetivo é acelerar a coleta de dados operacionais e reduzir o tempo entre o desenvolvimento da tecnologia e sua chegada ao mercado.
O anúncio do programa, aliás, veio acompanhado de um vídeo de "Os Jetsons", desenho que popularizou o conceito de carros voadores ainda nos anos 1960, um símbolo de como a ficção começa, aos poucos, a encontrar a realidade.
Toyota, Uber, Delta e Boeing já apostaram bilhões
A Joby não está sozinha nessa disputa. Entre seus investidores estão Toyota, Uber e Delta Air Lines, empresas que enxergam nos táxis aéreos uma oportunidade para revolucionar os deslocamentos urbanos.
A companhia pretende iniciar operações com carga ainda este ano em Nova York, Nova Jersey, Texas e Flórida. Já os primeiros voos experimentais com passageiros devem acontecer entre o fim do outono e o inverno americanos.
Outra concorrente é a Archer Aviation, avaliada em aproximadamente US$ 3,7 bilhões. A empresa conta com a United Airlines entre seus investidores e pretende colocar seu modelo Midnight em operação comercial até os Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 2028.
De acordo com o fundador e CEO da Archer, Adam Goldstein, cidades como Los Angeles são um terreno fértil para esse tipo de serviço. Afinal, muitos deslocamentos têm menos de 32 quilômetros, mas ainda assim consomem mais de uma hora no trânsito.
Também participam da corrida a Beta Technologies, apoiada por Amazon e GE Aerospace, além da Wisk Aero, subsidiária da Boeing dedicada ao desenvolvimento de aeronaves totalmente autônomas.

O maior desafio não é fazer a aeronave voar
Do ponto de vista tecnológico, boa parte dos especialistas acredita que os maiores obstáculos já foram superados.
Os eVTOLs utilizam diversos rotores independentes. Isso significa que, mesmo diante de uma falha em um dos motores, a aeronave mantém redundâncias que aumentam sua segurança. Isso já é uma vantagem em relação aos helicópteros tradicionais, que dependem de um rotor principal.
Além disso, os motores elétricos exigem menos manutenção do que sistemas movidos a combustão. Mesmo assim, convencer passageiros a embarcarem em uma aeronave completamente nova pode levar mais tempo do que convencer os reguladores.
Um novo desafio: organizar o trânsito no céu
Diferentemente dos aviões comerciais, que voam acima de 10 mil metros de altitude, os táxis aéreos deverão operar a menos de 1.200 metros, compartilhando um espaço muito menor sobre grandes centros urbanos.
Em São Paulo, por exemplo, esse pode ser um desafio, já que a cidade concentra a maior frota e um dos maiores volumes de tráfego de helicópteros do mundo, à frente de Nova York e Tóquio. Por outro lado, esse cenário também revela o potencial do mercado de táxis aéreos. Em horários de pico, uma viagem de carro entre o centro e o Aeroporto Internacional de Guarulhos pode levar até duas horas.
Na prática, isso exigirá sistemas muito mais automatizados de gerenciamento de tráfego aéreo. A Joby já começou a se preparar para esse cenário. Em 2025, aliás, a empresa adquiriu a Blade Air Mobility, operadora que realiza cerca de 200 voos diários de helicóptero em Nova York.
Além da experiência operacional, a compra mostrou um indicativo importante para o setor. Hoje, uma viagem de helicóptero até o aeroporto JFK já custa cerca de US$ 195, valor próximo ao de um Uber Black em determinados horários.
Para analistas, esse é o ponto decisivo para a popularização dos eVTOLs. A tecnologia só deverá ganhar escala quando o preço das corridas se aproximar do transporte por aplicativo tradicional.
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