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HERANÇA EM DISPUTA

Succession da vida real: herdeiros disputam controle de gigante de vinhos avaliada em US$ 10 bilhões

Aos 99 anos, fundador do Grupo Castel vê plano de sucessão criado para evitar conflitos se transformar no centro de uma disputa envolvendo sua filha e sobrinho

Pierre Castel, fundador do Grupo Castel
Pierre Castel, fundador do Grupo Castel - Imagem: Vincent Fournier/Jeune Afrique

Quando Pierre Castel começou a construir seu império de bebidas nos arredores de Bordeaux, na França, nos anos 1940, provavelmente imaginava enfrentar desafios de mercado, concorrência e expansão internacional. O que ele talvez não imaginou é que, aos 99 anos, viveria uma disputa familiar que coloca em risco um grupo avaliado em cerca de US$ 10 bilhões (R$ 51,5 bilhões)

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A disputa envolve sua única filha, Romy Castel, seu sobrinho Alain Castel e Gregory Clerc, executivo escolhido pelo próprio fundador para liderar os negócios da família. O caso tramita atualmente na Suprema Corte de Singapura e pode ir a julgamento ainda este ano, segundo informações divulgadas pela Bloomberg.

Como nasceu o império Castel

A história do Grupo Castel começou na década de 1940, quando Pierre Castel fundou uma pequena operação de vinhos na região de Bordeaux. Ao longo das décadas, o negócio se expandiu para além da França e passou a atuar em diferentes segmentos de bebidas.

Hoje, o conglomerado reúne mais de 150 subsidiárias, emprega cerca de 43 mil pessoas em 35 países e registra receita anual de aproximadamente 6,5 bilhões de euros (R$ 38,4 bilhões).

O conglomerado reúne algumas das marcas de vinho mais populares da França, como Baron de Lestac, Roche Mazet, Malesan, Vieux Papes, La Villageoise, Listel e Cellier des Dauphins. Parte desses rótulos também estão no mercado brasileiro por meio de importadoras e lojas especializadas, com preços que costumam variar entre R$ 50 e R$ 160 por garrafa.

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Nicolas, rede de lojas de bebidas na França, também pertence ao Grupo Castel
Nicolas, rede de lojas de bebidas na França, também pertence ao Grupo Castel/ Foto: Ppol B.

Além da produção de vinhos, o grupo é dono da Nicolas, uma das mais tradicionais redes francesas de lojas especializadas em bebidas. Fora da Europa, a empresa também se tornou uma potência no mercado africano de bebidas, com marcas de cerveja como Castel Beer e Flag.

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O plano para evitar uma guerra entre herdeiros

Há mais de 30 anos, Pierre Castel começou a desenhar um plano de sucessão complexo. Um roteiro parecido com o de Logan Roy, personagem da famosa série Succeccion (2018 - 2023). Seu objetivo era preservar a continuidade do império empresarial e evitar que disputas entre herdeiros colocassem em risco o controle e o futuro dos negócios após sua saída.

Para isso, o empresário espalhou a estrutura de propriedade por diferentes partes. Primeiro, concentrou o controle do grupo em uma empresa sediada em Gibraltar. Em seguida, criou uma fundação em Liechtenstein. Por fim, em 2008, estabeleceu um trust em Singapura. Na prática, o trust funciona como uma estrutura jurídica que transfere a administração de um patrimônio para gestores independentes, conhecidos como trustees.

Pierre Castel acreditava que esse modelo protegeria o grupo de disputas familiares e permitiria que os lucros continuassem sendo reinvestidos para sustentar o crescimento da companhia. Ou seja, seu receio era que seus sucessores vendessem o negócio e disputassem a herança.

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Quando a proteção vira motivo de conflito

O problema surgiu porque os herdeiros não compartilham da mesma visão. A estrutura criada por Pierre inclui diversas entidades responsáveis por controlar diferentes partes do grupo. Entre elas está a IBBM, empresa encarregada de distribuir dividendos para os cinco ramos da família.

Embora o plano original previsse limitar a influência da segunda geração na gestão, Romy Castel afirma que a estrutura concede poder significativo a quem controla a IBBM.

Em nota, os advogados da herdeira argumentam que essa entidade influencia a composição dos conselhos responsáveis por supervisionar outras empresas do grupo. Em outras palavras, quem controla a IBBM pode exercer influência relevante sobre a governança de todo o império.

Romy e Alain Castel, filha e sobrinho de Pierre Castel
Romy e Alain Castel, filha e sobrinho de Pierre Castel/ Foto: Khanh Renaud e Archives C. Petit/ SO

"Conversei um pouco com ele sobre a situação, sem me prender aos detalhes. Ele mora comigo. Ele luta como sempre, faz seus exercícios todos os dias. Quero preservá-lo e que seus desejos sejam respeitados", disse a filha Romy ao Le Point.

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O homem escolhido para comandar o império

Outro personagem fundamental nessa história é Gregory Clerc. Antes de assumir a liderança do Grupo Castel, Clerc atuava como advogado de Pierre Castel. Ele ganhou destaque ao defender o empresário em uma disputa tributária na Suíça, encerrada em 2022.

No ano seguinte, Pierre o nomeou CEO do conglomerado. Desde então, Clerc passou a ocupar posição central na estrutura de comando do grupo. Para Romy Castel e Alain Castel, no entanto, o executivo acumulou influência excessiva.

Em entrevista à Bloomberg concedida em dezembro, Romy afirmou que Clerc estaria "tentando assumir o controle" da empresa.

Gregory Clerc, CEO do Grupo Castel
Gregory Clerc, CEO do Grupo Castel/ Divulgação/ LinkedIn

A ruptura dentro da família

As tensões aumentaram ainda mais quando Alain Castel perdeu seus assentos nos conselhos da D.F. Holding e da Cassiopee, duas peças importantes da estrutura societária do grupo.

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Os trustees removeram Alain dessas posições em dezembro, sem divulgar publicamente uma justificativa. Apesar disso, ele continua responsável pelo braço de vinhos da companhia.

Após sua saída dos conselhos, Alain passou a questionar abertamente a atuação de Clerc e o modelo de governança adotado pelo grupo. A partir desse momento, a disputa deixou os bastidores e chegou aos tribunais.

Inicialmente, Romy e Alain tentaram destituir Gregory Clerc e Pierre Baer, presidente do conselho, por meio de assembleias e votações internas. Agora, sem sucesso, eles recorreram à Justiça de Singapura, onde o caso segue em tramitação na Suprema Corte e pode chegar a julgamento ainda este ano.

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