Quem é Ruy Castro, biógrafo vencedor do prêmio Jabuti, que passou seis anos escrevendo o Livro do Ano
Autor de biografias de Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda, escritor conquistou uma das principais premiações do mercado editorial brasileiro

Ruy Castro tinha apenas 5 anos quando ganhou uma máquina de escrever e começou a registrar tudo o que lhe vinha à cabeça, de cinema a futebol. Mais de sete décadas depois, esse hábito de pesquisar, observar e escrever se transformou em uma carreira que atravessa o jornalismo, a literatura e a história cultural brasileira.
Aos 78 anos, o escritor mineiro acaba de conquistar o Prêmio Jabuti de Livro do Ano pela segunda vez consecutiva. Na terça-feira (27), levou o principal troféu da 68ª edição da premiação com Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio, publicado pela Companhia das Letras. A obra também venceu na categoria Biografia e Reportagem.
Um ano antes, inclusive, Castro havia recebido o mesmo reconhecimento por O ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim, coletânea de textos sobre o compositor.
Além da estatueta especial, Ruy Castro recebe R$ 70 mil e uma viagem, em 2027, para uma das quatro feiras internacionais previstas no regulamento: Londres, Bolonha, Frankfurt ou Guadalajara.
Autor de biografias muitas biografias, entre elas as de Nelson Rodrigues, Carmen Miranda e Garrincha, Castro construiu sua trajetória entre as redações de jornais e revistas, a boemia carioca e décadas de pesquisa sobre personagens e períodos marcantes da cultura brasileira.
Da infância em Minas Gerais ao jornalismo
Nascido em 1948, em Caratinga, no interior de Minas Gerais, Ruy Castro desenvolveu desde cedo duas paixões que o acompanhariam por toda a vida: a escrita e o cinema.
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Aos 6 anos, já frequentava salas de exibição diariamente. Décadas depois, esse interesse pelos filmes se tornaria também uma ferramenta de pesquisa, ajudando o escritor a reconstruir os ambientes e as referências culturais de seus biografados.
Em 1965, mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar Ciências Sociais na então Faculdade Nacional de Filosofia, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A carreira acadêmica, entretanto, deu lugar ao jornalismo. Dois anos depois, aos 19 anos, começou a trabalhar como repórter no Correio da Manhã.
A partir daí, passou por alguns dos principais veículos da imprensa brasileira, entre eles Manchete, Jornal do Brasil, Veja, IstoÉ, O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo, além da TV Globo. A experiência nas redações consolidou sua prática de apuração, que mais tarde seria aplicada à produção literária.
Desde 2007, Castro mantém uma coluna na Folha de S.Paulo, na qual escreve sobre cinema, literatura, música e história. O espaço mantém vivo o interesse pela cultura popular que acompanha o autor desde a infância.
Da boemia às biografias
Além do trabalho nas redações, a vida noturna carioca também fez parte da trajetória de Castro. Em entrevista à Revista Velvet, o escritor contou que, até os 50 anos, passava boa parte da vida na madrugada. Essa experiência, segundo ele, contribuiu para a compreensão dos ambientes e personagens que mais tarde levaria aos livros.
Embora a música e o cinema sempre tenham feito parte de seus interesses, a palavra escrita foi o caminho que escolheu para se expressar. Em entrevista ao jornal literário Rascunho, em 2018, explicou: "Nunca pensei em fazer outra coisa que não fosse trabalhar com a palavra. Nunca quis desenhar, nunca quis fazer música, nunca quis dirigir filmes. São formas de expressão que também me acompanham pela vida inteira, mas como consumidor, como fruidor. Na hora de sentar e produzir, o que me faz sentir em casa é a palavra".
Foi a partir de 1990, quando publicou Chega de Saudade: A História e as Histórias da Bossa Nova, que Castro começou a consolidar sua trajetória em livros. A obra reconstitui o surgimento do movimento musical e o ambiente cultural que transformou o Rio de Janeiro em um dos principais centros da música brasileira.
Dois anos depois, o escritor lançou O Anjo Pornográfico: A Vida de Nelson Rodrigues, dedicado ao dramaturgo e jornalista. Em 1995, publicou Estrela Solitária: Um Brasileiro Chamado Garrincha, sobre o jogador de futebol. Já em 2005, foi a vez de Carmen: Uma Biografia, sobre a cantora e atriz Carmen Miranda.
Essas obras ajudaram a consolidar Castro como um dos principais biógrafos do país. Em seus livros, porém, o autor não se limita a reconstituir a trajetória individual de cada personagem. Ao investigar suas vidas, também recupera os ambientes culturais, as transformações sociais e os acontecimentos históricos que as cercaram.
Como Ruy Castro escreve suas obras
Para escolher um tema, o escritor procura ter certeza de que conseguirá manter o interesse durante todo o processo de pesquisa e escrita. Essa imersão aparece, por exemplo, no trabalho sobre Carmen Miranda. Para compreender as referências que influenciaram a cantora, Castro assistiu a filmes de atrizes como Greta Garbo e Norma Shearer. Também recorreu a produções ambientadas nos lugares onde ela viveu, nos Estados Unidos, para conhecer melhor os cenários de sua trajetória.
O método exige tempo e pesquisa documental, além do contato com pessoas que conviveram com os biografados. Castro defende que a escrita de uma biografia depende de uma imersão prolongada na vida do personagem, capaz de ajudar o autor a identificar imprecisões em relatos e lembranças.

Esse processo também marcou Trincheira tropical. Para escrever o livro premiado em 2026, Castro dedicou seis anos ao projeto, dos quais um ano e meio foi destinado à escrita e o restante a pesquisa.
"Não acredito em biografia feita em um ano. Ultimamente, nem em dois. Você tem que levar mais tempo. Tem que se impregnar de tal maneira da vida do personagem, à medida que você vai acumulando informações, que você vai aprendendo sobre ele, de tal maneira que, quando você conversa com pessoas que te dão certas informações, ou te dão uma certa visão da coisa porque a memória traiu, mentiu ou isso e aquilo, você já sabe que o cara está errado, que não é aquilo", disse.
"O Rio de Janeiro como personagem
A pesquisa de Castro também está ligada à sua relação com o Rio de Janeiro. Embora tenha morado em São Paulo por 16 anos e passado três anos em Portugal, o escritor mantém a cidade carioca como uma referência central de sua produção.
Essa ligação aparece em diferentes livros, aliás. Em Ela é carioca: Uma Enciclopédia de Ipanema, reúne personagens e histórias do bairro. Em A Noite do Meu Bem, investiga a trajetória do samba-canção. Já em Metrópole à Beira-Mar: O Rio Moderno dos Anos 20, reconstrói as transformações urbanas e culturais da antiga capital federal.
Em Trincheira tropical, o Rio volta ao centro da narrativa. A obra acompanha o período entre 1935 e 1945, quando a cidade ainda era a capital do Brasil, e mostra como a Segunda Guerra Mundial repercutiu no cotidiano dos cariocas.
Entre os temas abordados estão as disputas políticas durante o governo de Getúlio Vargas, a influência de ideologias europeias e a mobilização que antecedeu a entrada brasileira no conflito.
Da literatura à Academia Brasileira de Letras
O reconhecimento de Castro, entretanto, não se limita ao Jabuti. Em 2021, ele recebeu o Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras (ABL) pelo conjunto da obra. No ano seguinte, foi eleito para a cadeira 13 da instituição e tomou posse em 2023.
Casado desde 1991 com a escritora Heloisa Seixas, Castro também se dedicou a romances, crônicas e ensaios. Entre essas obras está Bilac Vê Estrelas, romance publicado em 2000. Além disso, escreveu A Vida por Escrito: Ciência e Arte da Biografia, de 2022, no qual discute os desafios e os métodos envolvidos na reconstrução de uma trajetória pessoal.
Ao longo da carreira, o escritor transitou entre diferentes gêneros, mas manteve um interesse constante por personagens, cidades e períodos que ajudam a explicar a cultura brasileira. A conquista consecutiva do Jabuti coloca novamente essa produção em evidência.
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