Fórmula 1 vira pista das fintechs para conquistar clientes: como Nubank e Revolut querem transformar a paixão pelas corridas em negócios
Na semana do GP de São Paulo, as fintechs apostam em experiências e lifestyle para conquistar espaço na preferência dos consumidores

A disputa por uma parada nos boxes pode ser decidida em poucos segundos. Já conquistar a preferência de um consumidor exige uma corrida bem mais longa. É nessa segunda competição que Nubank e Revolut apostam ao levar suas marcas para a Fórmula 1.
Patrocinadores de Mercedes e Audi, respectivamente, os bancos digitais querem transformar a exposição nas pistas em experiências capazes de criar uma conexão mais próxima com o público.
Em São Paulo, na semana do Grande Prêmio de 2026, essa estratégia ganhou forma fora dos circuitos.
Nos últimos dias, o Nubank montou uma espécie de garagem da Mercedes aberta aos fãs, com carro de corrida, simuladores e até um desafio de troca de pneus.
A Revolut, por sua vez, reuniu pilotos, executivos e centenas de influenciadores digitais para apresentar a pintura especial do Audi para a etapa brasileira. O evento combinou automobilismo, moda e música — uma tentativa de aproximar a marca de universos que vão além dos serviços financeiros.
Os campeões e a linha de chegada
Nas pistas, a temporada já tem um campeão de pilotos: Kimi Antonelli, da Mercedes. A equipe também chegava à reta final na disputa pelo título de construtores, com três pontos de vantagem sobre a rival mais próxima, Ferrari.
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Fora delas, porém, a corrida é outra. Para Nubank e Revolut, a Fórmula 1 funciona como uma vitrine global, mas o objetivo vai além de exibir logotipos nos carros e nos macacões.
As fintechs querem mobilizar torcidas, aproximar os fãs das equipes e associar seus serviços a atributos como velocidade, inovação e estilo de vida — na tentativa de transformar a paixão pelo automobilismo em preferência pela marca.
Nubank quer transformar clientes em torcedores
No alto do Nubank Parque, na Água Branca, a Nu House virou uma espécie de garagem da Mercedes, convidando os fãs a mergulhar no universo da escuderia.
O espaço reúne referências à história da equipe na Fórmula 1 e equipamentos que ajudam a aproximar os visitantes da rotina dos pilotos.
A principal atração é uma réplica do W17 E Performance, acompanhada de macacões, capacetes, luvas e botas dos pilotos Kimi Antonelli e George Russell.

A proposta não é deixar o público apenas diante de objetos de exposição. Em uma das ativações, o visitante pode aparecer virtualmente vestido com o uniforme oficial dos pilotos.
Em outra, duplas colocam a agilidade à prova em uma troca de pneus contra o relógio, inspirada nas rápidas paradas de pit stop da Fórmula 1 — aquelas em que a equipe executa o famoso “box, box” pelo rádio.
Há ainda simuladores que reproduzem o traçado de Interlagos e uma pista de autorama em que cartões do Nubank se transformam em carrinhos de corrida. DJ, brindes exclusivos e uma loja temporária da Adidas, com produtos oficiais da escuderia, completam o percurso.
O Nubank apresenta a Nu House como a maior experiência imersiva dedicada a uma escuderia já realizada em São Paulo. Aberto entre 4 e 8 de novembro, o espaço faz parte de uma parceria com a Mercedes que começou a ganhar forma no início da temporada, com ativações também em Miami, Silverstone e no México.

Acelerando para fora
A escolha da Fórmula 1, segundo a cofundadora do Nubank, Cris Junqueira, está ligada ao momento de expansão internacional da fintech. O banco digital atende mais de 140 milhões de clientes no Brasil, no México e na Colômbia, além de avançar nos Estados Unidos. Com o produto Nu Global, também oferece conta a clientes de mais de 35 países.
Para a executiva, a Fórmula 1 oferece ao Nubank a oportunidade de ampliar o alcance da marca e se conectar com um público diverso.
O perfil dos fãs ajuda a explicar o interesse da instituição: mulheres já representam 42% da audiência da categoria, enquanto 43% dos fãs têm menos de 35 anos. No Brasil, mais de 38 milhões de pessoas passaram a se declarar fãs do esporte neste ano, segundo Junqueira.
“Era importante a gente levar a nossa marca para um palco global, e esse palco global é a Fórmula 1”, afirmou.
A aposta também se beneficia da renovação do interesse brasileiro pelo automobilismo e da presença de pilotos com apelo junto ao público local.
Em Miami, por exemplo, Antonelli e Russell correram com macacões especiais em tons de roxo, que traziam referências à trajetória internacional do Nubank: as coordenadas da garagem no Brooklin, onde a empresa começou, dos escritórios no México e na Colômbia e do estádio em Miami que leva o nome da instituição.
Para a etapa brasileira, a inspiração mudou de endereço e de época. A coleção foi pensada em torno da “Golden Era” da Fórmula 1 brasileira, associada à trajetória de Ayrton Senna. A homenagem também aparece em um capacete cedido pelo Instituto Ayrton Senna, que integra a exposição.

Uma seleção brasileira não-oficial
A aproximação com a torcida brasileira é, aliás, um dos pontos centrais da parceria.
Conectado por vídeo ao evento, Bradley Lord, vice-chefe de equipe da Mercedes-AMG Petronas F1 Team, destacou a importância de aproximar a escuderia dos fãs brasileiros, especialmente em uma etapa como a de Interlagos.
“Não queremos ser apenas uma equipe que as pessoas apoiam, mas uma equipe da qual elas façam parte”, disse.
A ambição compartilhada com o Nubank, segundo ele, é transformar a Mercedes em uma espécie de “seleção brasileira não-oficial” da Fórmula 1.
Interlagos também tem um significado especial para a equipe. Além da atmosfera criada pelos torcedores, o circuito guarda lembranças importantes para os pilotos: foi ali que Antonelli conquistou seu primeiro pódio, em 2025, e Russell venceu pela primeira vez na categoria, em 2022.
Mensagem de Lord
A edição de 2026 chega ainda embalada pelo título de Antonelli como o campeão mundial mais jovem da história da Fórmula 1. Para Lord, a conquista é resultado não apenas da velocidade do piloto, mas da capacidade de aprender com os momentos difíceis e manter a regularidade ao longo da temporada.
“Mesmo nos dias difíceis de Kimi, ele sempre encontrou uma forma de subir ao pódio”, afirmou.
Segundo o executivo, o piloto soube reconhecer quando não era possível forçar além do limite e extrair o máximo de cada corrida. “São os seus piores resultados que ganham um campeonato, não os seus melhores. Ele foi tão consistente durante todo o ano”, acrescentou.

Lord contou que Toto Wolff, chefe da equipe, costuma comparar Antonelli a um agente de inteligência artificial, pela rapidez com que o piloto absorve informações e aprende com cada experiência.
“Você simplesmente o viu aprender, absorver e transformar tudo isso em algo positivo. Neste ano, ele juntou todas as peças do quebra-cabeça, e o resultado é este: o campeão mundial mais jovem da história do esporte”, afirmou.
Em uma mensagem gravada, Wolff reforçou a intenção de aproximar a equipe dos fãs brasileiros. “Juntos, queremos dar a ainda mais fãs brasileiros a oportunidade de fazer parte do nosso time”, disse.
Revolut leva São Paulo para o carro da Audi na Fórmula 1
Se o Nubank escolheu uma garagem aberta aos fãs para aproximá-los da Mercedes, a Revolut seguiu outro caminho para apresentar sua parceria com a Audi.
Em evento fechado na Casa Fasano, em São Paulo, a fintech britânica reuniu os pilotos Gabriel Bortoleto e Nico Hülkenberg, executivos das marcas e convidados para uma noite que misturou automobilismo, moda e música.

O centro das atenções foi a pintura especial do Audi R26 para o Grande Prêmio de São Paulo.

O projeto foi pensado para celebrar a cidade e sua relação com o automobilismo, em uma edição que também marca a primeira passagem da Audi pela Fórmula 1 em Interlagos. A mesma inspiração paulistana apareceu na coleção desenvolvida pela Adidas para a equipe.
O evento teve clima de celebração, especialmente com a presença de Bortoleto. Correndo em casa, o piloto brasileiro falou sobre a expectativa de acelerar diante da torcida e o carinho que recebe dos fãs.
“Estou muito feliz de poder estar competindo de novo aqui em casa. Óbvio que para mim é uma expectativa a mais, uma pressão a mais, mas o carinho e o amor que eu recebo dos brasileiros é algo excepcional. Então, não vejo a hora de poder acelerar na frente de todo mundo”, afirmou.
O piloto também preparou um capacete especial para a etapa: branco, com grafismos e uma homenagem a Ayrton Senna. A referência escolhida foi a vitória do tricampeão em Interlagos, há 35 anos, conquistada em uma corrida marcada pelo esforço para completar a prova com apenas uma marcha.
“Não tinha momento melhor para eu fazer uma homenagem para ele”, disse Bortoleto. Depois de elogiar o visual do carro, deixou um desejo para o fim de semana: “Espero que ele seja tão rápido quanto está bonito”.

Hülkenberg também destacou a relação com o circuito brasileiro. “Interlagos sempre foi um lugar especial para mim. Adoro correr lá. Vivi muitos bons momentos, além de alguns difíceis também, mas tenho muitas lembranças felizes”, afirmou.
A corrida da Revolut fora das pistas da Fórmula 1
Para a Revolut, a escolha do Brasil tem uma dimensão que vai além da etapa da Fórmula 1.
O país é o maior mercado da empresa fora da Europa e uma das prioridades de sua expansão global. O CEO da operação brasileira, Glauber Mota, afirmou que o Brasil já está entre os mercados de maior crescimento da companhia.
“Não é apenas colocar uma marca num carro de Fórmula 1. É trazer um pouco dessa energia de vocês de São Paulo e do Brasil”, disse Mota.

Rory Miller-Cheevers, representante global da Revolut, destacou que a categoria tem afinidade com os mercados nos quais a empresa busca crescer.
Com mais de 80 milhões de clientes no mundo, a fintech vê na Fórmula 1 uma plataforma para alcançar públicos de diferentes países — do Brasil ao Japão, passando por mercados europeus e pela Austrália.
Segundo Miller-Cheevers, a Revolut quer oferecer uma experiência financeira tão rápida quanto uma parada nos boxes.
“Às vezes, é sobre velocidade. Às vezes, é sobre ser dez vezes mais barato do que tudo o que existe. E, em outras, é construir algo que pareça realmente único e novo para o setor bancário e financeiro”, afirmou.
A noite terminou com a participação de MC Livinho, reforçando a tentativa de conectar o universo da Audi e da Revolut à música e à cultura urbana de São Paulo.
Quando a Fórmula 1 sai das pistas e vira lifestyle
A presença da Adidas nas parcerias com Audi e Mercedes ajuda a entender por que a Fórmula 1 se tornou um território disputado por marcas que não vivem diretamente do automobilismo.
O esporte deixou de ser apenas uma competição entre carros e pilotos. Hoje, também movimenta moda, música, entretenimento e comunidades que se formam em torno das equipes. Uniformes e jaquetas passam a integrar o guarda-roupa de quem acompanha o universo da categoria.
“Usar a Fórmula 1 no dia a dia é usar moda, é usar lifestyle. Isso tem total conexão com o que é a essência da Adidas”, afirmou, André Chevis Svartman, diretor de marketing da Adidas Brasil.
As coleções especiais da marca para as duas scuderias foram pensadas para traduzir a identidade paulistana em peças que possam circular para além do autódromo.
Durante a semana, marcas como TAG Heuer, Lacoste e Jack Daniels também prepararam eventos em celebração à GP Week. Na quinta-feira (5), a marca de whiskies do Tennessee promoveu um talk com o campeão brasileiro Emerson Fittipaldi na loja da McLaren, em São Paulo. Ao Seu Dinheiro, Fittipaldi comentou o crescimento da relação entre o esporte, o entretenimento e o dinheiro:
"Acho que em um esporte global como a Fórmula 1, tá muito grande, é um business gigante. Com entretenimento e muita reunião B2B dentro do evento, neste fim de semana. É o esporte mais caro do mundo. O automobilismo tem também um desenvolvimento técnico, que ajuda o futuro dos carros de rua, segurança, performance, conforto. Vem tudo da corrida."
Corrida pelo bolso dos brasileiros começa depois da bandeirada da Fórmula 1
Para Nubank e Revolut, a Fórmula 1 oferece algo que a publicidade tradicional nem sempre consegue entregar: uma comunidade global de fãs, com alto envolvimento emocional e disposição para acompanhar equipes, pilotos e histórias ao longo de uma temporada inteira.
As duas instituições tentam ocupar esse espaço por caminhos diferentes.
O Nubank aposta na imersão: abre as portas de uma garagem da Mercedes e convida o público a experimentar atividades inspiradas na rotina da equipe. A Revolut combina a parceria com a Audi a referências locais e moda, aproximando o automobilismo da cultura de São Paulo.
Mas existe uma distância entre conquistar a atenção de um fã e transformá-lo em cliente principal.
Afinal, a corrida pelo cliente não termina quando os carros cruzam a linha de chegada. Para os bancos digitais, o desafio é fazer com que a conexão criada no autódromo continue muito depois de a temporada acabar.
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