Colchagua em 13 taças: um giro pelas vinícolas do lendário vale chileno
Entre os Andes e o Pacífico, um vale chileno reúne vinícolas familiares, caves que parecem saídas de um filme de Pablo Larraín e uma gastronomia que dá água na boca

Estamos em Colchagua, uma das regiões vinícolas mais legais do Chile. O sol nasce do lado dos Andes e cruza o céu até se pôr na direção do Pacífico. Essa geografia ajuda a entender o vinho antes mesmo de levá-lo à boca: a exposição ao sol, a altitude e a influência marítima participam do amadurecimento das uvas. Mas a natureza conta apenas parte da história. O restante aparece nas conversas.
Barões diferentes e a terra
O dia começa na Los Vascos, com um café da manhã na casa do barão. Estou me referindo, claro, ao Éric de Rothschild, um dos nomes por trás da vinícola. O barão usava essa casa para conhecer essa região do Chile e aproveitar o dia, que nessa parte do mundo corre de forma diferente. Antes da primeira degustação, a viagem já encontrou seu assunto: o tempo que vale a pena dedicar às coisas.
A propriedade integra o universo dos Domaines Barons de Rothschild Lafite, que chegaram ali em 1988. A tradição bordalesa encontrou um território chileno com condições e personalidade próprias.
Esse começo de viagem coloca duas forças à mesa: o savoir-faire francês e a terra que impõe suas peculiaridades. Uma cepa de uva pode mudar totalmente suas características conforme o lugar onde ela cresce. A Cabernet Sauvignon mostra a identidade da propriedade e permite acompanhar esse papo entre origem francesa e chão chileno.

Depois do café da manhã, seguimos para a vinícola Ravanal, onde conheço a história do senhor Mario, fundador da casa e, de certa forma, outro tipo de “barão”. Nascido em Ligüeimo, um pequeno povoado agrícola no Vale de Colchagua, ele construiu um legado que ganha vida no relato da família e nos faz pensar no que uma geração deixa à seguinte. Nem falo apenas dos vinhedos plantados, mas também do conhecimento, dos hábitos de trabalho e das lembranças.
A conversa sobre uma vida dedicada ao vinho vale por essa dimensão humana. Uma família, assim como as bagas de uvas, também amadurece ao redor de um projeto.
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O tamanho do encontro
Colchagua é um lugar de contrastes, grandes vinícolas internacionais e produtores que recebem em uma escala mais íntima. Alternar os dois torna a viagem mais saborosa: a arquitetura de uma cave gigantesca impressiona; uma conversa demorada com quem cuida das parreiras também.
É um dos lugares do mundo mais deliciosos para se visitar pequenas vinícolas boutique. Encierra, Santa Ana, Ranquilhue e La Despensa: Cada parada abre uma possibilidade de aproximação com o trabalho e com as pessoas.
Em Santa Ana, uma explosão de arte, coleções do mundo todo e vinho em ânforas ampliam o repertório da visita. Na La Despensa, o encontro com o casal produtor leva a conversa para a escolha de construir uma vida em torno da produção artesanal de alta qualidade. São experiências que ajudam a tirar o vinho da abstração das notas e pontuações.

Na Ranquilhue, o visitante pode ser enólogo por um dia, combinando vinhos em diferentes proporções. É a proposta de “fazer seu próprio vinho”: experimentar o trabalho de composição que existe por trás de um assemblage.
Extremante divertido, a princípio parece simples até chegar a hora de decidir. Quanto acrescentar de cada tipo de vinho? O que muda se adicionarmos mais ou menos Cabernet...? A mistura ficou mais interessante ou apenas maluca?
Depois dessa experiência, a palavra “equilíbrio”, tão ouvida nas degustações, ganha um sentido mais próximo. E saímos de lá com um pouco mais de admiração pelo trabalho do artista que faz essas combinações.
A cordilheira se aproxima
Na Tumuñan, a paisagem conduz os olhos para os Andes. A propriedade reúne vinhos com técnicas orgânicas e biodinâmicas no cultivo, e hospedagem muita ligada as fases da natureza.
O lanche da horta previsto no percurso cabe bem nessa mudança de contexto. Depois de tantas conversas sobre uvas, é bom prestar atenção ao que mais cresce ao redor. Caminhar com calma, entender a montanha. Afinal, o território agrícola está inserido num contexto em que o vinho convive com a flora local, e tudo se influencia de alguma forma.

É também o convite da passagem pela La Playa, também com natureza lindíssima e trilhas no roteiro. A viagem desacelera e encontra espaço para respirar profundamente entre uma degustação e outra.
Por dentro da montanha
Em Clos Apalta, arquitetura é um show, e o impacto visual tem uma razão prática. A cave tem uma coisa meio de casa de super-herói: com sete níveis subterrâneos, escavados na matriz da rocha, ela utiliza a gravidade para fazer grande parte do trabalho mecânico da produção. A estrutura foi criada para reduzir o bombeamento e organizar as etapas de elaboração.
A hospedagem acrescenta outra possibilidade de luxo ao percurso. É alto padão mesmo, serviço e estrutura de gente grande. Permanecer entre os vinhedos muda a relação com o lugar; permite vê-lo quando o movimento das visitas diminui e acompanhar a luz ao longo do dia.
Na Montes, um grande clássico de Colchagua, não são apenas as caves e as barricas que chamam a atenção. O almoço no Fuegos de Apalta traz outro protagonista: o fogo. É em torno dele que Francis Mallmann, um dos grandes nomes da gastronomia argentina, constrói sua cozinha, fazendo das brasas, da fumaça e do tempo ingredientes tão importantes quanto os que chegam ao prato.
Há uma afinidade entre o assado e vinicultura. Tanto a brasa quanto a uva, exigem saber quando intervir e quando esperar.
A paisagem chega à mesa
Na Ventisquero, o vinhedo La Roblería ocupa encostas de Apalta, e observar esse relevo dá forma à conversa e ao vinho. A palavra terroir vira algo visível de verdade: o terreno, sua orientação, as condições de cultivo e o trabalho de quem o interpreta. Está tudo ali diante dos olhos.
O encerramento vem na Viu Manent, com Pilar Rodríguez e seu Food & Wine Studio. Em uma pequena casa dentro da propriedade, a chef genial cria menus em diálogo com os vinhos. É comida degustada entre as parreiras, num cenário que parece saído de um quadro de Monet. Mais que comida, Pilar traduz o Chile à mesa, com a pesquisa de quem busca compreender sua terra e a profundidade de quem tem muito a contar sobre ela.

Começamos com um café da manhã na casa do barão e chegamos à mesa de Pilar. Entre uma ponta e outra, Colchagua ganhou nomes, rostos e sabores.
Ao voltar para casa, uma garrafa desse vale terá companhia: a lembrança da montanha, de uma conversa e de uma mesa que custamos a deixar.
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