A obra de US$ 30 esquecida em um bazar de garagem que acabou leiloada por US$ 1,35 milhão
Obra da surrealista norte-americana Gertrude Abercrombie ficou cerca de 75 anos fora do radar público e acabou descoberta em uma casa no Michigan

Um comprador anônimo pode dizer que ganhou na loteria sem sequer ter apostado. Em julho, um homem de Michigan, nos Estados Unidos, desembolsou apenas US$ 30 (cerca de R$ 160) por uma pintura esquecida em um canto escuro de uma casa.
Sem saber exatamente o que tinha nas mãos, descobriu que o quadro era uma obra da artista surrealista Gertrude Abercrombie, arrematada por US$ 1,35 milhão (cerca de R$ 7,2 milhões) menos de três meses depois.
A pintura a óleo, intitulada Alderman Merriam’s Shells, data de 1951 e ficou quase 75 anos longe do público. Em 1º de outubro de 2026, a casa de leilões Freeman’s vendeu a obra por US$ 1.352.600, estabelecendo um novo recorde para a artista, que morreu em 1977.
O valor, inclusive, superou em mais de cinco vezes a estimativa máxima de US$ 250 mil que a casa havia divulgado antes do evento.
A história começou em julho, quando o comprador encontrou o quadro em um canto escuro do corredor que levava à garagem de uma residência em Michigan. Segundo a Freeman’s, outros interessados passaram pelo local sem notar a pintura.
O comprador, que costuma garimpar discos de vinil e móveis de meados do século 20, percebeu uma assinatura quase invisível no fundo escuro da tela.
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As inscrições traziam o sobrenome Abercrombie e o ano de 1951. A pista foi suficiente para despertar sua curiosidade e levá-lo a investigar a procedência da obra.

Como um quadro de US$ 30 virou uma obra milionária
A assinatura, porém, não bastava para comprovar a autenticidade da pintura. Por isso, o comprador decidiu buscar outras evidências. Ele chegou a mudar os planos de uma viagem em família para visitar o Milwaukee Art Museum, que apresentava uma retrospectiva dedicada à artista, intitulada The Whole World Is a Mystery.
Foi no catálogo da exposição que encontrou uma pista decisiva: a reprodução de uma fotografia publicada pelo Chicago Tribune em 1952. A imagem mostrava a mesma pintura ao lado das conchas que serviram de modelo para a composição, reforçando a hipótese de que se tratava de uma obra autêntica.
Com essa evidência em mãos, o comprador levou o quadro à Freeman’s. A historiadora da arte Susan Weininger, especialista na produção de Abercrombie, confirmou a autoria. Em seguida, o restaurador Julian Baumgartner limpou a superfície, removeu a aparência opaca do verniz e recuperou a vivacidade das cores. A moldura original também permaneceu intacta.
Antes do leilão, aliás, a Freeman’s estimava que a pintura alcançaria entre US$ 150 mil e US$ 250 mil. A disputa entre os interessados, entretanto, elevou o preço muito além dessa faixa.
Os lances começaram em US$ 80 mil e reuniram cinco participantes por telefone, além de compradores pela internet. Ao final, o arremate chegou a US$ 1.352.600, já com a comissão do comprador incluída.

Quem foi Gertrude Abercrombie?
Nascida em 1909, Gertrude Abercrombie construiu sua carreira em Chicago e se tornou conhecida por pinturas surrealistas que combinam cenários minimalistas, objetos cotidianos e atmosferas enigmáticas. Embora tenha estudado arte comercial, desenvolveu um estilo próprio, no qual elementos familiares ganham contornos misteriosos.
Conchas, corujas, gatos, portas e paisagens desoladas aparecem com frequência em sua produção. Além da pintura, Abercrombie também cultivou uma intensa vida cultural. Em sua casa, no bairro de Hyde Park, em Chicago, organizava encontros que reuniam músicos de jazz como Dizzy Gillespie e Charlie Parker.
A própria artista costumava associar suas pinturas à experiência pessoal. Em uma frase que ficou conhecida, afirmou: “Eu sempre pinto a mim mesma”. Assim, os objetos e cenários recorrentes em suas telas frequentemente remetiam à sua identidade e às relações que cultivava.

No caso de Alderman Merriam’s Shells, as conchas pertenciam a Robert Merriam, vereador de Chicago. Abercrombie exibiu a pintura em seis mostras individuais entre 1952 e 1953, mas não chegou a vendê-la. Em vez disso, entregou a obra ao médico John Reynolds, de Kalamazoo, Michigan, como pagamento por serviços médicos.
Depois da morte do profissional, a pintura permaneceu com a família por décadas. Só em julho de 2026, quando os herdeiros colocaram os bens à venda, o quadro voltou a circular, desta vez, a um preço muito distante dos US$ 30 pagos pelo novo proprietário.
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