Menus secretos, poucos convidados: como os supper clubs estão chegando em São Paulo
De uma cozinha em apartamento a uma sala reservada de restaurante, jornalistas, empreendedores e chefs ajudam a reinventar a experiência em volta da mesa

Em uma noite de dezembro do ano passado, o apartamento onde a jornalista Julia Guglielmetti mora virou, por algumas horas, um restaurante sem placa na porta. A chef Hannah Fontel, de Florianópolis, tinha avisado que estaria em São Paulo e queria fazer um jantar na cidade. Julia, que é vegana, cozinha desde sempre e guarda a vontade antiga de abrir um restaurante próprio, topou emprestar a casa.
O convite começou entre conhecidos, mas tomou uma proporção que nem as duas esperavam. Foram três turnos, um almoço e dois jantares, com 44 pessoas passando pela mesma mesa. “Apesar de ter sido uma loucura, eu amei a experiência e tomei coragem pra continuar”, conta Julia, que, atualmente, optou por jantares a cada dois meses.

São sempre grupos de 12 pessoas, reunidos em torno de algo maior do que o prato: “Além de comer, o objetivo dos jantares é apresentar pessoas diferentes e gerar novas amizades. Monto as mesas colocando pessoas que sinto que podem se dar bem, e em todos os jantares isso super funcionou.”
Cenas como essa vêm se multiplicando em São Paulo, Nova York e Londres, e têm um nome que voltou a circular nos últimos anos: supper club. O termo, que soa como novidade, na verdade existe há um bom tempo e mostra de um jeito curioso como as pessoas decidem, geração após geração, reinventar a forma de sentar à mesa.

De Wisconsin a Singapura
É difícil dizer exatamente quando (ou onde) o supper club nasceu. É que nunca existiu um único modelo e o conceito sempre se moldou ao contexto e ao público de cada época. Há quem credite o primeiro endereço a Lawrence Frank, restaurateur de Wisconsin que levou o formato para Beverly Hills nos anos 1930. Há quem diga que foi uma extensão dos speakeasies da Lei Seca.
A origem exata segue em disputa, mas o auge não: até os anos 1950, quando os supper clubs dominaram a noite norte-americana. Algum tempo depois, com o avanço do fast food e a mudança no ritmo das cidades, muitos supper clubs fecharam. Outros resistiram quase intactos, principalmente em Wisconsin, onde viraram parte da identidade local.
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Décadas depois, por volta dos anos 2010, o formato voltou com força, agora adaptado aos novos tempos, quando os supper clubs passam a ocupar casas, ateliês e outros endereços revelados apenas aos convidados, com uma proposta mais intimista e autoral.
Em Londres, uma das capitais mundiais do formato atual, supper clubs de nicho como o Test Kitchen Club, voltado a chefs em início de carreira, dividem espaço com projetos como o &Ginger, criado por duas amigas que começaram servindo pratos inspirados em suas próprias viagens. Em Singapura, o chef Kevin WY Lee comanda o Poon's Supper Club a partir de um endereço particular, cozinhando pratos fijianos raros na cidade.
“Muita gente quer fazer amigos, mas não sabe como”
Atualmente, boa parte desses projetos nasce pequeno, tocado por uma ou duas pessoas que assumem tudo, da montagem da mesa à curadoria dos convidados, e circula fora dos canais tradicionais, muitas vezes por newsletters ou pelo closed friends do Instagram.

Para Julia, a ideia é criar novas conexões. “Tenho 38 anos e sinto que muita gente quer fazer novos amigos, mas não sabe como. O supper club é pra ser uma experiência disso também”, diz ela, que já pensa em transformar os jantares num clube fixo, batizado provisoriamente de "Clube da Fominha".

Rodrigo Barradas, que morou em várias cidades antes de se instalar em São Paulo, já no início dos seus 30 anos, também pensa um pouco assim.
“Estava rodeado de pessoas, mas era surpreendentemente difícil conhecer gente com quem realmente me identificasse”, conta. “Existe uma geração inteira hiperconectada, mas que sente cada vez mais falta de vínculos reais e de um verdadeiro sentimento de pertencimento.”
Foi numa temporada na Cidade do México, onde viveu de perto uma cena forte de supper clubs, que decidiu trazer o conceito para o Brasil.
“Percebi que existia uma procura crescente por esse tipo de encontro e que, em São Paulo, havia espaço para construir algo com identidade própria.”
Assim nasceu o Sussurro Supperclub, que usa a comida como um convite para novas conversas. “Trabalho com chefs convidados e menus autorais, porque acredito que a comida tem o poder de reunir pessoas, despertar curiosidade e criar momentos de descoberta”, diz Rodrigo.

Um supper preparo
Os locais também fazem parte da narrativa. São galerias de arte, estúdios de fotografia, casas de arquitetura, sempre espaços que não costumam ser associados à ideia de restaurante. “Cada jantar é pensado para aquele lugar e para aquele grupo de pessoas. A ideia é que cada edição seja única.”

Para participar, os interessados preenchem um formulário. Rodrigo também observa os perfis nas redes sociais – não para julgar, ele diz, mas para reunir pessoas que tenham potencial para construir uma boa conversa.
“Procuro um ponto de partida em comum, pode ser um interesse, uma fase de vida, uma sensibilidade estética. A partir daí, gosto de introduzir pessoas com histórias e profissões muito diferentes, porque é essa diversidade que enriquece a conversa. Não acredito que uma boa mesa aconteça por acaso.”

Entre a geração Z, esse tipo de jantar também tem feito sucesso. Uma pesquisa da plataforma Resy mostra que 90% dos zoomers preferem mesas compartilhadas às individuais. Já o Eventbrite registrou uma alta de 18% em eventos do tipo no último ano.
Uma experiência super customizável
Fora das casas e dos espaços improvisados, o chef André Mifano levou a ideia para dentro do próprio restaurante Donna, em São Paulo. Ali, ele criou a Super Premium Bourbon Experience, realizada em uma sala reservada da casa.
“Criei essa experiência porque gosto da ideia de unir duas coisas que amo: comida boa e bourbons”, diz o chef. “O Donna tem essa sala privativa que eu sempre quis ter nos meus restaurantes, justamente para poder fazer algo fora do tradicional.”
A noite começa com welcome drinks, um Sazerac Rye e um Old Fashioned. Os copos são seguidos por um menu de três tempos que passa por pão de queijo frito recheado de canastra cremoso, raviolo de camarão com manteiga de camarão e ikura, e chorizo de Angus beef com risoto de cogumelos.
Depois vem a etapa que dá nome ao evento. A degustação guiada de bourbons raros inclui rótulos exclusivos no Brasil, como o Jack Daniel's Triple Mash, por exemplo. “Não é uma harmonização, porque bourbon não é gastronômico, mas servimos o jantar e, em uma segunda etapa, fazemos a degustação com uma aulinha para contextualizar”, explica Mifano. “É uma experiência super customizável”.

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