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ENTREVISTA

Amyr Klink comenta a jornada para ver sua história no cinema: “no Brasil, ninguém se interessa muito”

Quatro décadas após cruzar o Atlântico sozinho em cem dias, navegante enfrentou mais uma jornada: agora para ver sua jornada ganhar uma nova geração

Homem em pé ao lado de letreiro com o nome O Dia, em uma varanda com vista para árvores e céu azul.
Amyr Klink durante evento de lançamento do filme "100 Dias" - Imagem: Reprodução/ @amyrklink

Em 19 de setembro de 1984, Amyr Klink concluía a sua odisseia. Vindo de Lüderitz, na Namíbia, o navegante desembarcou na Praia da Espera, em Salvador, após cruzar o Atlântico em cem dias. Nesse tempo, enfrentou as imprevisibilidades da natureza, lidou com os diversos temperamentos do mar e os seus habitantes, e teve que aprender a conviver com a solidão. Sobreviveu, com honras, para encarar mais de quatro décadas depois uma segunda jornada: a de levar a sua aventura para as telas de cinema.

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Apesar de ter realizado um feito que, até hoje, ninguém conseguiu repetir, Amyr Klink acredita que nunca foi reconhecido como deveria. Ao menos, não no Brasil: “É engraçado porque há um hiato de duas gerações que não sabem nada do que eu fiz. Aqui, no Brasil, ninguém se interessa muito por essas coisas”, admite o navegante em entrevista ao Seu Dinheiro.

“Eu não sou muito conhecido por aqui, mas na França, na Grã-Bretanha, por exemplo, eu sou superconhecido”, acrescenta. “E eles acham [a travessia] uma loucura, só que é uma loucura que funcionou.”

Do mar às telas

Não foi por falta de esforço de Amyr que a sua história acabou distante de novas gerações: apenas um ano após concluir a viagem, em 1985, o navegante publicou os seus registros da viagem no livro Cem Dias Entre Céu e Mar, que recentemente ganhou uma reedição pela Companhia das Letras. Nos anos seguintes, fez novas travessias e escreveu novos livros sobre as suas aventuras. Porém, é com a chegada de 100 Dias aos cinemas que Amyr Klink se reapresenta definitivamente aos brasileiros — uma jornada que, por si só, foi tão cheia de percalços quanto a enfrentada pelo navegante em alto mar.

Quem plantou a semente sobre a adaptação de Cem Dias Entre Céu e Mar para o cinema foi a fotógrafa Marina Bandeira que, há pouco mais de 30 anos, ainda não carregava o Klink no sobrenome e nem respondia como esposa de Amyr:

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“Ela sempre falou que esse livro tinha que virar filme. E ela era bem conectada, era amiga de todos os sócios da Conspiração [Filmes], uma das grandes produtoras do Brasil, com gente ultracompetente de cinema. Mas não dava certo”, relembra Amyr.

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Amyr Klink e Filipe Bragança
Amyr Klink e Filipe Bragança - Imagem: Fabio Braga/Pivô Audiovisual

Breno Silveira e a tempestade

Precursor do Cinema de Retomada no Brasil, o diretor de fotografia de Carlota Joaquina (1995) e Gêmeas (estrelado por Fernanda Torres em dose dupla em 1999), Breno Silveira foi o primeiro a se interessar pelo desafio. Logo, no entanto, os problemas começaram a aparecer: “Eles não gostaram da primeira roteirista. Os seguintes eram dois roteiristas de São Paulo. Os caras brigaram e o roteiro naufragou. Veio outra roteirista, que eles também não gostaram. E, então, a mulher do Breno morreu. Aí o Breno arrumou uma namorada, ele me ligou e disse: ‘Amyr, agora vai sair o filme, a minha namorada vai fazer o roteiro’. E eu falei: ‘Breno, gosto muito da sua obra, de você, mas quando começa a pôr família, não é sério. Vamos esquecer’. E eu bloqueei o filme. E aí o Breno morreu”, conta Amyr.

Responsável pelas cinebiografias 2 Filhos de Francisco (2005), sobre a vida e a carreira da dupla Zezé di Camargo e Luciano, e Gonzaga: De Pai pra Filho (2012), sobre Luiz Gonzaga e o seu filho, Gonzaguinha, Breno Silveira tinha apreço por contar histórias reais. O cineasta, no entanto, foi vítima de um infarto fulminante em 2022, durante as filmagens de Vitória, longa estrelado por Fernanda Montenegro (O Auto da Compadecida) e lançado em 2025 – também inspirado por fatos, aliás. Apesar de nunca ter tido a oportunidade de levar a história de Amyr para os cinemas, dirigiu o documentário para a televisão Amyr Klink: Mar Sem Fim, de 2001, sobre a expedição marítima do navegante pela Antártida.

Um herói brasileiro

A jornada para tirar Cem Dias Entre Céu e Mar do papel continuou. Uma produtora de São Paulo adquiriu os direitos de adaptação da obra, mas quebrou no meio do caminho. Amyr pensou em desistir: “Falei: ‘Deixa eu morrer! Quem sabe [o filme sai] daqui a algumas décadas, se alguém se interessar pela história…’”, brinca.

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Porém, outras pessoas também estavam interessadas em ver a sua aventura ganhar as telas: “[A produtora] Paula Cosenza foi juntando as pecinhas e foi atrás do Carlos Saldanha, que se apaixonou pela ideia”, conta. E, então, 100 Dias começou a tomar forma.

O cineasta, conhecido por animações como A Era do Gelo (2002), Rio (2011) e O Touro Ferdinando (2017), já era um grande fã da história de Amyr Klink: “Eu já estava com a ideia de fazer esse filme, porque eu adorava o livro. Adorava a história, era superfã do Amyr, achava a trajetória dele incrível. Então, quando veio essa proposta, eu falei: ‘Poxa, essa história vai dar um filmaço!’”, conta ao Seu Dinheiro.

“A gente tem ouvido falar muito de histórias reais de cantores famosos ou sobre fatos na época da ditadura. E eu achava que a história do Amyr tirava desse eixo. É a história de um cara que fez uma viagem impossível na época!”, acrescenta, explicando o que o motivou a tocar o projeto. “É muito comum ver esse tipo de história em filmes americanos, em filmes europeus, mas o Brasil não tem tanto essa pegada. E eu falei: ‘Por que não contar a história de um herói brasileiro?’”

Uma nova direção 

Com a confiança renovada, Amyr deu liberdade para Saldanha adaptar a sua história da forma que achasse melhor: “Quando surgiu o primeiro contato com o Saldanha, há oito anos, eu falei: ‘O livro é meu, o filme é seu. Eu tenho uma história com o livro, você tem uma história com o filme. Não vou dar nenhum palpite. Você tem toda a liberdade poética’”, relembra.

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Mas as coisas não seguiram dessa forma: ‘Acho que ele optou por uma escravidão por uma escravidão poética’, acrescenta, divertindo-se. De acordo com Amyr, o cineasta tratou com preciosismo e fidedignidade impressionantes, o que fez toda a jornada valer a pena: “É um filme emocionante e tem uns aspectos engraçados também. Fiquei muito feliz com o que eu vi”, afirma o aventureiro, após navegar pela primeira vez as águas desconhecidas do cinema.

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