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AMOR ANALÓGICO

Fadiga dos apps de relacionamento revive agências de namoro no Brasil; serviço custa mais de R$ 3 mil

Depois de anos dominados por Tinder e Bumble, cresce o cansaço com os aplicativos de namoro e, junto com ele, o interesse por formas mais analógicas de encontrar um relacionamento

Agências de namoro vivem revival no mercado de relacionamentos amorosos
Agências de namoro vivem revival no mercado de relacionamentos amorosos - Imagem: Gift Habeshaw/ Unsplash

Durante boa parte da última década, os aplicativos de relacionamento venderam a promessa do amor ao alcance do dedo. Bastava deslizar a tela para a direita. Mas, para muita gente, o gesto perdeu o encanto, e virou exaustão.

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Em meio ao chamado dating app burnout, ou “fadiga dos apps de namoro”, marcada pelo acúmulo de matches vazios, conversas repetitivas, ghosting e sensação de desgaste emocional, um modelo que parecia pertencer ao passado volta a ganhar espaço no presente: o das agências de namoro.

Discretas, seletivas e guiadas por atendimento humano, elas reaparecem como alternativa para quem cansou do algoritmo e busca conexões fora da lógica infinita do swipe.

A crise dos apps de namoro

Depois de dominarem o cenário da paquera digital, plataformas como Tinder e Bumble vêm enfrentando dificuldade para manter o interesse do público mais jovem, especialmente da Geração Z.

Uma pesquisa realizada em 2023 pela empresa de inteligência de mercado Savanta mostrou que 9 em cada 10 jovens da Geração Z afirmam sentir algum nível de esgotamento com a dinâmica dos aplicativos. Entre os sentimentos mais citados aparecem frustração, insegurança, mesmice e desgaste emocional.

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Aplicativos de namoro vivem baixa de dowloads
Aplicativos de namoro vivem baixa de dowloads/ Cottonbro/ Pexels

Esse movimento já começa a aparecer também nos números do mercado. Desde 2021, as ações da Match Group, dona do Tinder, Hinge e OkCupid, acumulam queda, assim como as da Bumble Inc., refletindo uma desaceleração no crescimento de usuários pagos e desafios para engajar novos públicos.

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No Brasil, os sinais seguem a mesma direção. Segundo levantamento da Sensor Tower, os downloads do Tinder caíram de 7 milhões para 4 milhões entre 2022 e 2024. Uma retração de 42%. Já o Bumble, que chegou a registrar 4 milhões de downloads em 2023, voltou para cerca de 2 milhões no ano seguinte.

Do cinema ao retorno das matchmakers

Não por acaso, o universo da curadoria amorosa também voltou ao radar da cultura pop. Um dos filmes que recolocam esse imaginário em circulação é Materialists (Amores Materialistas), da A24, estrelada por Dakota Johnson.

Na trama, que estreou ano passado, a atriz interpreta uma casamenteira de Nova York. Enquanto atende seus clientes, ela enfrenta seu próprio impasse amoroso, dividida entre um pretendente rico, vivido por Pedro Pascal, e outro sem o mesmo status financeiro, interpretado por Chris Evans.

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O roteiro foi escrito e dirigido por Celine Song, cineasta de Past Lives, que trabalhou como matchmaker em Nova York antes de entrar para o cinema. A experiência serviu de inspiração direta para a história.

Dakota Johson e Pedro Pascoal no filme "Amores Materialistas"
Dakota Johson e Pedro Pascal no filme "Amores Materialistas"/ Atsushi Nishijima/ A24

Antes dos apps, elas já estavam por toda parte

Muito antes de Tinder, Bumble ou Hinge existirem, as agências matrimoniais já ocupavam um espaço importante no mercado afetivo brasileiro.

Entre as décadas de 1970 a 1990, eram uma alternativa conhecida entre solteiros, divorciados e viúvos interessados em encontrar alguém com intenção clara de compromisso. Funcionavam por indicação, anúncios em classificados de jornal, fichas impressas e entrevistas presenciais.

Com a chegada da internet, e, depois, dos aplicativos, esse mercado encolheu drasticamente. Muitas fecharam. Outras desapareceram. Por um tempo, parecia que a tecnologia havia tornado esse tipo de serviço obsoleto. Mas não completamente.

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Hoje, uma busca rápida no Google por termos como “agência matrimonial” ou “agência de relacionamento sério” mostra que muitas das empresas que permaneceram ativas estão concentradas principalmente no Sul do Brasil, especialmente no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, regiões onde esse modelo historicamente encontrou um público fiel.

Menos algoritmo, mais curadoria humana

Entre essas sobreviventes está a Par Ideal, criada em Curitiba em 1994 por Sheila Chamecki Rigler. A fundadora chegou ao setor após deixar o serviço público e pesquisar oportunidades para empreender. Ao conhecer o modelo europeu das agências matrimoniais, decidiu adaptá-lo ao perfil brasileiro.

Mais de três décadas depois, a empresa afirma atender clientes de todo o país, e diz observar crescimento recente na procura. Segundo Sheila, muitos chegam justamente depois de experiências frustradas nos aplicativos.

“A tecnologia facilitou o acesso às pessoas, mas também tornou as conexões mais superficiais e desgastantes”, afirma. A percepção acompanha uma mudança mais ampla de comportamento: o desejo por relações menos performáticas, menos aceleradas e mais intencionais.

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Sheila Chamecki Rigler, fundadora da Agência Par Ideal
Sheila Chamecki Rigler, fundadora da Agência Par Ideal/ Arquivo Pessoal

Outra empresa que segue ativa nesse mercado é a Eclipse Love, fundada em 2011, em São Paulo, pela psicóloga Eliete de Medeiros, que se apresenta como heart hunter, uma espécie de “cupido profissional”.

O processo começa com uma entrevista por chamada de vídeo, em que a equipe busca entender o perfil, os interesses e as expectativas afetivas de cada cliente. A partir daí, a conexão pode acontecer tanto com pessoas que já fazem parte do banco de dados da agência quanto com pretendentes buscados fora dele.

Quem procura uma agência de namoro em 2026 e quanto custa o serviço?

Ao contrário do imaginário que associa esse serviço a pessoas mais velhas ou com pouca vida social, o perfil hoje é bastante diverso. Na Par Ideal, os clientes têm entre 30 e 80 anos, com maior concentração entre 35 e 55. São profissionais liberais, empresários, executivos e funcionários públicos. Segundo a agência, cerca de 95% têm ensino superior completo.

O processo funciona quase como uma consultoria afetiva. Ao se cadastrar, o cliente preenche questionários detalhados, participa de entrevistas individuais com psicólogo e recebe atendimento personalizado sobre expectativas, valores, estilo de vida e objetivos afetivos.

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A partir daí, a equipe seleciona perfis considerados compatíveis e intermedia a aproximação entre as partes. Ao longo de 31 anos, a empresa afirma ter contribuído para mais de 5.400 casamentos. Os valores variam entre R$ 1.760 e R$ 1.870 no plano semestral. Já o plano anual custa entre R$ 2.695 e R$ 3.294, dependendo da forma de pagamento. O cliente paga apenas uma vez este valor para obter a consultoria durante o período contratado.

O romance offline voltou?

As agências matrimoniais não estão sozinhas nesse movimento, aliás. Nos últimos anos, cresceram também os clubes de corrida para solteiros, jantares intimistas entre desconhecidos, noites de speed dating e eventos que transformam a paquera em experiência coletiva, por exemplo.

Entre os formatos mais curiosos estão encontros em que solteiros sobem ao palco, ou são apresentados por amigos, com PowerPoint explicando por que seriam um bom partido. Gostos pessoais, hobbies, green flags, mapa astral e até histórico amoroso entram no slide.

Depois de uma década mediada por telas, o romance parece experimentar um pequeno, mas significativo, retorno ao offline.

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