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ENTREVISTA

Do Guinness aos palcos brasileiros: a história do artista britânico que fez 15 shows por 24 horas seguidas 

Frank Turner, que quebrou um recorde mundial para chamar atenção para uma causa, desembarca para a primeira turnê brasileira que começa neste fim de semana 

Frank Turner
Frank Turner - Imagem: Divulgação

Quando o cantor e compositor britânico de folk punk Frank Turner abriu a edição mais recente do Guinness World Records e viu seu próprio nome ali, a dimensão do que havia feito só então se impôs. Entre os dias 4 e 5 de maio de 2024, ele realizou 15 shows em 15 cidades diferentes do Reino Unido dentro de 24 horas, cruzando o país de van, de palco em palco, para estabelecer o recorde mundial reconhecido pelo Guinness. 

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Não se tratou apenas de tocar muitas vezes, mas de mudar de cidade a cada apresentação, sempre em casas independentes ligadas a lojas de discos locais. O feito passou a integrar oficialmente a edição do livro publicada no fim daquele ano, espalhando sua imagem por salas de estar e escolas pelo mundo.  

“Recebi a confirmação antes do Natal e achei que era só uma coisa legal”, contou. “Depois meus amigos começaram a me mandar fotos do livro, minha mãe ganhou um, e eu pensei: nossa, muita gente ainda lê isso”, disse o músico, na vida de estrada e estúdios desde 2005 e com 10 álbuns lançados. 

Frank Turner
Frank Turner

O recorde como estratégia 

A maratona foi concebida como um gesto calculado em defesa de um setor que movimenta bilhões, mas vive sob pressão: o circuito dos pequenos e médios palcos, responsável por formar artistas, gerar empregos e alimentar toda a cadeia da música ao vivo. Turner organizou cada detalhe para chamar atenção à crise enfrentada por essas casas no Reino Unido. 

“Eu cresci nesses lugares. Todas as minhas bandas favoritas eu vi em salas de 200 pessoas”, disse. “Seria muito errado fingir que isso não importa mais só porque hoje eu toco em espaços maiores.” 

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Fisicamente, a experiência foi extrema. “Foi brutal. Minha voz, meu cérebro, tudo chegou ao limite”, relembrou. “Os primeiros oito shows foram tranquilos, ainda era um dia normal. Depois ficou muito estranho.” Às quatro da manhã, por exemplo, Turner tocava para plateias ainda em clima de festa. Duas horas depois, o cenário mudou: 

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“Às seis da manhã as pessoas estavam acordando, tomando café, indo trabalhar, e eu já estava tocando havia doze horas.” Mesmo assim, ele diz que o final da maratona foi em alta. “Os três últimos shows foram incríveis.” 

Frank Turner
Frank Turner

Proteção à cena independente

Turner, porém, vê esse tipo de ação como parte de uma engrenagem maior. Ele atua ao lado da Music Venue Trust, organização britânica que pressiona o Parlamento por políticas públicas de proteção aos espaços independentes. 

“Eles sabem como falar com políticos e transformar isso em legislação. Eu não sei fazer essa parte”, afirmou. “O que eu consigo fazer são gestos simbólicos que fazem as coisas começarem a se mover.” Ele lembra de um show que fez dentro do Parlamento como exemplo. “Era tudo muito estranho, políticos querendo parecer legais, mas a conversa começou de verdade. E alguma coisa mudou.” 

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Um recordista no Brasil 

Esse olhar sobre a música como cultura, e não apenas como produto, agora chega ao Brasil. Depois de décadas de carreira, Frank Turner finalmente desembarca na América do Sul para três shows entre o fim de janeiro e o começo de fevereiro (São Paulo, dia 30 de janeiro; Brasília, 31, e Curitiba em 1º de fevereiro), marcando sua estreia no país. 

“Por muito tempo houve um buraco no meu currículo chamado América do Sul”, disse. “Eu já estive na Europa, nos Estados Unidos, na Ásia, na Austrália, mas nunca aí. Isso sempre me incomodou.” Ele esteve no Brasil em férias, em 2024, e saiu impressionado. “Eu me apaixonei. É um país incrível. Até me senti culpado por não ter vindo antes para tocar.” 

Turner virá sozinho, apenas com voz e violão, formato que tornou a turnê possível. “Trazer a banda é muito mais caro. Se eu não pudesse tocar assim, talvez nunca viesse”, explicou. “Mas eu amo tocar com eles e espero que esses shows abram caminho para voltar com a banda.” 

A curiosidade sobre o país também passa pela música. Criado ouvindo Sepultura, ele quer ir além dos nomes óbvios. “Eu sei que existe inclusive uma cena punk subterrânea forte aí. Quero ouvir, aprender, descobrir coisas novas.” 

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O palco como conexão 

No palco, Turner construiu sua reputação ao transformar shows em experiências coletivas. “Eu sou compositor e artista de estúdio, mas o que eu mais faço é tocar para pessoas em uma sala”, afirmou. 

“Um bom show é sobre criar conexão, quebrar barreiras entre o palco e o público e também entre as pessoas que estão ali.” Para ele, o impacto vai além do entretenimento. “A vida já é difícil o suficiente. Se alguém sai de um show se sentindo menos sozinho, isso já faz tudo valer a pena.” 

Frank Turner
Frank Turner

No Brasil, o repertório deve atravessar toda a sua discografia e pode mudar conforme os pedidos da plateia. “Se alguém gritar uma música, eu posso tocar. Eu quero que as pessoas se divirtam, voltem para casa com um sorriso e um pouco mais de energia para enfrentar o que vem depois.” 

Entre um recorde mundial que entrou para a história da música ao vivo e uma estreia aguardada por anos, Frank Turner chega ao país no ponto mais coerente de sua trajetória. O mesmo artista que atravessou 15 cidades em 24 horas para defender pequenos palcos agora cruza um continente inteiro para, finalmente, cantar para um público que até aqui só o conhecia por telas e discos. 

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Frank Turner em São Paulo 

Data: 30 de janeiro 
Local: Fabrique Club (R. Barra Funda, 1071 - Barra Funda) 
Ingresso: fastix.com.br/events/frank-turner-dave-hause-katacombs 

Frank Turner em Brasília 

Data: 31 de janeiro 
Local: Infinu (CRS 506 Bloco A Loja 67) 
Ingresso: shotgun.live/events/frank-turner-em-brasilia 

Frank Turner em Curitiba 

Data: 1º de fevereiro  
Local: Belvedere (Rua Inácio Lustosa 496, São Francisco) 
Ingresso: meaple.com.br/belvedere/frank-turner 

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