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Conversamos com Marcelo Beraldo, diretor artístico do Lollapalooza Brasil, para entender como a forma de fazer festivais mudou na última década – e como isso afeta os artistas que você vai assistir neste fim de semana
Falta pouco para a edição 2026 do Lollapalooza Brasil. No Autódromo de Interlagos, as estruturas estão montadas. Em São Paulo, Lolla Sideshows antecipam parte do som do fim de semana. Nas redes, fãs invadem playlists e disputam os últimos ingressos antes do festival.
São mais de 70 atrações, afinal, entre nomes nacionais e internacionais. Nomes que vão do Olimpo do pop, com como Sabrina Carpenter e Lorde, a clássicos do hip hop, como Cypress Hill. Nenhum deles, porém, é por acaso: por trás do line-up, há um trabalho extenso de curadoria, análise de dados e leitura de comportamento do público. Uma curadoria e uma operação lideradas, desde 2023, pela Rock World, após uma década com a Time For Fun (T4F).
A mudança foi anunciada em março daquele ano, quando a Live Nation decidiu centralizar a operação local de seus festivais no país com a Rock World. Desde então, o festival passou a ser reorganizado dentro de uma estrutura que já operava grandes marcas de música ao vivo e experiência de público no Brasil.
A troca de comando ocorre em um momento de amadurecimento do mercado de festivais. Depois do salto visto no pós-pandemia, o setor dá sinais de consolidação: um levantamento do Mapa dos Festivais aponta que o Brasil teve 366 festivais em 2025, estável na base anual.
Ao mesmo tempo, grandes eventos seguem concentrando público e patrocínio. O Lollapalooza Brasil, por exemplo, reuniu 240 mil pessoas em 2025 e chega à edição de 2026, marcada para 20, 21 e 22 de março, ainda como uma das principais vitrines do entretenimento ao vivo no país.
É nesse contexto que a curadoria do festival ganha peso ainda maior. De acordo com Marcelo Beraldo, diretor artístico do Lollapalooza Brasil, a montagem do line-up começa muito antes do anúncio oficial e parte de um filtro básico, mas decisivo: disponibilidade.
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“O primeiro passo é entender quem está em atividade, disponível. Depois é começar pelos headliners, aqueles que irão vender a maior parte dos ingressos. Depois, seguimos para os demais artistas que tocarão mais cedo. Nestes casos, temos mais opções”, afirma.
A fala ajuda a explicar uma lógica central do negócio dos festivais: line-up não é apenas escolha estética, mas também engenharia comercial.
Em um evento desse porte, os headliners funcionam como âncora de receita, imagem e repercussão. São eles que ajudam a sustentar a venda inicial de ingressos, a atrair marcas e a posicionar cada edição no calendário global de turnês. A partir desse núcleo, entram os demais nomes, em um processo que combina leitura de tendência, custo, disponibilidade regional e equilíbrio entre gêneros.
Beraldo explica que a análise vai muito além da percepção subjetiva sobre “quem está em alta”. “Analisamos que tamanho de locais eles estão se apresentando, em que cidades, qual momento de carreira estão, seus dados de streaming, rádio, sincronização de games e publicidade. Tentamos equilibrar entre rock, rap, pop e eletrônico, focando naquilo que há de mais relevante na atualidade musical, mas também apresentando algumas referências históricas”, diz.
Esse ponto é importante porque mostra como o festival tenta responder a uma transformação estrutural da indústria. O streaming hoje é responsável por 99,2% do total das vendas de música no Brasil, de acordo com a edição mais recente do Mercado Brasileiro de Música da Pró-Música.
Mais que um câmbio de plataforma, a predominância da mídia digital embaralhou fronteiras entre gêneros e segmentos. Atualmente, Beraldo ele, o mesmo público que escuta pop pode consumir rap, eletrônico e rock no mesmo dia. Na prática, isso amplia a liberdade de curadoria dos festivais, mas eleva também a exigência sobre eles.
“Um dos fenômenos causado pelo streaming após os anos 2010 é que as pessoas passaram a ouvir mais gêneros, o gosto musical ficou mais diverso, então ficou mais fácil unir diferentes gêneros. Ainda assim, temos uma certa unidade e coerência, em que quatro ou cinco grandes gêneros compõem nossa fundação. Não é porque o gosto musical está mais diverso que faria sentido colocar qualquer coisa”, afirma Beraldo.
Assim, a montagem do line-up virou uma leitura combinada de cultura e dados. O festival observa indicadores de streaming, rádio e televisão, acompanha a performance de turnês e cruza esse material com pesquisas próprias.
“Usamos dados de streaming, de rádio e televisão e de vendas de outros shows. Além disso, também fazemos pesquisas antes, durante e depois do festival”, resume o diretor artístico.

Esse trabalho de mapeamento não serve apenas para escolher artistas, mas também para entender quem é o público e como ele está mudando. Beraldo afirma que o evento realiza pesquisas para atrair perfis mais amplos, mas que o Lollapalooza já identificou uma base bastante fiel de frequentadores.
“Há o que chamamos de LollaLovers, aqueles fãs que sempre irão ao festival, haja o que houver, intensamente apaixonados por música, especialmente música ao vivo. O Lolla também ama eles”, brinca.
Ao mesmo tempo, essa comunidade recorrente passou a conviver com uma audiência mais diversa. “Acho que o público está, principalmente, aumentando. Quem já foi ao Lolla, tende a voltar e, cada vez mais, aparecem novos fãs. A faixa etária principalmente está ficando mais diversa. É cada vez mais comum, inclusive, ver famílias [no festival].”
Em geral, segundo ele, "a diversidade é natural, porque música é algo universal e está entre as grandes paixões do ser humano”. Esse movimento ajuda a explicar por que os festivais se tornaram menos dependentes de nichos rígidos e mais próximos de um modelo de experiência ampla, que mistura música, marcas, gastronomia e convivência.
Mesmo assim, Beraldo diz que, no fim das contas, o critério central continua sendo artístico. “Em geral, relevância artística, mas ela tende a também atrair popularidade”, afirma. Mais que correr atrás do nome mais viral, trata-se de identificar artistas que estejam no centro da conversa cultural, com tenham força para mobilizar público de verdade.
A divisão dos artistas por dia também tem um racional menos intuitivo do que parece. Não basta separar atrações “fortes” em datas diferentes. Há uma engrenagem logística por trás, ligada à circulação das turnês pela América do Sul.
“Temos uma rota para o grupo de artistas que se apresentam em cada dia, então este grupo viaja mais ou menos junto pela América do Sul. Headliners com produção mais complexa tendem a se apresentar na sexta ou no domingo, por talvez não haver tempo hábil de fazer um show na sexta em um país e outro no sábado em outro país”, explica.

Essa distribuição afeta diretamente a estratégia comercial do festival. O objetivo é fazer com que cada dia tenha atratividade própria, fortalecendo tanto o ingresso diário quanto o passaporte.
“A gente tenta distribuir um pouco de tudo em cada um dos três dias de festival, para que sempre haja algo que o fã esteja muito a fim de ver”, diz Beraldo. E, embora exista a percepção de que os organizadores concentram grandes nomes em dias separados para manter a lotação alta o tempo todo, ele relativiza essa leitura: “Sim e não, isto acaba acontecendo naturalmente.”
No campo financeiro, a equação também passa necessariamente pelas marcas. Em mercados como o brasileiro, patrocínio é parte estrutural da viabilidade de grandes festivais.
“Patrocínio é fundamental nos grandes eventos na América do Sul. Precisamos mais deles do que os festivais nos Estados Unidos ou na Europa, apesar de também serem importantes por lá. Por isso, somos muito gratos aos nossos apoiadores e fazemos o máximo para entregar o que eles esperam da gente”, afirma o diretor artístico.

Ao mesmo tempo, Beraldo sustenta que a influência das marcas sobre o conteúdo artístico é limitada. “As marcas não influenciam muito o line-up. Acho que é mais ao contrário. As marcas que nos procuram já sabem mais ou menos o tipo de line-up que a gente consistentemente entrega.”
Na prática, a fala reforça uma dinâmica cada vez mais comum no setor: em vez de moldar o conteúdo, os patrocinadores querem se associar a eventos que já chegam com identidade e comunidade próprias.
O pano de fundo de tudo isso, por fim, ainda é um mercado que saiu da euforia do retorno pós-pandemia e começa a operar em bases mais realistas.
Segundo Beraldo, a demanda não desapareceu, mas voltou a um patamar mais normalizado, enquanto a oferta de shows ainda segue elevada. “Acho que a demanda voltou mais ao ‘normal’ do que era antes da pandemia, mas a oferta de shows continua muito grande. Então, uns acabam sofrendo mais do que outros, naturalmente. Acho que é uma acomodação do mercado em um nível mais sustentável.”
A leitura conversa com o momento do setor. Se houve um período recente de explosão de agenda, corrida por turnês e apetite generalizado por shows, agora o mercado parece entrar em uma fase de seleção mais dura. No “novo normal”, marca forte, base de fãs recorrente, patrocínio robusto e curadoria eficiente fazem ainda mais diferença. Uma fórmula que reforça o êxito por trás da passagem do Lollapalooza Brasil da T4F para a Rock World.
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