361°: a marca chinesa de tênis que quer ser a ‘BYD do esporte’ e concorrer com Nike e Adidas no Brasil
Com tênis que chegam a R$ 1.199, patrocínios no esporte e expansão internacional, a marca chinesa tenta deixar para trás a fama de produto “Made in China” e conquistar o consumidor brasileiro

A China já mostrou que consegue transformar fabricantes pouco conhecidos no Ocidente em gigantes globais. No setor automotivo, a BYD virou o exemplo mais evidente dessa mudança. Agora, outra companhia chinesa quer repetir a receita, mas, no lugar de carros elétricos, com tênis, roupas e equipamentos esportivos.
Fundada em 2003, em Xiamen, perto do Estreito de Taiwan, a marca 361° (se diz "trezentos e sessenta e um graus") quer ocupar esse espaço. A companhia, aliás, já construiu uma operação que hoje vai muito além da China. A marca possui mais de 8 mil lojas dentro e fora da China, em mais de 60 países.
A empresa está listada na Bolsa de Hong Kong desde 2009 e fechou 2025 com receita de 11,15 bilhões de yuan, cerca de US$ 1,5 bilhão pela cotação média do período, segundo o relatório anual da empresa. O faturamento cresceu 10,6% em um ano. O dado que mais chama atenção, porém, está fora da China. As vendas de varejo no exterior cresceram mais de 80% na comparação anual, enquanto o comércio eletrônico internacional avançou mais de 140%.

A “BYD do esporte”
A comparação com a fabricante de carros elétricos não surgiu por acaso. A marca quer usar escala industrial, velocidade de desenvolvimento e tecnologia para atacar categorias dominadas por empresas ocidentais.
Os alvos são os conhecidos Nike e Adidas, que continuam entre as marcas mais queridinhas do mundo, enquanto companhias como Asics, Puma e New Balance ocupam posições relevantes em diferentes categorias.
A marca, porém, ainda está muito distante desse grupo em reconhecimento. Mas sua estrutura já não é a de uma empresa pequena tentando entrar no mercado global. Em 2025, a divisão de calçados respondeu por mais da metade da receita total da empresa, que também vende roupas, acessórios e produtos infantis.
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Um dos principais chamativos da marca está nas tecnologias de entressola de alguns de seus tênis. A empresa utiliza soluções da família CQT (Carbon Qu!ktical Tech), uma tecnologia baseada em ETPU (Poliuretano Termoplástico Expandido) com carbono reciclado. Segundo a empresa, o material oferece alta resiliência, propulsão e estabilidade.
Em relação aos modelos, porém, a 361° não se distancia muito do que outras marcas do mercado já oferecem. Os tênis de corrida, por exemplo, seguem uma construção semelhante à dos modelos tradicionais, com opções em cores neutras e vibrantes. Já a linha de basquete aposta em um design menos convencional, com modelos de perfil mais slim.


Da fábrica para a própria marca
A 361° nasceu oficialmente em 2003, mas a história da família Ding no setor calçadista começou anos antes. Na década de 1980, o patriarca Ding Jiantong abriu uma fábrica de calçados em Jinjiang, na província de Fujian, na China. Anos mais tarde, ele chamou os dois filhos Ding Huihuang e Ding Huirong, e seu genro, Ding Wuhao, para ampliar os negócios da família. O movimento culminou na criação e no lançamento oficial da 361°, em 2003.

Rapidamente, a marca começou a investir em pesquisa, desenvolvimento e distribuição. Em 2014, deu um passo importante para sair do mercado asiático ao fechar um acordo para apoiar os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.
Dois anos depois, a 361° esteve entre as marcas que apoiaram a Rio 2016 e forneceu uniformes para funcionários e voluntários dos Jogos. A iniciativa ajudou a apresentar a empresa ao consumidor brasileiro antes de ela ganhar escala no país.
Mas a estratégia não ficou restrita ao Brasil, a 361° também construiu uma relação de longo prazo com os Jogos Asiáticos e atualmente mantém parcerias com eventos esportivos internacionais. A World Aquatics, por exemplo, lista a companhia como fornecedora global.
O Brasil já teve uma primeira tentativa
A relação com o país, porém, não é exatamente nova. A 361° chegou ao Brasil em 2014 e aproveitou a visibilidade da Rio 2016 para começar a vender seus produtos. A operação, porém, acabou interrompida no fim de 2019, durante uma reorganização internacional.
A empresa voltou ao mercado brasileiro em 2024, primeiro pelo comércio eletrônico e pelos marketplaces. Depois, passou a avançar sobre o varejo físico. Agora, a estratégia entra em uma nova fase.
Neste momento, a companhia quer ocupar espaço em multimarcas e redes especializadas. No Brasil, os produtos aparecem em canais como Centauro e Netshoes, além do site próprio. A empresa também montou uma equipe comercial dedicada e passou a buscar representantes em diferentes estados.

Quanto custa um tênis da 361°?
A 361°, aliás, tenta se afastar da imagem de produto barato simplesmente porque é fabricado na China. Os modelos mais sofisticados de corrida da marca chegam a custar R$ 1.199 no mercado brasileiro, para o seu tênis de corrida, por exemplo. Enquanto modelos focados na prática de basquete variam entre R$ 499 e R$ 1.199.
O basquete, inclusive, é uma das principais categorias da 361° fora da China e também uma porta de entrada para consumidores mais jovens. No Brasil, a empresa concentra atualmente boa parte da operação em running e basquete, além de avançar em trilha e lifestyle, com modelos custando entre R$ 349 e R$ 849.

Em 2023, a companhia assinou contrato com o jogador Nikola Jokić, astro do Denver Nuggets e três vezes o jogador mais valioso da NBA. O sérvio ganhou uma linha própria de calçados, incluindo a série Joker.
Hoje, a operação brasileira continua dependente de uma cadeia internacional de produção. A empresa já diversificou parte da fabricação para países como Vietnã e Indonésia, mas avalia parceiros para uma eventual produção no Brasil.
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