Investidor estrangeiro volta para a bolsa brasileira, mas não compra qualquer coisa; veja o que está no radar do gringo
Após forte debandada em agosto, o investidor estrangeiro voltou à bolsa em setembro; confira a análise da XP e do Itaú BBA sobre esse retorno

O humor do investidor estrangeiro em relação ao mercado brasileiro passou por uma virada na transição de agosto para setembro. Depois de registrar a maior saída líquida de recursos no mês passado desde o auge da pandemia, em março de 2020, o capital internacional voltou a aportar bilhões na bolsa brasileira.
Esse movimento ganha tração em um momento no qual o Bank of America (BofA) decidiu ir na contramão dos grandes bancos de Wall Street, elevando a recomendação das ações brasileiras para compra.
Agora, é a vez de XP Investimentos e Itaú BBA detalharem não apenas os motores da recuperação do fluxo externo, mas também revelarem onde o investidor estrangeiro está alocando dinheiro na B3 e de quais setores preferiu se afastar.
Do tombo de agosto à reação de setembro
O mês de agosto foi marcado por uma forte debandada do investidor estrangeiro da bolsa brasileira.
Segundo relatório da XP, assinado pelos analistas Fernando Ferreira, Raphael Figueredo, Caio Souza e Antonio Mello, os estrangeiros sacaram R$ 22,2 bilhões do mercado acionário local no mês passado, divididos entre saídas de R$ 18,1 bilhões no mercado à vista e R$ 4,1 bilhões no mercado futuro.
O estudo de acompanhamento de fluxo do Itaú BBA, elaborado pelos analistas Daniel Gewehr, Matheus Marques e Raphael Matutani, também confirma a forte aceleração nos resgates estrangeiros em agosto, registrando uma saída de R$ 18,1 bilhões.
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O levantamento do Itaú BBA aponta ainda que os ETFs (Exchange Traded Fund, ou fundo de índice) focados em Brasil sofreram resgates líquidos de R$ 3,3 bilhões no último mês e de R$ 400 milhões na última semana, mantendo, contudo, um saldo positivo acumulado de R$ 31,9 bilhões no ano.
A XP atribui o fraco desempenho de agosto à combinação entre a atratividade global da tese de inteligência artificial (IA) e uma temporada de balanços do segundo trimestre vista como decepcionante no Brasil.
O movimento de debandada em agosto também seguiu a deterioração das recomendações internacionais. No mês passado, o JPMorgan revisou a estratégia para a América Latina e rebaixou o Brasil de compra para neutro — o que desencadeou 11 quedas consecutivas no Ibovespa, a pior sequência desde 2023.
Semanas depois, o Morgan Stanley também rebaixou as ações brasileiras para neutro alegando piora na relação risco/retorno.
No entanto, o cenário mudou no início de setembro. A XP calcula que as entradas líquidas totais de estrangeiros somam R$ 10,8 bilhões no início do mês. O Itaú BBA corrobora o início de mês positivo, anotando ingressos de R$ 3,9 bilhões.
No entanto, mesmo com essa recuperação, as entradas líquidas em bolsa somam R$ 26,9 bilhões no mercado à vista em 2026, distante do pico de R$ 69,1 bilhões visto em meados de abril.
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Segundo a análise da XP, o Brasil retornou ao radar do investidor externo na medida em que o trade eleitoral ganha tração, o cenário de inflação e juros apresenta melhora, e os dados técnicos e valuations das ações seguem atrativos.
Foi esse cenário, inclusive, que fez o Bank of America voltar a recomendar as ações brasileiras. Contrariando JPMorgan e Morgan Stanley, o BofA projeta um ciclo de afrouxamento monetário mais profundo do que o esperado pelo mercado, impulsionado pela desaceleração da atividade econômica e por uma inflação mais baixa.
Os dados detalhados pelo Itaú BBA e pela XP fornecem um mapa claro da alocação setorial dos investidores estrangeiros no mercado brasileiro.
Segundo o BBA, as maiores vendas líquidas estrangeiras em agosto se concentraram em três setores estratégicos: Utilities (prestadores de serviço), com vendas líquidas de R$ 5,09 bilhões; Financeiro, com saídas de R$ 3,99 bilhões; e Energia, com saídas de R$ 3,96 bilhões.
Outros setores vendidos no período incluem Serviços de Comunicação (-R$ 646 milhões), Materiais Básicos (-R$ 766 milhões), Imobiliário (-R$ 249 milhões) e Consumo Discricionário (-R$ 219 milhões).
O relatório da XP confirma esse quadro, indicando que apenas seis de 17 setores tiveram entradas líquidas em agosto, com Saneamento, Bancos, Elétricas e Óleo, Gás e Petroquímicos liderando as saídas.
Mas mesmo durante a debandada de agosto, alguns setores mantiveram saldo comprador dos estrangeiros, com aportes abaixo de R$ 520 milhões segundo o Itaú BBA.
Entre eles estão Tecnologia da Informação (R$ 520 milhões), Saúde (R$ 300 milhões), Bens Industriais (R$ 264 milhões) e Consumo Não Discricionário (R$ 75 milhões).
A XP também aponta Bens de Capital, Saúde, Alimentos & Bebidas e Papel & Celulose como destaques positivos em agosto.
Em setembro, a XP nota melhora disseminada, com 10 de 17 setores apresentando fluxo comprador líquido até o momento.
O panorama acumulado do ano
Analisando o acumulado de 2026, o Itaú BBA mostra quais setores sustentam o apetite do investidor internacional.
Entre os mais comprados, Energia lidera com folga (R$ 25,2 bilhões), seguida por Materiais Básicos (R$ 8,9 bilhões), Utilidade Pública (R$ 3,1 bilhões) e Financeiro (R$ 2,2 bilhões).
Entre os mais vendidos em 2026 estão Consumo Não Discricionário (-R$ 5,7 bilhões), Saúde (-R$ 3,45 bilhões) e Tecnologia da Informação (-R$ 2,75 bilhões).
E o investidor doméstico?
Enquanto o capital internacional ensaia a volta à bolsa em setembro, o investidor local faz o caminho inverso.
A XP relata que os investidores domésticos foram compradores líquidos durante o mês de agosto, mas inverteram a direção no início de setembro, passando a vender posições.
No âmbito dos fundos de investimento, a indústria teve captação líquida positiva de R$ 33,9 bilhões em agosto.
Vale lembrar que esse montante foi impulsionado inteiramente pela classe de renda fixa, enquanto os fundos multimercados e de ações continuaram a registrar resgates.
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