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O FIM DO SPOILER

De Wyoming para o seu bolso: o que Kevin Warsh disse no evento mais exclusivo do mundo que mudou os rumos do dólar e da bolsa

Sem forward guidance e com o foco na inflação de 2% — entenda o discurso do novo presidente do Fed que rompeu com a tradição de Jackson Hole

O presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, fala de pé, em frente a um púlpito, durante coletiva de imprensa na sede do banco central norte-americano, em Washington, D.C.
Kevin Warsh, presidente do Federal Reserve - Imagem: Win McNamee/Getty Images

Wyoming ganhou a fama de ser o lugar mais selvagem dos EUA por ser o estado menos populoso do país, coberto por ecossistemas intocados onde os animais superam os humanos em larga escala. Uma vez por ano, a paisagem da região muda, e o que acontece por lá pode mexer com a bolsa, com o dólar e com sua carteira de investimentos.  

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A cada mês de agosto, a elite financeira global se reúne por três dias em Wyoming para o Simpósio de Jackson Hole — organizado pelo Federal Reserve (Fed) de Kansas City, o evento é considerado um dos mais exclusivos e influentes da economia mundial. É lá que a autoridade monetária mais poderosa do mundo aponta a direção dos juros nos EUA e, por consequência, para o resto do mercado.  

Só que não neste ano. A plateia que já viu o então presidente do Fed, Ben Bernanke, sinalizar e antecipar as rodadas do quantative easing — o histórico programa do banco central norte-americano de injeção massiva de liquidez para salvar a economia pós-crise de 2008 — e Jerome Powell anunciar que a meta de inflação de 2% não era mais fixa, nesta sexta-feira (28) assistiu o novo chefe do BC dos EUA quebrar paradigmas.  

Kevin Warsh falou pela primeira vez em Wyoming e iniciou seu discurso com um recado: "Não ouçam as minhas palavras como forward guidance, mas sim como uma mapa da política monetária".  

O forward guidance é a orientação futura que os bancos centrais costumam fornecer sobre os próximos passos da política monetária. O Fed passou a utilizá-la na esteira da crise financeira de 2008 para evitar que decisões sobre juros provocassem solavancos em um mercado que já estava fragmentado.  

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Mas Warsh segue determinado, desde o dia 1 de seu mandato à frente do Fed, de acabar com as mensagens telegrafadas. Ele assumiu em maio no lugar de Jerome Powell.

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"Vocês conhecem meu desconforto com o forward guidance, que foi essencial em 2008 mas não faz mais sentido agora.  Acredito que quando as autoridades monetárias se comprometem previamente com a trajetória da política monetária, ficam amarradas para tomar decisões futuras", disse.  

Ele, no entanto, ponderou que a relação com os mercados financeiros é importante para o banco central. 

"Precisamos de sinais claros, com o menor filtro possível, sobre mudanças em preços de ativos, volumes de negociação dos Treasurys, valor do dólar, custo do crédito e preços de uma ampla gama de commodities para nos informar sobre perspectivas de curto prazo da atividade econômica", afirmou. "Esses dados também revelam os riscos e incertezas das condições financeiras", acrescentou.  

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O que Kevin Warsh pensa 

Mesmo sem as pistas sobre o que pode acontecer com os juros nos EUA, mantidos desde o início do ano na faixa entre 3,50% e 3,75%, Warsh deu seu diagnóstico sobre a economia norte-americana.  

O presidente do Fed disse que o pleno emprego já foi alcançado, com a taxa de desemprego em 4,1% em julho. Vale lembrar que o banco central dos EUA não tem uma taxa fixa de desemprego para considerar o pleno emprego no país.

Mas ele fez questão de reforçar que a inflação segue rodando muito acima da meta de 2%. O índice de preços para gastos pessoais (PCE, na sigla em inglês) se manteve em 3,7% em julho, mesmo índice de junho. 

"Não deve haver engano: o objetivo do Fed de manter inflação em 2% é em relação ao índice de preços para gastos pessoais, afirmou Warsh, acrescentando que essa meta é complementar ao mandato de pleno emprego. 

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Ele reconheceu que os dados de inflação dos EUA estão melhores, mas que isso não significa uma tendência, e que os dirigentes terão trabalho a fazer caso os preços não voltem a se aproximar do alvo de 2% para garantir que as expectativas inflacionárias permaneçam ancoradas.  

"Temos que ter confiança de que a inflação está se movendo para a meta de maneira clara e em velocidade suficiente", afirmou. 

Sobre as condições gerais da economia norte-americana, o presidente do Fed afirmou estar impressionado com o desempenho, que está se fortalecendo apesar dos diversos choques dos últimos anos, citando guerras e tarifas.  

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IA na mira do Fed 

Além do mandato duplo de pleno emprego e inflação em 2%, Warsh também destinou parte do seu discurso para a inteligência artificial (IA). 

Segundo ele, a IA terá efeitos importantes tanto para a economia norte-americana quanto para a política monetária, destacando que a tecnologia aumenta o potencial de maior crescimento econômico diante do fluxo interminável de capital sendo alocado em investimentos de infraestrutura. 

 Contudo, ele afirma que ainda não está claro como todo esse potencial afetará a economia. Para Warsh, os principais questionamentos giram em torno de se a tecnologia aumentará de fato a produtividade, se será complementar ou não a criação de empregos, se demandará investimentos de capital ainda mais intensos a cada nova geração de IA e quais serão seus efeitos sobre os mercados financeiros. 

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"Não é óbvio onde os retornos desse capital vão pousar ou em qual prazo. Quanto do superávit vai para donos de laboratórios de IA com ativos escassos, fabricantes de chips, produtores de energia e provedores de nuvem? No longo prazo, esse valor irá para negócios e consumidores? Quais as implicações para o mandato de emprego do Fed?", questionou. 

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A reação da bolsa e do dólar

Com um presidente do Fed comprometido em tirar as rodinhas da bicicleta para deixar o mercado seguir seu caminho sozinho, como as palavras de Warsh repercutiram entre os investidores? 

A primeira reação veio do CME Group, por meio da ferramenta FedWach, que consolida as apostas para os juros nos EUA.  

O mercado alterou as apostas para a reunião de setembro, de manutenção para alta de juros, após Warsh reforçar que o foco da autoridade monetária precisa estar no retorno da inflação à meta de 2%, destacando que haverá "trabalho a fazer" se inflação não se aproximar da meta. 

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Segundo a ferramenta FedWatch, a chance de elevação de 25 pontos-base (pb) nos juros em setembro era de 55,7%, contra 44,3% de manutenção na faixa atual de 3,50% a 3,75% ao ano. Na véspera, o mercado estimava em 35,4% a possibilidade de alta de juros no encontro do próximo mês. 

Até o início do discurso de Warsh, o mercado apostava em retomada do aperto monetário pelo Fed apenas em outubro. Com as alterações, o mercado agora precifica chance de 68,5% de que os juros subam e 31,5% de manutenção. 

O segundo efeito do discurso de Warsh foi sobre o câmbio. Nesta sexta-feira (28), o dólar abriu perto da estabilidade ante o real, mas ganhou força ao longo da manhã em linha com a valorização da moeda americana no exterior, superando R$ 5,20. 

O dólar à vista abriu a R$ 5,1645, com alta de 0,05%, e chegou a cair até R$ 5,1585 nos primeiros minutos de negociação. Depois que Warsh começou a falar, a moeda norte-americana passou a subir e renovou sucessivas máximas, atingindo R$ 5,2131, por volta de 11h30, quando o discurso acabou. No início da tarde, o avanço era maior: +1,13%, a R$ 5,2203.

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Na bolsa, S&P 500, Nasdaq e Dow Jones operam em alta, a caminho de encerrar a semana com ganhos. Por aqui, o Ibovespa renovou uma série de mínimas diante da expectativa de juros mais altos nos EUA. 

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