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AFUNDANDO?

Essa cidade cresceu vertiginosamente e acaba de se tornar a maior do mundo, mas está afundando e corre o risco de sumir do mapa 

Um novo estudo da ONU coloca Jacarta no topo do ranking global de população urbana, mas a capital da Indonésia afunda a olhos vistos, enquanto o país já prepara uma substituta

Jacarta. Imagem: Wikipédia
Jacarta. Imagem: Wikipédia

Por décadas, Jacarta simbolizou o sonho urbano do Sudeste Asiático. Cresceu rapidamente, atraiu moradores de toda a região e se tornou o motor econômico da Indonésia. Agora, um levantamento das Nações Unidas (World Urbanization Prospects 2025) embaralha o mapa das megacidades e coloca a capital indonésia em uma posição tão impressionante quanto inquietante.

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Segundo o relatório, Jacarta é hoje a cidade mais populosa do planeta, com cerca de 42 milhões de habitantes em sua área urbana contínua — à frente de Daca e de Tóquio.

A façanha demográfica, no entanto, vem acompanhada de um paradoxo cruel: a maior cidade do mundo está afundando.

Crescimento acelerado de Jacarta

O estudo da ONU revisou a metodologia tradicional de contagem urbana e mostrou que o mundo se urbaniza muito mais rápido do que os números oficiais indicavam. Ao considerar manchas urbanas integradas, e não apenas limites administrativos, Jacarta salta para o primeiro lugar global.

O dado ajuda a explicar por que a cidade parece sempre no limite: trânsito crônico, pressão sobre serviços públicos, ocupação desordenada e uma dependência crescente de recursos naturais que o solo já não consegue sustentar.

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Uma capital que está afundando, literalmente

Diferentemente de outras megacidades que “afundam” em problemas abstratos, Jacarta afunda de fato. O fenômeno tem nome técnico: subsidência.

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Dados do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da Organização das Nações Unidas, citados pela revista Wired, mostram que a extração excessiva de água subterrânea, o peso das construções e a compactação natural dos sedimentos provocam taxas anuais de afundamento que, em algumas áreas, chegam a vários decímetros.

Entre 1982 e 2011, a cidade afundou, em média, 7,5 centímetros por ano, segundo o estudo Land subsidence of Jakarta (Indonesia) and its relation with urban development.

Em algumas áreas do norte, o ritmo foi ainda mais intenso, tornando Jacarta uma das cidades com a maior velocidade de afundamento do mundo já registrada.

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Ainda de acordo com o estudo, estimativas indicam que cerca de 40% da cidade está abaixo do nível do mar.

Inundação é comum em Jacarta

Para quem vive na capital Indonésia, a crise deixou de ser apenas projeção científica.

Como cidade costeira, Jacarta sofre com inundações cada vez mais frequentes. A elevação do nível do mar, as mudanças climáticas e episódios de chuvas extremas transformaram eventos antes pontuais em ameaças recorrentes à infraestrutura, à saúde pública e à qualidade de vida — como apontam análises da ONU citadas pela Wired.

O solo mais baixo dificulta a drenagem, agrava enchentes e obriga moradores a conviver com água contaminada, lixo e doenças.

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Em bairros do norte, ligados à Bacia de Jacarta e à região de Cikarang, o avanço do mar já é uma ameaça constante. Pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Bandung estimam que, em até 30 anos, 95% do norte da cidade poderá estar submerso se nada mudar.

Por que Jacarta está afundando?

A raiz do problema passa pelo saneamento. A ausência de uma rede ampla e confiável de água potável obriga milhões de moradores a recorrer a poços artesianos. Isso acelera a retirada de água dos aquíferos, reduz a sustentação do solo e aprofunda o desequilíbrio geológico.

Segundo o estudo, o problema resulta de um coquetel perigoso de fatores naturais e humanos:

  • Urbanização rápida e desordenada: a explosão populacional pressionou o solo e os recursos hídricos, sem planejamento compatível.
  • Extração excessiva de água subterrânea: cerca de 60% da população depende de poços artesianos, o que retira o “apoio” do subsolo e acelera o afundamento.
  • Fatores geológicos naturais: Jacarta está próxima ao encontro da placa Indo-Australiana com a Eurasiática, o que dificulta a estabilidade do terreno.
  • Sedimentos pouco consolidados: o solo, formado por materiais jovens e frágeis, se compacta com facilidade sob o peso da cidade.

A solução radical: mudar a capital

Diante do cenário, o governo indonésio decidiu fazer o impensável: o país está planejando oficialmente Nusantara, a nova capital construída no meio da floresta tropical, na ilha de Bornéu.

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O projeto foi aprovado pelo presidente Joko Widodo e simboliza a tentativa de redistribuir o crescimento econômico do país, que, segundo o Banco Mundial, pode crescer acima de 5% ao ano entre 2024 e 2026.

A ideia é aliviar a pressão demográfica e econômica sobre Jacarta e redistribuir o crescimento nacional.

Nusantara, porém, ainda é um grande canteiro de obras e só deve operar plenamente na década de 2040. Até lá, Jacarta continuará sendo o coração econômico da Indonésia.

Entre as soluções em curso também está o chamado Muro Marinho Gigante, projetado para conter o avanço do oceano, além de programas de restauração dos rios urbanos para melhorar a drenagem.

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Há ainda investimentos na expansão do metrô e de trens leves, na tentativa de reduzir congestionamentos, poluição e pressão urbana.

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