Do silêncio de Jennifer Lawrence ao boicote no Kennedy Center: artistas entram em rota de colisão com Trump
Enquanto Jennifer Lawrence defende o silêncio diante da polarização, artistas cancelam apresentações, protestam contra o ICE e entram em choque com a gestão cultural de Donald Trump

Em uma entrevista recente ao New York Times, a atriz Jeniffer Lawrence deu uma opinião viral sobre a relação entre os artistas e a política. Crítica ferrenha de Donald Trump em seu primeiro mandato, ela disse que hoje prefere o silêncio, uma vez que “se posicionar publicamente não faz diferença” e só serviria para dividir as pessoas.
Sua opinião, afirma, se expressa por meio do trabalho. A vencedora do Oscar avalia que, em um ambiente altamente polarizado, manifestações frequentes tendem apenas a afastar parte do público, o que esvaziaria a mensagem em vez de ampliá-la.
A fala chamou atenção e chegou a viralizar nas redes sociais, trazendo à tona discussões sobre o papel do artista diante de um governo que é visto como autoritário.
O novo mandato de Trump e sua radical política anti-imigração — que já foi responsável pela morte de dois cidadãos norte-americanos de nascença nos últimos dias — tem colocado fogo no país e mobilizado a classe artística, que em maioria tenta marcar posição contra o governo do republicano.
Um dos palcos de confronto entre Trump e artistas
Um dos movimentos mais recentes de artistas contra a gestão Trump tem como palco o Kennedy Center. O local é um renomado memorial vivo ao presidente John F. Kennedy e o principal centro cultural dos EUA.
Inaugurado na década de 1970, o Kennedy Center abriga a Orquestra Sinfônica Nacional e já foi a sede da Ópera Nacional de Washington, duas das mais importantes do país.
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Essa última, no entanto, deixou o espaço após o avanço da influência do governo sobre a gestão do centro cultural — e é justamente essa a temática que tem causado revolta na classe artística e causado cancelamentos de apresentações marcadas.
Há cerca de um ano, o chefe da Casa Branca foi nomeado presidente do conselho da entidade. Com isso, ele reformulou todo o conselho curador, que passou a ser presidido pelo próprio Trump.
Entre os integrantes que entraram no conselho, aparecem nomes como Usha Vance, esposa do vice-presidente do país, JD Vence, e a chefe de Gabinete da Casa Branca, Suzie Wiles.
Com isso, até mesmo o nome da instituição acabou alterado na placa de entrada, para: Trump-Kennedy Center, embora a troca ainda não seja oficial, pois foi questionada na justiça.
Por isso, uma série de artistas começaram a cancelar as apresentações que estavam marcadas para acontecer lá, muitas com os ingressos já esgotados, diga-se de passagem.
O caso mais simbólico envolve o compositor Philip Glass. Há seis anos, a Orquestra Sinfônica Nacional encomendou ao músico uma sinfonia em homenagem a Abraham Lincoln, como parte das celebrações pelos 50 anos do John F. Kennedy Center for the Performing Arts, comemorados em 2022.
A obra não ficou pronta dentro do prazo, mas a Sinfonia nº 15 de Glass tinha estreia mundial prevista com a própria orquestra em junho deste ano.
Na última terça-feira (27), Glass avisou ao Kennedy Center que não queria que a sinfonia, baseada no Discurso do Liceu de Abraham Lincoln, fosse apresentada no local. Em carta, o compositor afirmou que a Sinfonia nº 15 entra em conflito com os valores hoje representados pela instituição e pediu que a obra não fosse executada.
Junta-se ao rechaço ao Trump a postura adotada pela direção da Orquestra Sinfônica Nacional diante do avanço do republicano. Parte dos artistas defendia que a orquestra seguisse o exemplo da Ópera Nacional de Washington e deixasse o Kennedy Center, mas a escolha da gestão foi permanecer no local, o que é lido como endosso à gestão Trump.
Ao lado de Glass estão outros nomes de peso, como a soprano Renée Fleming, vencedora do Grammy, que decidiu não se apresentar em um concerto com James Gaffigan e a Orquestra Sinfônica Nacional, previsto para maio deste ano.
Além dela, integram esse coro de recusas o Quarteto Brentano com Hsin-Yun Huang, o Vocal Arts DC, a Companhia de Dança Martha Graham, a compositora Sonia De Los Santos, o banjista Béla Fleck, entre outros artistas.
Protestos de artistas contra Trump
Além disso, a classe artística também tem sido vocal no posicionamento contra o presidente dos EUA. No Festival de Cinema de Sundance, vários artistas usaram broches com a inscrição “ICE out” (“fora ICE”, em português).
Ice é a sigla para Immigration and Customs Enforcement, a agência federal responsável pela aplicação das leis de imigração e deportação nos Estados Unidos.
Nomes como: Edward Norton, Natalie Portman, Olivia Wilde e Billie Eilish estão nessa lista. Esta última, cantora pop vencedora de Grammys e um Oscar, fez um discurso poderoso durante o evento:
“Estamos vendo nossos vizinhos sendo sequestrados, manifestantes pacíficos sendo agredidos e mortos, nossos direitos civis sendo retirados, recursos para combater a crise climática sendo cortados em favor dos combustíveis fósseis e da agropecuária animal que está destruindo o nosso planeta, e o acesso das pessoas à alimentação e à saúde se tornando um privilégio para os ricos, em vez de um novo direito humano básico para todos os americanos”, disse Eilish.
As manifestações ocorrem diante da escalada de tensões entre a população norte-americana e o ICE, após operações de imigração federais em Minnesota que resultaram na morte de cidadãos americanos em confrontos com agentes, e que desencadearam protestos massivos no estado, em especial em Minneapolis.
Foram mortos: Alex Pretti, um enfermeiro de 37 anos, e Renne Good, poetisa de 31 anos que tentava se desvencilhar dos agentes e acabou sendo baleada dentro de seu carro. Ela estava desarmada.
No ano passado, a classe artística também se reuniu para promover eventos no movimento “Queda da liberdade”, que consistiu em eventos e apresentações ao redor do país para conscientizar a população sobre o que eles consideram ser medidas autoritárias do governo Trump. Foram cerca de 600 eventos ao redor do país em 2025.
Ontem foi a vez de Bruce Springsteen aderir ao coro. O lendário cantor e compositor norte-americano lançou em suas redes a canção “Streets of Minneapolis”, um protesto contra as ações do ICE com referência a um de seus clássicos, “Streets of Philadelphia”. Confira a seguir o clipe da música.
Bruce Springsteen - Streets Of Minneapolis (Official Audio)
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