A bolsa mais barata da América Latina que o mercado parou de olhar, mas não deveria
Enquanto o mundo corre atrás de ações de tecnologia impulsionadas pela inteligência artificial, o Brasil vira uma pechincha ignorada. O Citi enxerga uma assimetria rara — e explica o que pode mudar o jogo

Se você sente que o a bolsa brasileira anda meio deixado de lado, não é impressão sua. O motivo atende por duas letras que viraram febre global: IA.
Com a euforia em torno da inteligência artificial (IA) redirecionando bilhões de dólares para mercados com forte exposição ao setor de tecnologia, como Taiwan e Coreia do Sul, o Ibovespa ficou para trás.
E esse abandono temporário criou uma distorção que o Citi mapeou com cuidado — e com uma conclusão que chama atenção: o principal índice da bolsa brasileira está cada vez mais barato em relação a mercados desenvolvidos, em um nível de desconto que o banco não via “em muito tempo”.
O principal termômetro dessa pechincha é o múltiplo preço sobre lucro (P/L) projetado, que está em 8,4 vezes.
E a culpa é da IA. Essa rotação global de portfólios para o tema de tecnologia acabou pressionando o mercado brasileiro, segundo o Citi.
O termômetro do dinheiro estrangeiro reflete bem essa debandada: o fluxo de gringos para ações brasileiras, que acumulava expressivos R$ 70 bilhões até meados de abril, viu uma saída de R$ 33 bilhões desde então, reduzindo o saldo do ano para R$ 37 bilhões.
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Para completar o cenário de calmaria, o número de cotas do EWZ — o principal ETF de Brasil em Nova York — despencou 9% desde o pico histórico registrado em 19 de maio.
Pessimismo exagerado na bolsa brasileira?
O time de analistas do Citi defende que esse desconto no valuation é difícil de justificar olhando apenas para os fundamentos das nossas empresas.
O banco enxerga um grau de pessimismo excessivo do mercado e lembra que a relação risco-retorno começa a ficar bastante atraente (assimétrica para cima), apoiada em três pilares: a desescalada do conflito entre Irã, EUA e Israel e a consequente normalização do petróleo; o espaço para o Banco Central seguir cortando os juros por aqui, mesmo que em um ciclo atrasado; e a resiliência dos lucros corporativos locais e a vantagem estrutural do país como exportador de commodities.
Para os grandes gestores de fundos que seguem o MSCI Emergentes, o Citi vê um incentivo duplo: o peso do Brasil aumentou no índice ao mesmo tempo em que os preços afundaram.
Onde o Citi está colocando o dinheiro
O Citi manteve posição comprada em bolsa brasileira, mas, para atravessar esse momento de preços deprimidos e buscar superar o Ibovespa no longo prazo, o banco mexeu nas peças do seu portfólio recomendado — a carteira MVP.
O Citi optou por reduzir o otimismo concentrado e cortou os pesos de Petrobras e Multiplan de 10% para 5% cada.
Confira como ficou a divisão da carteira, que traz apostas com pesos equilibrados entre 5% e 10%:
- Com 10% de peso cada: Cury, Embraer, Equatorial, Localiza e BradSaúde.
- Com 5% de peso cada: Multiplan, Prio, Rede D’Or, Petrobras, Smart Fit, Itaú, Caixa Seguridade, Vale, Suzano e Axia Energia.
Bolsa brasileira: o raio-X do desempenho
Olhando para o retrovisor, a carteira do Citi tem conseguido proteger o patrimônio melhor do que a média do mercado na baixa. Desde o dia 15 de maio, o portfólio superou o Ibovespa.
No recorte dos últimos 30 dias, a carteira registrou queda de 4,3%, enquanto o Ibovespa recuou 5% no mesmo período.
Já no acumulado do ano, a carteira MVP do Citi recua 1%, enquanto o principal índice da bolsa brasileira avança 4,6%.
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