Santander (SANB11) decepciona no 1T26, mas CEO banca: “pagar mais imposto é bom sinal” — e mantém ROE de 20% na mira
Alta nos impostos pressiona lucro agora, mas pode destravar capital e impulsionar resultados, afirma Mario Leão; confira a visão do CEO do banco

O Santander Brasil (SANB11) entregou um resultado que não empolgou no primeiro trimestre (1T26), com lucro abaixo das expectativas e rentabilidade perdendo fôlego. Apesar disso, o CEO Mario Leão defende que a saúde operacional do bancão está em sua melhor forma.
Para ele, o número que aparece no balanço não conta toda a história: a franquia tem acelerado em termos de execução.
Embora o lucro líquido "na foto" tenha encolhido, a atividade operacional — o que o banco efetivamente gera antes do acerto de contas com o Leão — subiu 5,4% no trimestre, ainda que tenha recuado 3,5% na base anual.
O descolamento entre o lucro operacional e o lucro líquido, segundo Leão, tem uma explicação técnica: o banco pagou mais impostos. E, na leitura do CEO, isso não é um problema — é parte da estratégia.
Para Leão, pagar mais imposto agora é o pedágio necessário para liberar capital e focar no que realmente importa: emprestar para quem traz retorno.
“Pagar imposto é bom sinal. É sinal de que a franquia está crescendo da forma correta e oferecendo mais lucro para tributação”, disse, durante coletiva com jornalistas na sede do banco na manhã desta quarta-feira (29).
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O caminho do Santander rumo aos 20% de ROE
A queda do retorno sobre o patrimônio (ROE) no trimestre também entra nessa lógica.
Leão afirma que o indicador foi pressionado por um efeito matemático: de um lado, o banco reteve cerca de metade do lucro do ano passado, elevando o patrimônio líquido. De outro, o lucro do trimestre caiu, afetado pelo aumento da carga tributária.
O resultado é uma compressão temporária da rentabilidade. Para o CEO, porém, não há deterioração estrutural.
A meta de atingir — ou até superar — 20% de ROE até 2028 segue intacta, com a ambição de ser alcançada antes disso.
“Como é que eu faço o ROE voltar a subir? Fazendo a operação orgânica crescer mais”, afirmou.
Segundo ele, o lucro antes dos impostos deve avançar de forma sequencial ao longo dos próximos trimestres. Com isso, o lucro líquido tende a crescer acima do patrimônio líquido, reabrindo espaço para expansão da rentabilidade.
“Nos próximos trimestres, esperamos reverter essa tendência e retomar a trajetória de crescimento do ROE. Estamos bastante confiantes.”
Qualidade da carteira em xeque
Apesar da confiança na operação, o banco segue atento aos riscos. Leão reconheceu uma deterioração na saúde da carteira, especialmente nos indicadores de atraso mais longo, tanto em Pessoa Física quanto em Pessoa Jurídica. Você confere aqui os detalhes.
Embora afirme que não se trata de uma preocupação estrutural, o CEO destacou que o banco “tem portfólios que exigem mais atenção”.
Entre os focos de monitoramento estão o agronegócio, as pequenas empresas e parte da carteira de cartões — pontos sensíveis independentemente do ritmo de cortes da Selic, segundo o executivo.
No agro, a estratégia é manter um crescimento mais contido. A expectativa é de uma carteira “plana ou em leve queda” ao longo de 2026, enquanto o banco trabalha para recuperar perdas acumuladas em 2024.
“Temos um portfólio bastante protegido, com boa parte colateralizada, mas leva tempo até resolver. Até lá, o agro continua sendo uma preocupação”, disse.
No atacado, o banco também intensificou o acompanhamento de casos específicos de grandes empresas.
“Os casos são maiores individualmente, mas sabemos exatamente onde estão e acreditamos que estamos bem provisionados”, afirmou o CEO. “Há nomes específicos que preocupam e que temos que estar em cima.”
Na avaliação de Leão, mesmo em um cenário de juros mais altos por mais tempo, não há expectativa de deterioração expressiva nas provisões contra calotes (PDD).
“Na margem, mais juro significa mais PDD, mas não vemos uma piora relevante. A tendência é que a provisão acompanhe o crescimento da carteira e, em alguns casos, fique um pouco acima.”
A “cirurgia” na baixa renda e a aposta no Select
Uma das marcas da gestão de Mario Leão foi a decisão de diminuir o risco da carteira de crédito, começar a dizer "não" a certos perfis de clientes e focar em uma concessão mais seletiva e rentável.
Com isso, o banco passou a ser mais seletivo no segmento de baixa renda. O CEO destaca que o Santander não pretende abandonar esse público, mas ajustou o foco para clientes com maior vínculo — reduzindo a concessão para quem ganha até dois salários-mínimos e sem registro formal de trabalho, por exemplo.
"Estamos fazendo uma redução técnica e cirúrgica dos pedaços da baixa renda nos quais o Santander não consegue rentabilizar", explicou o CEO.
Enquanto isso, a representatividade do Private e do Select, segmento de alta renda do banco, continua a avançar na estratégia do Santander — e subiu três pontos percentuais no 1T26.
O objetivo do Santander Brasil é trocar volume por qualidade — menos risco, mais fidelidade e maior rentabilidade.
Essa seletividade também passou a aparecer no crédito para veículos. O foco passou a ser carros novos, que tendem a atrair clientes de maior renda e menor risco de inadimplência.
Nova sede: custo ou eficiência?
A decisão do Santander de construir uma nova sede até 2028 também entrou no radar dos investidores — e gerou críticas. Para Leão, a polêmica é exagerada. “É falta de assunto”, resumiu o CEO.
Segundo o executivo, o projeto não representa aumento de custos, mas sim uma alavanca de eficiência operacional.
A expectativa é reduzir despesas recorrentes, aumentar produtividade e até abrir espaço para monetização do ativo, com eventual venda ou locação de partes do complexo.
"O rearranjo das sedes faz parte de uma questão de redução de gastos, não de aumento", afirmou.
Um Santander diferente para o próximo ciclo
O balanço do primeiro trimestre também marca o início da despedida de Mario Leão do comando do Santander Brasil.
Após quatro anos no cargo, o executivo deixará a posição no segundo semestre, passando o bastão para Gilson Finkelsztain, atual presidente da B3 (B3SA3).
A expectativa é que Gilson já participe da próxima divulgação de balanço do Santander junto ao novo diretor financeiro (CFO), Carlos Muñiz.
- Veja também: Santander Brasil (SANB11) sem Mario Leão: o que muda — e o que não muda — com a chegada do novo CEO?
Ao fazer um balanço da sua gestão, Leão reconhece que o ciclo anterior — liderado por Sérgio Rial — foi marcado por crescimento acelerado via expansão de volume. “Não recebi um banco ruim, mas entrego um banco melhor", afirmou.
Na sua visão, o banco que emerge agora é outro. Ele aposta em uma instituição mais diversificada, mais eficiente e mais preparada para o uso intensivo de tecnologia.
A agenda de eficiência passa, inclusive, por iniciativas como o uso de inteligência artificial — com potencial de gerar economia de até R$ 500 milhões em 2026 e mais de R$ 1 bilhão em 2027.
Outro projeto relevante é o Gravity, plataforma bancária de última geração que deve reduzir custos de processamento em cerca de R$ 100 milhões por ano. “A implementação do Gravity traz para o Brasil sozinha, em uma base anualizada, um aumento de 1,5% no lucro líquido”, disse.
Na projeção do executivo, o lucro de 2026 deverá superar o recorde de 2021 — ainda que recuperar os níveis de rentabilidade daquele período, próximos de 19%, siga sendo um desafio.
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