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Camille Lima

Camille Lima

Jornalista formada pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), em 2025 foi eleita como uma das 50 jornalistas mais admiradas da imprensa de Economia, Negócios e Finanças do Brasil. Já passou pela redação do TradeMap. Hoje, é repórter de bancos e empresas no Seu Dinheiro. A cobertura atual é majoritariamente centrada no setor financeiro (bancos, instituições financeiras e gestoras), em companhias maiores listadas na B3 e no mercado de ações.

A HISTÓRIA DE UMA CRISE

Quem é o Grupo Fictor, patrocinador do Palmeiras, e por que entrou em crise depois que tentou comprar o Banco Master

Grupo expandiu rápido, diversificou negócios e atraiu investidores com promessas ambiciosas. Mas afirma que não resistiu ao efeito dominó da crise do Banco Master

Camille Lima
Camille Lima
2 de fevereiro de 2026
12:38 - atualizado às 12:29
Grupo Fictor, holding patrocinadora do Palmeiras, entra com pedido de recuperação judicial.
Grupo Fictor, holding patrocinadora do Palmeiras, entra com pedido de recuperação judicial. - Imagem: Divulgação

Grupo Fictor entrou em 2025 parecendo estar no auge. A marca estampava o uniforme do Palmeiras, sua subsidiária estava listada na B3 sob o ticker FICT3 e a empresa emitia cartões de crédito premium com a bandeira American Express. Era o retrato de uma holding que queria ser grande. 

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Em discursos com investidores, a Fictor falava em planos ambiciosos de entrar para o clube das dez maiores potências de proteína animal do Brasil até 2030.  

Pouco mais de um ano depois, o conglomerado passou a aparecer nos noticiários por outros motivos: atrasos de pagamentos de sócios e, em 1º de fevereiro de 2026, um pedido de recuperação judicial no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP)

A empresa sustenta a visão de que a crise não foi fruto de uma implosão operacional. Foi, segundo ela, um colapso de confiança — um efeito dominó que começou fora da Fictor e terminou travando o caixa, assustando investidores e empurrando o grupo para a busca de uma proteção na Justiça. 

O gatilho, de acordo com a própria companhia, veio do caso Banco Master. 

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Quem é o Grupo Fictor? 

A história da Fictor começa em 2007. À época, era uma empresa de base focada na prestação de serviços operacionais e tecnológicos. Durante quase uma década, cresceu de forma discreta, até decidir acelerar. 

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A partir de 2016, a holding iniciou um processo agressivo de diversificação. Entrou no mercado de commodities agrícolas em 2018 e, na sequência, avançou para áreas como infraestrutura, energia e setor imobiliário. 

Em 2021, o grupo já administrava cerca de dez empresas em diferentes frentes de atuação. Mas foi na Fictor Alimentos que encontrou seu principal motor de crescimento. 

No mercado financeiro, a consolidação veio com um IPO reverso com a aquisição da Atom Participações, empresa de educação financeira, em 2024. A empresa passou a se chamar Fictor Alimentos (FICT3).  

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Além da divisão de alimentos, o grupo lançou em 2024 a FictorPay, sua aposta no segmento de tecnologia financeira. No ano seguinte, porém, fintech sofreu um ataque hacker milionário, adicionando um novo foco de tensão à estrutura do grupo. 

Em março de 2025, o grupo deu mais um passo em busca dos holofotes. Fechou um contrato de patrocínio de três anos com o Palmeiras, no valor de R$ 30 milhões por ano, passando a estampar a marca da Fictor na frente e nas costas das camisas dos jogadores. 

As promessas da Fictor para atrair investidores 

Ao se apresentar ao mercado, a Fictor se vendia como um ecossistema de investimentos diversificado e sustentável. 

Nos segmentos imobiliário e de energia, as promessas eram robustas. Projetos de condomínios residenciais e fazendas solares projetavam, juntos, receitas futuras superiores a R$ 1,8 bilhão. 

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Para financiar essa expansão, a empresa lançou mão de um modelo bastante utilizado no agronegócio: as Sociedades em Conta de Participação (SCPs)Por meio delas, captou cerca de R$ 3 bilhões com investidores privados para projetos agroindustriais específicos. 

O gatilho da crise na Fictor: o negócio com o Master que virou pesadelo 

O castelo começou a balançar em novembro de 2025. Foi quando a Fictor anunciou a compra do Banco Master por R$ 3 bilhões — um movimento que surpreendeu o mercado, tanto pelo tamanho da operação por uma holding pouco conhecida no mercado, quanto pelo fato de a instituição financeira atravessar sérios problemas. 

Um dia depois do anúncio, o Master virou alvo de uma operação da Polícia Federal. O controlador, Daniel Vorcaro, foi preso. Na sequência, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição. 

Embora a Fictor alegasse ser apenas uma potencial compradora, a associação foi imediata: manchetes destacaram suspeitas envolvendo o caso Master. 

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“A tentativa de aquisição passou a ser retratada como parte de uma sucessão de movimentos desesperados para evitar a intervenção regulatória”, diz a Fictor em seu pedido de recuperação. 

“O nome da Fictor já se encontrava amplamente exposto em um ambiente de intensa crítica midiática, associado ao colapso do Banco Master, a especulações levantadas por investigadores e a análises que colocavam em dúvida a legitimidade e a viabilidade da operação anunciada”, acrescentou. 

A empresa chama isso de “contaminação reputacional externa”. No pedido de recuperação judicial, o grupo resume assim a situação financeira: 

"Os desdobramentos do caso Banco Master desencadearam um efeito em cadeia sobre a Fictor, marcado por perda de confiança, exposição negativa contínua, retração de parceiros, corrida por retiradas e o consequente impacto direto no fluxo de caixa operacional da empresa, exigindo ajustes emergenciais de liquidez e reestruturação operacional como um todo. Ainda que a companhia tenha reiterado a solidez de seus ativos, os efeitos reputacionais se converteram em dificuldades operacionais concretas.” 

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No entanto, segundo apuração da revista Piauí, a Fictor já estaria sob investigação desde 2023 em um inquérito sigiloso da Polícia Federal por “possível crime contra o sistema financeiro nacional”. 

Além disso, o grupo também estaria na mira da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), por suposta venda irregular de investimentos e práticas consideradas duvidosas no mercado de capitais. 

Corrida pelos resgates e asfixia de caixa 

Não demorou para que reclamações sobre a Fictor inundassem redes sociais e plataformas como o ReclameAqui, com atrasos nos pagamentos de investidores. 

Em janeiro de 2026, a holding tentou conter o estrago. Em comunicado, reconheceu que “enfrentava um momento atípico de mercado” e admitiu atrasos nos resgates, mas reforçou que não estava insolvente — apenas enfrentava uma crise de imagem. Não colou. 

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O que se seguiu foi, na prática, uma espécie de corrida bancária, com pedidos de resgates em massa. Segundo o pedido de recuperação judicial, as solicitações de retirada chegaram a 71,38% de todo o capital aportado nas SCPs. 

Até novembro de 2025, a Fictor havia recebido cerca de R$ 3 bilhões por esse modelo. Em poucas semanas, boa parte desse dinheiro tentou sair ao mesmo tempo. 

Foto: Reprodução.

Sobre os contratos de SCP, a Fictor alega que “o pilar de todas as relações era justamente a confiança”. Porém, em meio à instabilidade e choque reputacional, esse pilar “se fragiliza e os pedidos de retirada das sociedades ultrapassam os parâmetros considerados como sendo corriqueiros”, escreveu a empresa, no pedido de RJ. 

Em paralelo, bancos parceiros cortaram linhas de crédito, contratos comerciais foram revistos ou encerrados, operações ficaram comprometidas e ativos estratégicos precisaram ser colocados à venda para recompor caixa. 

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Como se não bastasse, uma disputa judicial com a Orbitall — responsável pelo processamento de cartões da FictorPay — resultou no bloqueio de R$ 150 milhões nas contas do grupo, travando fluxos operacionais da empresa. 

Investidores das SCPs, temendo não receber, passaram a ingressar com ações judiciais que, segundo a empresa, já somam mais de R$ 800 mil. 

Na bolsa, o reflexo foi imediato. As ações da Fictor Alimentos (FICT3) despencaram cerca de 80% em poucos meses. Hoje, caem outros 30%. 

A estratégia de sobrevivência da Fictor: por trás do pedido de recuperação judicial 

Diante da escalada da crise, a Fictor optou por buscar proteção contra os credores. Ontem, entrou com um pedido de recuperação judicial no valor de R$ 4,25 bilhões. 

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O objetivo central é ganhar tempo. Ao acionar o mecanismo, a empresa busca o chamado stay period — a suspensão das execuções por 180 dias — para evitar o esvaziamento do patrimônio por “bloqueios judiciais e decisões pulverizadas”. 

A estratégia da defesa é isolar a holding e a Fictor Invest do restante do grupo, preservando as operações consideradas saudáveis. A Fictor Alimentos, responsável por cerca de 87% da receita, ficou fora do pedido principal justamente para continuar operando e sustentar o pagamento dos credores no futuro, segundo a Fictor. 

No documento enviado à Justiça, a empresa insiste que é operacionalmente viável e que não há problema patrimonial. 

A Fictor diz ainda que a saída da crise é “plenamente possível” e que, passada a reestruturação, o grupo “voltará a crescer e o endividamento se transformará em algo pequeno, frente às capacidades do grupo”. 

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“O Grupo possui conhecimento organizacional e técnico, bem como vasta cadeia de relacionamentos e contratos já consolidada com seus stakeholders, os quais, aliados às condições do procedimento recuperacional, serão suficientes para transpor a crise.” 

Procurada pelo Seu Dinheiro, a assessoria da Fictor informou que não se manifestaria além da nota ao mercado. 

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