Agência com cara de hotel? A aposta do Bradesco (BBDC4) para atrair clientes endinheirados
A diretora Daniela Castro conta como o Bradesco aposta em escritórios com cara de lounge, atendimento personalizado e novos benefícios para conquistar os ricaços

Quem entra em uma agência do Bradesco Principal pode levar alguns segundos para perceber que está, de fato, dentro de um banco. Em vez de filas, guichês e painéis de senha, encontra poltronas vinho, sofás claros, mesas de madeira e obras de artistas brasileiros. O ambiente lembra mais o lobby de um hotel do que uma agência bancária.
Até os caixas eletrônicos ficam discretamente escondidos atrás de painéis. A ideia é tirar os serviços transacionais do centro da experiência e colocar o relacionamento em primeiro plano — com café, espaços de coworking, eventos e até profissionais chamados de “gerentes de encantamento”.
Por trás da mudança de cenário, há uma disputa bem concreta: o Bradesco quer deixar de ser apenas um dos bancos do cliente de alta renda para se tornar o principal. E, depois de reorganizar a própria carteira, pretende avançar sobre quem hoje concentra investimentos e negócios nos concorrentes.
Do cliente à principalidade
O Principal nasceu em 2024 a partir de uma constatação incômoda para o Bradesco: o banco já tinha uma base expressiva de clientes de alta renda, mas não trabalhava essa carteira da melhor forma.
Havia cerca de 800 mil clientes dentro do perfil alvo, distribuídos entre o varejo e o Prime, com renda a partir de R$ 25 mil ou investimentos de R$ 300 mil — até o limite de entrada no Private, de R$ 10 milhões.
“Tínhamos o CPF e o correntista, mas não éramos o banco principal desse público”, afirma Daniela Castro, diretora do Bradesco Principal, em entrevista ao Seu Dinheiro.
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Em vez de simplesmente fazer um upgrade do Prime, o Bradesco decidiu criar um segmento próprio. A proposta foi construída sobre quatro pilares: atendimento, cartão, benefícios e oferta internacional.
Um dos elementos centrais do novo modelo foi reduzir a quantidade de clientes por gerente. Com uma carteira menor, o banco conseguia aumentar a frequência e a profundidade do relacionamento.
O modelo tenta combinar essa proximidade com tecnologia. A executiva afirma que o planejamento financeiro é usado como ponto de partida do relacionamento, enquanto dados, inteligência artificial e Open Finance ajudam a mapear o patrimônio e identificar necessidades.
A ambição, segundo Castro, não é apenas vender mais produtos. É fazer com que o cliente concentre mais da sua vida financeira no Bradesco.
A diretora abriu os primeiros números da operação ao Seu Dinheiro e detalhou como o banco acompanha o desempenho de diferentes faixas de clientes. Na divisão interna, o segmento P1 reúne pessoas com renda mensal a partir de R$ 25 mil ou investimentos de até R$ 300 mil. Nesse grupo, a captação de investimentos mais que dobrou.
O banco também divide a carteira em outros dois segmentos: o P2, que reúne clientes com investimentos de R$ 300 mil a R$ 1 milhão, e o P3, voltado a quem tem entre R$ 1 milhão e R$ 10 milhões investidos.
Considerando toda a operação do Principal, a captação cresceu 25%. No mesmo período, a carteira de crédito avançou 18%, e a receita total registrou alta média de 20%.
Agora, o Bradesco quer disputar no “mar aberto”
O próximo passo do Bradesco é parar de disputar apenas o próprio cliente e começar a tirar clientes dos concorrentes.
O Bradesco já concluiu o atendimento da base inicial de 800 mil pessoas e pretende trabalhar com outros 200 mil clientes do próprio banco em 2027, muitos deles inicialmente por canais digitais ou atendimento remoto.
Para isso, a estrutura física também está crescendo. São 119 escritórios previstos para os até o final de 2026 — no momento já foram inaugurados 93.
Mas o plano não para nessa base. A meta declarada pela executiva é levar o Principal a 1,2 milhão de clientes no ano que vem, o que inclui a conquista de pessoas que hoje estão distribuídos entre nomes como Itaú, Santander, BTG, XP e outras instituições.
“Queremos fazer um crescimento sustentável, consolidando o segmento, trazendo o cliente certo e mantendo a equipe treinada e capacitada. É um passo a passo”, diz Castro.
Não basta ter uma agência bonita: como o Bradesco quer ser escolhido pela alta renda?
A disputa pela alta renda, porém, não será vencida só com poltronas confortáveis ou cafezinho gourmet.
O Bradesco aposta em uma combinação de relacionamento pessoal e benefícios para criar motivos para o cliente migrar: conta internacional nos Estados Unidos, cartões de alta renda, salas VIP, concierge, eventos, planejamento patrimonial e atendimento fora do horário bancário tradicional.
Há também uma estratégia de indicação. O conceito de family members estimula clientes a trazerem familiares e amigos para o Principal.
O relacionamento também pretende ultrapassar as paredes dos escritórios. Pela proposta, o gerente pode encontrar o cliente onde for mais conveniente: em um restaurante, em casa, no hospital ou até em uma fazenda.
“Queremos estar onde o cliente está”, resume a diretora.
A executiva afirma que o crescimento será gradual, com foco em atrair o público adequado e manter as equipes preparadas.
Para sustentar a expansão, o Bradesco planeja chegar a 2 mil gerentes e 4 mil colaboradores no Principal. Parte desses profissionais veio de outras áreas do banco; outra parte foi contratada no mercado e treinada para uma atuação mais consultiva.
A estratégia também busca aproximar o Principal de uma nova geração de clientes de alta renda, incluindo os chamados “novos ricos”.
O desafio é fazer com que a experiência se traduza em negócios. Um espaço confortável pode ajudar a atrair o cliente, mas não garante que ele transfira seus investimentos, concentre o crédito ou passe a usar o Bradesco como principal instituição financeira.
Para isso, o Bradesco prepara uma reformulação do aplicativo do segmento, com lançamento previsto para o próximo ano, e aposta em eventos culturais, esportivos e de entretenimento para estreitar o relacionamento com esse público.
“Nosso objetivo é ser a escolha do cliente, gerando confiança e estabilidade”, afirma Daniela.
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