“Sem saída fácil”: Braskem (BRKM5) despenca mais de 13% após UBS BB rebaixar ação e cortar preço-alvo em 74%
Ação foi rebaixada para venda enquanto a petroquímica tenta reestruturar bilhões em dívidas; para o banco, os riscos continuam inclinados para o lado negativo

Demorou, mas chegou. Quase um mês depois de a Braskem (BRKM5) entrar com pedido de recuperação extrajudicial, com mais de R$ 50 bilhões em dívidas, o UBS BB finalmente rebaixou a recomendação para as ações da petroquímica, de neutra para venda.
Junto com a revisão negativa de recomendação, o preço-alvo para as ações da Braskem despencou de R$ 10,50 para R$ 3,75, um corte de quase 74% nas estimativas. Para os ADRs negociados no exterior, a projeção caiu de US$ 4,00 para US$ 1,50.
A nova estimativa representa um potencial de queda de aproximadamente 30% para BRKM5 em relação ao fechamento anterior, e ampliaria a perda acumulada pela ação na B3, que já supera os 41% desde o início do ano.
“Reconhecemos que estamos chegando relativamente tarde a esse rebaixamento, após a forte queda das ações nos últimos três meses e os persistentes ventos contrários vindos dos spreads e do processo de reestruturação”, afirmam os analistas.
Para o UBS BB, a Braskem está espremida entre um cenário ainda desfavorável para o mercado petroquímico e uma estrutura financeira que exige uma solução de grande porte — com potencial de diluir fortemente os atuais acionistas.
“Vemos a Braskem em uma situação difícil, sem uma saída simples”, dizem os analistas.
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De um lado, os spreads petroquímicos perderam o impulso que haviam ganhado com o conflito no Oriente Médio. De outro, a companhia precisa negociar com credores uma redução de dívida complexa que pode mudar radicalmente o tamanho da fatia dos acionistas atuais na companhia.
As ações da Braskem passaram a operar em forte queda no pregão desta quarta-feira (16), após o rebaixamento. Por volta das 13h50, BRKM5 desabava 13,30% e liderava a ponta negativa da bolsa, cotada a R$ 4,63.
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Braskem (BRKM5): sem alívio nos spreads
Quando o conflito no Oriente Médio começou, as preocupações com possíveis interrupções no fornecimento provocaram uma forte alta dos spreads petroquímicos, abrindo uma janela de alívio para as margens do setor.
O movimento, porém, durou pouco. Com o excesso de capacidade e os estoques disponíveis, a oferta foi realocada e os spreads retornaram, em grande medida, ao cenário que os analistas projetavam antes do conflito.
O que está no horizonte também não é exatamente uma recuperação do setor.
O UBS BB espera que 2027 marque o pico das adições de capacidade de polietileno (PE), com 7,6 milhões de toneladas entrando em operação. Cerca de 60% desse volume deve vir da China, enquanto o crescimento estimado da demanda é de apenas 4,6 milhões de toneladas.
Ou seja, se as estimativas se confirmarem, seria mais capacidade chegando ao mercado do que consumo adicional, aprofundando o excesso de oferta.
No caso do polipropileno (PP), o pico de novas capacidades pode ter ficado para trás no período entre 2023 e 2025. Ainda assim, são esperadas 3,1 milhões de toneladas adicionais em 2027, cerca de 75% provenientes da China. Nesse caso, o volume deve, de forma geral, acompanhar o crescimento da demanda.
A leitura do UBS BB é que os spreads petroquímicos devem permanecer em níveis típicos de um ciclo de baixa até o fim da década, com pouco espaço para surpresas positivas.
“Vemos a Braskem em uma situação difícil, sem uma saída simples, já que os spreads retornaram, em grande medida, ao cenário projetado antes do conflito, enquanto as significativas adições de capacidade na China devem superar o crescimento da demanda em 2027 e 2028”, afirmam os analistas.
A conta da dívida deve chegar aos acionistas
Se a dinâmica do setor já limita o potencial de recuperação operacional, a situação financeira adiciona outra peça importante ao quebra-cabeça.
No âmbito da recuperação extrajudicial, a Braskem tem até 22 de novembro para alcançar um acordo com 50% mais um dos credores.
O UBS BB estima que a companhia precise reduzir sua dívida líquida em cerca de US$ 6 bilhões a US$ 6,5 bilhões para chegar a níveis sustentáveis de alavancagem e geração de caixa.
“Dada essa magnitude, uma solução pode combinar conversão de dívida em ações, desconto sobre a dívida (haircut) e injeção de capital”, projeta o banco.
O problema, para os acionistas, é que parte dessa solução deve passar justamente pela redução de sua participação na empresa.
Caso a reestruturação envolva exclusivamente conversão de dívida ou aumento de capital, a diluição dos acionistas minoritários seria brutal, podendo ficar entre aproximadamente 70% e 95%, nas contas do UBS BB.
Mesmo uma estrutura com menor conversão de dívida não eliminaria totalmente o risco. Um desconto aplicado na troca dos títulos também poderia resultar em diluição dos atuais acionistas.
Na avaliação do banco, o mercado já começou a colocar parte desse risco no preço. As ações acumulam queda de aproximadamente 40% no ano e a Braskem encerrou 2025 com apenas cerca de US$ 1 bilhão em caixa, nível considerado insustentável pelo UBS BB.
Se houver aprovação do acordo, o plano definitivo substituirá o acordo de suspensão temporária das obrigações (standstill) e passará à fase de implementação. Essa etapa, porém, ainda poderá levar algum tempo até ser concluída integralmente.
Já se não houver acordo com os credores, a Braskem poderá precisar ingressar com um pedido de recuperação judicial (RJ), em um processo mais complexo e demorado.
Em qualquer dos casos, as negociações devem manter a volatilidade elevada para as ações enquanto o desenho da reestruturação não estiver definido, afirmam os analistas.
Enquanto a negociação com os credores avança, a operação também deve continuar sentindo os efeitos do cenário adverso do setor.
O UBS BB projeta Ebitda (indicador que mensura a capacidade de geração de fluxo de caixa operacional de um negócio) pressionado e maior consumo de fluxo de caixa livre para o acionista (FCFE) nos próximos anos, o que pode exigir uma solução mais abrangente para a estrutura de capital da companhia.
“Com os riscos inclinados para o lado negativo, mantemos recomendação de venda”, dizem os analistas.
E como fica a Petrobras (PETR4)?
A solução para a dívida também deve envolver a Petrobras (PETR4), uma das principais acionistas da Braskem.
Nas contas do UBS BB, caso a redução da dívida líquida ocorra exclusivamente por meio de conversão de dívida e aporte de recursos da estatal, a petroleira precisaria contribuir com algo entre US$ 2 bilhões e US$ 2,5 bilhões para manter sua participação acionária inalterada.
Se a Petrobras quisesse ampliar sua fatia até o limite de 49,9%, sem consolidar a Braskem em seu balanço, o aporte necessário ficaria entre US$ 3,0 bilhões e US$ 3,5 bilhões, segundo as projeções.
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