O fim da carreira em 3 fases: por que a transição profissional está se tornando a norma no mercado
Este texto é sobre o que aprendi, num reencontro de vinte anos de amizade, sobre parar de exigir clareza total sobre o próximo passo da carreira

Depois de alguns anos planejando, finalmente conseguimos nos reunir. Há algumas semanas, reencontrei meus grandes amigos da graduação, em uma viagem organizada pelo nosso grupo de sete pessoas para celebrar vinte anos de amizade.
Sete sonhos diferentes. Sete vidas que se desenharam de formas que ninguém, lá atrás, teria imaginado.
Para mim, esse reencontro ganhou um contorno ainda mais profundo. Venho de um luto recente, o falecimento da minha sogra, tema da minha última coluna aqui.
E a viagem, mesmo tendo outro motivo, me trouxe de volta ao poder do tempo: o que ele ensina sobre amizade, sobre reconhecer quem realmente importa e, claro, sobre como olhamos para a nossa própria carreira ao longo da linha do tempo.
O luto tem esse efeito: nos devolve, sem pedir licença, à pergunta sobre o que fazemos com o tempo que ainda temos. E foi com essa pergunta na cabeça que reencontrei minha turma.
Provavelmente zero surpresa em dizer isso, mas muitas delas não foram planejadas ou pensadas do jeito que estão agora. Em 2006, quando entramos na universidade, cada um daqueles jovens tinha sonhos bem diferentes do que a vida revelou depois.
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Uma virou educadora infantil, em outro país, em outra cultura. Outra é executiva de marketing e hoje faz mestrado em literatura, já com alguns livros publicados de forma independente.
Outros empreenderam na área de sustentabilidade e comunicação. Uma outra trabalha com gestão de produto na indústria de games, no Canadá. E eu segui como executivo de recursos humanos.
Nada como um exercício de observação, e também um certo viés de confirmação, para reforçar mais uma vez um dos mantras que mais repito neste espaço: a não linearidade da carreira.
E mesmo vendo aonde a vida nos levou, foi prazeroso perceber o quanto cada um ainda carrega desejos ambiciosos para a própria carreira.
Ninguém ali com aquela sensação de “cheguei lá”. Gente que ainda sonha em empreender, que quer experimentar outras atividades no futuro, que ainda deseja viver em outras geografias.
A faísca da ambição continua bem viva, e eu, inclusive, voltei revigorado desse encontro, pensando nas inúmeras possibilidades que a vida nos oferece todos os dias.
Transição de carreira pode ter se tornado a norma
E se essas sete histórias apontam pra isso, por que ainda insistimos em querer clareza total sobre o próximo passo? Essa é, aliás, uma das principais demandas que recebo quando converso sobre carreira e desenvolvimento com as pessoas.
Isso já está virando um padrão nessas minhas conversas de carreira: relembrar as pessoas de que aquele modelo perfeito de carreira que aprendemos já mudou.
O aumento da expectativa de vida e os desafios da previdência vão nos empurrar para carreiras muito mais alongadas. E isso torna várias transições de carreira ao longo da vida praticamente a norma, não a exceção.
Lynda Gratton e Andrew Scott, professores da London Business School, chamam isso de vida multiestágio.
Na obra “The 100-Year Life”, os dois argumentam que o modelo tradicional de três fases (educação, trabalho, aposentadoria) está com os dias contados diante do aumento da longevidade, e que passaremos a viver várias reinvenções profissionais ao longo da vida, não apenas uma sequência linear até a aposentadoria.
Ou seja: se antes a transição era uma exceção que pedia explicação, ela está caminhando para virar regra.
Embora, na dimensão da carreira, eu tenha sido sempre muito intencional sobre cada passo que dei, alguns momentos da minha vida me mostraram que o caminho B era melhor que o caminho A. E eu segui o fluxo, que me trouxe até aqui.
Eu não imaginava, lá em 2006, que estaria numa posição na área de RH. Tampouco que seria técnico em mecânica aos dezoito anos de idade.
Meu ponto aqui é: não precisamos cravar em pedra qual é o nosso próximo passo. Sem nos darmos conta, criamos futuros a partir dos nossos próprios planos, e a rigidez sobre essa construção é o que quase sempre nos frustra, por não estarmos exatamente onde achávamos que deveríamos estar.
Ainda dá tempo de tirar o sonho do papel
Uma objeção que costuma surgir: “mas eu já sei que quero ser médico, ou piloto de avião”. Nesses casos, o norte tem solidez, mas o caminho até lá ainda pode ser trilhado de formas muito diversas.
E o meu convite hoje para você é: aproveite que estamos em setembro, e que ainda há bastante tempo pela frente até fecharmos o ano. Se você ainda não tirou do papel aquele sonho de fazer algo diferente pela sua própria carreira, lembre-se de que todo dia é um novo dia para começar.
Podemos nos desafiar a sonhar mais e a buscar mais experiências de trabalho ao longo da vida. Recentemente, ouvi de uma amiga que já era tarde para fazer uma graduação. Discordei na mesma hora, até porque eu mesmo estou cogitando cursar uma nova.
Desafiar esse modelo mental de que a carreira se vive com uma única profissão vale a pena. Nunca tivemos tanto acesso à informação para isso.
A clássica pergunta “onde você gostaria de estar daqui a cinco, dez anos” continua sendo um bom guia. E vou seguir levando essa pergunta para os meus diálogos sobre carreira.
Mas, somando a essa questão, considerando tudo o que falei aqui sobre um olhar mais alongado de carreira, é preciso perguntar também: o que esse passo me ensina agora?
A ancoragem em aprendizagem esteve sempre presente em todos os meus passos, e, nesse contexto, ela tem feito cada vez mais sentido pra mim. Se estou aprendendo, esse já é um dos maiores retornos sobre uma decisão. Isso continua valendo até hoje.
Aos meus amigos e amigas da USP, parabéns pelas lindas histórias e trajetórias. Vocês me ensinam que a vida é ainda mais bonita quando se caminha ao lado de pessoas tão especiais e inspiradoras. Para sempre, turma de RP da ECA, 2006.
Até a próxima,
Thiago Veras
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