Multimercados em crise? CEO da Bradesco Asset vê ‘seleção natural’ e diz que uma nova onda de consolidação vem aí
Com juros altos e investidores migrando para a renda fixa, Bruno Funchal vê uma nova rodada de consolidação nos multimercados

Os fundos multimercados atravessam uma das fases mais difíceis de sua história recente. Mas, enquanto algumas gestoras perdem patrimônio e precisam decidir se ainda vale a pena manter estruturas caras para administrar menos dinheiro, a Bradesco Asset está fazendo o movimento contrário: aproveitando a maré baixa para ganhar escala.
A maior gestora do país, com mais de R$ 1 trilhão em ativos sob gestão (AUM), acertou nas últimas semanas a transferência da gestão dos fundos multimercados da tradicional Gávea Investimentos, de Armínio Fraga, que decidiu deixar de atuar na gestão para terceiros.
Para o CEO da Bradesco Asset, Bruno Funchal, o movimento faz parte de uma transformação importante da indústria.
Depois de anos de expansão, com o surgimento de centenas de gestoras independentes, os juros altos mudaram a matemática do negócio — e devem acelerar uma seleção entre as casas com capacidade para atravessar períodos prolongados de resgates.
Com a renda fixa oferecendo retornos elevados, o investidor ficou menos disposto a pagar o preço do risco, e a classe já acumula cerca de R$ 672 bilhões em resgates nos últimos quatro anos, segundo dados da Anbima.
A diferença é que, para a Bradesco Asset, essa consolidação não significa o fim dos multimercados. Pelo contrário: Funchal acredita que a classe continua tendo espaço nas carteiras e que o atual ciclo pode abrir oportunidades para quem tem escala, histórico de resultados e estrutura para esperar.
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“Acreditamos no valor da classe multimercado por sua capacidade de gerar valor e ter um comportamento diferente das outras classes, o que é fundamental para a diversificação”, disse Funchal, em entrevista exclusiva ao Seu Dinheiro.
Na visão do executivo, fusões, incorporações, transferências de fundos e encerramentos de gestoras podem se tornar mais frequentes, especialmente se os juros permanecerem elevados por mais tempo.
Os sinais desse movimento já começam a aparecer: nos últimos dias, a TAG Investimentos também anunciou a saída dos multimercados, zerando a posição na categoria devido ao desempenho dos fundos ativos nos últimos anos.
A maré baixa dos fundos multimercados
O problema, na avaliação do executivo, não está necessariamente no produto. Está na concorrência.
Com a Selic elevada por tanto tempo, além de produtos de crédito privado e investimentos incentivados oferecendo retornos competitivos, o investidor passou a ter alternativas que exigem menos risco para entregar resultados atraentes.
“Você pode até ter um bom produto, mas se tem uma concorrência muito relevante, como o Tesouro Nacional por causa da Selic pagando 15% de juro por muito tempo e juro real de 10%, é difícil convencer o investidor a tomar risco para ganhar um pouco a mais”, afirma Funchal.
Essa mudança elevou a régua para os multimercados. “As pessoas, em média, não são tão tomadoras de risco assim”, diz o executivo.
O efeito aparece no tamanho da indústria. Com menos patrimônio, as receitas das gestoras caem, mas despesas com risco, compliance, análise e tecnologia continuam existindo.
“Sem uma quantidade mínima de recursos, a estrutura fica pesada”, afirma.
É aí que a escala passa a fazer diferença. Para Funchal, bons históricos de resultados (track record) e tamanho devem se tornar cada vez mais importantes. Uma casa que consegue diluir custos em uma estrutura maior tem mais condições de atravessar um período ruim sem precisar desmontar sua operação.
“Somos um negócio robusto o suficiente para investir na classe mesmo em períodos de dificuldade”, afirma.
A lógica ajuda a explicar por que a Bradesco Asset vê espaço para uma nova rodada de consolidação na indústria, e por que decidiu incorporar os fundos da Gávea.
É o fim dos multimercados?
Apesar da pressão, Funchal não acredita que os multimercados estejam próximos do fim.
A liberdade para operar diferentes mercados e construir posições variadas continua sendo, na visão dele, uma das principais vantagens da classe. O que mudou foi o preço que o investidor está disposto a pagar por essa flexibilidade.
“Quanto risco ele precisa tomar para ganhar de um investimento que paga juros altos sem imposto?”, questiona.
A indústria também atravessou uma sequência de choques que interrompeu tentativas de recuperação, incluindo o tarifaço de 2024, as discussões tarifárias envolvendo o Brasil e mudanças na direção da política monetária.
Na avaliação do executivo, essa sucessão de eventos deixou uma marca no investidor. Por isso, uma recuperação mais consistente dos multimercados dependeria menos de reinventar o produto e mais de uma mudança no ambiente macroeconômico.
O gatilho para a recuperação dos multimercados
O problema é que essa recuperação pode demorar. Uma Selic de 12% (patamar esperado para o final de 2027, segundo o Boletim Focus) ou 11,5%, por exemplo, poderia não ser suficiente para provocar uma virada significativa, avalia o CEO da Bradesco Asset.
“Para a economia funcionar bem e o dinheiro fluir para setores produtivos e ações, será necessário um juro mais baixo com uma sinalização fiscal que tenha credibilidade”, afirma Funchal.
Mesmo com uma inflação mais controlada, ele acredita que a situação fiscal deve impor um limite para a queda dos juros.
É nesse ponto que o calendário eleitoral entra na equação. Para Funchal, muitas gestoras estão observando o cenário antes de decidir se vale a pena continuar investindo em estratégias que perderam patrimônio nos últimos anos.
Se houver uma perspectiva mais clara de queda dos juros e melhora do ambiente econômico, parte dessas casas pode ganhar fôlego. Caso contrário, a consolidação tende a avançar.
O que muda nos fundos da Gávea?
O acordo com a Gávea é um exemplo desse movimento. Com 23 anos de história e um papel relevante na formação da indústria brasileira, a gestora decidiu deixar de fazer a gestão de multimercados para terceiros.
Para a Bradesco Asset, a saída abriu uma oportunidade de incorporar os fundos e ampliar sua atuação na classe. No caso da Gávea, a proposta é assumir a gestão dos fundos dos clientes mantendo os mandatos originais.
A diferença, segundo Funchal, está justamente na estrutura por trás desses produtos. Os custos de risco, compliance, economia e outras áreas já estão diluídos no patrimônio maior da Bradesco Asset.
“Somos um negócio robusto o suficiente para investir na classe mesmo em períodos de dificuldade”, reforça.
A principal mudança nos fundos, segundo Funchal, estará na forma de distribuir o risco. A intenção é manter a estratégia global, mas distribuir melhor a concentração de risco dentro da estrutura da casa.
A filosofia também deve privilegiar consistência de resultados em vez de grandes apostas.
“Preferimos dois retornos de 15% do que um de 30% seguido por um de zero”, diz Funchal.
A ideia é tornar a trajetória dos investimentos menos dependente de grandes acertos e reduzir a volatilidade do resultado — uma preocupação especialmente relevante depois de anos em que muitos investidores deixaram os multimercados após períodos de desempenho ruim.
Como será o multimercado do futuro?
Para Funchal, o que deve mudar na indústria de fundos multimercados é a forma como a classe de investimentos será oferecida ao investidor.
Em vez de fundos isolados, a tendência seria construir soluções de investimento que combinem diferentes classes de ativos de acordo com o perfil e as necessidades de cada cliente.
Nesse desenho, o multimercado deixaria de ser necessariamente o protagonista e passaria a funcionar como uma peça de um portfólio mais amplo, sobretudo pela capacidade de diversificação.
“Sempre haverá espaço para multimercado”, afirma.
A transformação também deve passar pela tecnologia. Para Funchal, ter uma estratégia global deixou de ser um diferencial e passou a ser praticamente uma necessidade.
O próximo passo seria incorporar mais inteligência artificial à análise, ampliando a capacidade dos gestores de processar informações e identificar oportunidades.
Ao mesmo tempo, ele aposta em uma indústria mais personalizada, acompanhando uma tendência já observada no exterior com o avanço de consultores e advisors.
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