Só deu ouro em agosto: metal precioso e ‘ouro digital’ entregaram até 25% de retorno no mês, deixando a renda fixa comendo poeira
Discussão sobre intervenção do Tesouro norte-americano nos Treasurys e força do dólar mexeram com os investimentos alternativos, que mostraram recuperação depois de meses no vermelho

Agosto foi o mês da volta dos que não foram. Depois de meses acumulando retornos negativos, bitcoin e ouro voltaram a brilhar e em grande estilo: a criptomoeda disparou 25%, enquanto o metal precioso avançou 12%.
Tanto o ouro quanto o bitcoin, frequentemente chamado de "ouro digital", surfaram uma nova onda de discussões sobre desvalorização cambial. Em 2025, esse já havia sido um dos principais motores da alta de 65% do metal precioso.
A lógica é simples: diante do risco de aumento dos déficits fiscais, perda de poder de compra das moedas e desvalorização cambial, investidores recorrem ao ouro e ao bitcoin como alternativas ao dólar.
Em agosto, essas preocupações voltaram ao centro das atenções após uma decisão inesperada do Tesouro dos Estados Unidos. A autoridade anunciou que vai dobrar o valor máximo de suas recompras de títulos públicos de prazo longo, elevando o limite de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões por operação até novembro.
A medida surpreendeu os mercados e pressionou tanto os rendimentos dos Treasurys quanto o dólar.
Quando recompra títulos de longo prazo, o Tesouro norte-americano injeta liquidez no mercado e ajuda a reduzir os rendimentos desses papéis.
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Com os juros dos títulos soberanos menos atrativos, parte do capital global tende a buscar alternativas de investimento, diminuindo a demanda pela moeda norte-americana.
Ao mesmo tempo, a decisão reacendeu questionamentos sobre o crescimento da dívida pública dos EUA e sobre os esforços do governo para administrar o custo de financiamento dessa dívida. Para parte dos investidores, isso pode enfraquecer a confiança nos ativos ao longo do tempo.
Ouro na montanha-russa
O anúncio da recompra veio logo no início do mês. No auge do movimento, o ouro chegou a ser negociado a US$ 4.755 por onça troy — ou seja, US$ 4,75 mil por 31,10 gramas do metal.
Apesar de ter encerrado agosto em torno de US$ 4,5 mil por onça, o ouro registrou seu melhor desempenho mensal desde janeiro.
A perda de fôlego ocorreu à medida que aumentaram as apostas de novos aumentos de juros nos Estados Unidos. A inflação segue pressionando a economia norte-americana, e o mercado já atribui 57% de probabilidade a uma alta dos juros em setembro, segundo a ferramenta FedWatch, da CME.
Essas expectativas costumam pesar sobre o ouro porque o metal não paga juros. Quando os investidores projetam taxas mais elevadas, ativos que pagam rendimento, como os títulos do governo norte-americano, tornam-se relativamente mais atraentes.
Além disso, juros maiores tendem a fortalecer o dólar, o que pode reverter parte do efeito provocado pela intervenção do Tesouro.
- LEIA TAMBÉM: É hora de comprar ouro? Veja se dois bancões gringos acreditam que é hora de correr para a segurança
Em relação ao real, a moeda norte-americana fechou no positivo em agosto: alta de 2,16%, fechando a R$ 5,18. Esse movimento ganhou mais força na segunda metade do mês, quando a tese de aumento dos juros nos EUA se fortaleceu.
No ano, o real ainda está na vantagem. A desvalorização acumulada do dólar até agosto é de -5,63%.
Bitcoin surpreende
No caso do bitcoin, a valorização foi ainda mais expressiva. A criptomoeda saltou de US$ 64 mil para US$ 78 mil ao longo de agosto, uma valorização de 26% — algo que não era visto desde 2024.
O principal combustível veio dos ETFs de bitcoin à vista negociados nos mercados norte-americanos. Após o anúncio da intervenção do Tesouro, esses fundos registraram forte entrada de recursos. Dados do Mercado Bitcoin mostram que o fluxo líquido somou quase US$ 3 bilhões em agosto.
Ainda assim, a perspectiva de juros mais altos nos Estados Unidos pode dificultar a sustentação desses preços.
Lacie Zhang, analista de pesquisa da Bitget Wallet, avalia que o bitcoin deve oscilar entre US$ 72 mil e US$ 82 mil em setembro, refletindo justamente as expectativas de alta dos juros e dos rendimentos dos Treasurys.
Na avaliação da analista, apenas uma desaceleração mais consistente da inflação acompanhada por um dólar mais fraco teria potencial para impulsionar a criptomoeda para patamares mais elevados.
Confira o ranking de investimentos em agosto
| Investimento | Rentabilidade no mês | Rentabilidade no ano |
|---|---|---|
| Bitcoin | 25,29% | -15,47% |
| Ouro (GOLD11) | 12,27% | -3,19% |
| Tesouro IPCA+ 2040 | 3,67% | 2,75% |
| Tesouro IPCA+ 2050 | 3,43% | -0,72% |
| Tesouro IPCA+ c/ JS 2060 | 2,67% | 4,61% |
| Tesouro IPCA+ c/ JS 2037*** | 2,26% | - |
| Tesouro IPCA+ c/ JS 2045 | 2,20% | 4,25% |
| Dólar à vista | 2,16% | -5,63% |
| Dólar PTAX | 2,07% | -7,73% |
| Tesouro Prefixado c/ JS 2037*** | 1,90% | - |
| Tesouro IPCA+ 2032*** | 1,60% | - |
| IDA - Geral* | 1,23% | 6,98% |
| CDI* | 1,09% | 9,33% |
| Tesouro Selic 2031 | 1,06% | 9,66% |
| Tesouro Prefixado 2032 | 1,00% | 5,07% |
| Tesouro Prefixado 2029 | 0,99% | 6,83% |
| Poupança** | 0,67% | 5,47% |
| Ibovespa | -0,33% | 10,11% |
| IFIX | -1,46% | -0,33% |
(**) Poupança com aniversário no dia 28.
(-) Títulos públicos começaram a negociar em fevereiro de 2026 e não tem histórico de um ano.
Todos os desempenhos estão cotados em real. A rentabilidade dos títulos públicos considera o preço de compra na manhã da data inicial e o preço de venda na manhã da data final, conforme cálculo do Tesouro Direto.
Fontes: Banco Central, Anbima, Tesouro Direto, Broadcast e Coinbase Inc..
A fraqueza do Ibovespa
A proximidade das eleições presidenciais e as incertezas em relação à economia dos Estados Unidos mexeram com as negociações na bolsa em agosto.
O Ibovespa registrou 11 fechamentos negativos consecutivos ao longo de agosto e chegou à marca de 165 mil pontos no pior momento do mês. Isso em meio à saída massiva dos estrangeiros da bolsa.
Na parcial divulgada pela XP, até 18 de agosto, os estrangeiros já tinham tirado R$ 20 bilhões da B3. A maior saída aconteceu no dia 11, quando R$ 4,7 bilhões deixaram a bolsa em uma única sessão.
Agosto também marcou o rebaixamento do Brasil nas recomendações dos bancos internacionais. JP Morgan e Morgan Stanley classificaram as ações brasileiras como neutras, ante a recomendação de compra anteriormente.
“Com as eleições de outubro provavelmente aumentando a volatilidade, e as ações e o real ainda oscilando dentro de uma faixa relativamente estreita, preferimos ficar à margem a pagar para assumir incerteza", escreveu o banco.
Nesta segunda-feira, o Ibovespa fechou aos 177.418,78 pontos, registrando uma queda de 0,33% no mês. Foi um dos piores desempenhos no ranking de investimentos do Seu Dinheiro. No ano, as ações brasileiras ainda estão no positivo: 10% de ganhos.
Tesouro Direto se recupera
A performance dos títulos públicos melhorou em agosto. Dados positivos de inflação aumentaram a percepção dos agentes financeiros de que o Banco Central deve cortar os juros em setembro.
Até então, economistas e gestores estavam divididos entre a possibilidade de um novo corte ou a manutenção da taxa Selic nos atuais 14% ao ano.
Com a prévia da inflação registrando o primeiro dado negativo em um ano e os dados da economia mostrando uma desaceleração mais nítida, as projeções mudaram para quase um consenso de corte em setembro, de 0,25 ponto percentual, e alguns bancos indicando mais um corte em novembro.
Diante das projeções de juros menores no futuro, os títulos públicos responderam a esse alívio.
Os papéis do Tesouro IPCA+ foram os que mais responderam, por causa a inflação. O Tesouro IPCA+ 2040 e o Tesouro IPCA+ 2050 registraram ganhos de 3,7% e 3,5%, respectivamente. Os títulos longos com juros semestrais também mostraram valorização, de pouco mais de 2% cada.
- Vale lembrar que todas essas oscilações acontecem na marcação de preço e taxa dos títulos do Tesouro Direto. Para o investidor que levar os papéis até o vencimento, a taxa contratada na compra será paga integralmente.
Maiores altas do Ibovespa em agosto
| Ticker | Empresa | Retorno no mês | Retorno no ano |
|---|---|---|---|
| SLCE3 | SLC Agrícola | 19,66% | 12,19% |
| FLRY3 | Fleury | 16,46% | 33,06% |
| MRVE3 | MRV | 16,24% | -29,27% |
| TOTS3 | Totvs | 14,26% | -14,87% |
| CYRE3 | Cyrela | 13,52% | -2,57% |
Maiores quedas do Ibovespa em agosto
| Ticker | Empresa | Retorno no mês | Retorno no ano |
|---|---|---|---|
| HAPV3 | Hapvida | -41,22% | -54,99% |
| LREN3 | Lojas Renner | -20,00% | -17,01% |
| POMO4 | Marcopolo | -14,73% | -23,34% |
| SMFT3 | Smartfit | -14,21% | -27,03% |
| CSMG3 | Copasa | -13,90% | 27,42% |
- A tabela e o texto desta matéria foram corrigidos em 2 de setembro para atualizar o retorno dos títulos públicos conforme informações do Tesouro Direto.
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