Kinea alerta para ‘pesadelo’ fiscal no Brasil e revela onde está buscando proteção antes das eleições
Gestora mantém exposição reduzida ao risco brasileiro até as eleições e aposta em ativos no exterior para atravessar o período

O Brasil entra no último trecho antes das eleições com um velho fantasma à espreita nos mercados: a conta fiscal que foi sendo empurrada para depois. E, para a Kinea Investimentos, o problema é que algumas dessas contas não precisam de um novo susto para voltar a assombrar o investidor — basta o tempo passar.
É daí que vem o título da nova carta mensal da gestora: “A Hora do Pesadelo”, referência direta ao clássico de Wes Craven em que Fred Krueger persegue suas vítimas justamente quando elas dormem.
“Nunca durma de novo”, diz a frase que abre a carta. A Kinea usa a história como uma alegoria para problemas que podem parecer adormecidos, mas continuam acumulando consequências.
No Brasil, o principal deles é a dinâmica da dívida pública. Nos Estados Unidos, é a pressão sobre os juros longos. No mercado de commodities, são os efeitos de conflitos geopolíticos e riscos climáticos que podem reaparecer nos preços.
Em meio a tantas incertezas, a resposta da gestora não é tentar adivinhar quando o próximo susto virá, mas manter a carteira preparada para ele.
Como a Kinea se posiciona com 'Fred Kruger' à espreita?
Por isso, a Kinea segue cautelosa com o Brasil e reduziu a exposição ao dólar, enquanto mantém uma visão construtiva para a bolsa norte-americana — especialmente para a infraestrutura ligada à inteligência artificial — e para alguns mercados emergentes.
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As commodities, por sua vez, entram como proteção diante de riscos que podem mudar rapidamente de direção.
No Brasil, a estratégia é permanecer mais neutra ao risco eleitoral até que o cenário fique mais claro, com algumas exceções: utilities, empresas ligadas ao Minha Casa Minha Vida e Embraer (EMBR3) continuam no portfólio.
A lógica por trás da cautela é que o problema brasileiro não está apenas no tamanho da dívida, mas no mecanismo que faz o endividamento continuar avançando enquanto decisões difíceis são adiadas.
"Como Krueger, a dívida age enquanto o país dorme. Não precisa de novas decisões para crescer; basta o tempo passar. Para mantê-la sob controle, pagamos um dos juros reais mais altos do mundo. É a cafeína de Nancy: evita o colapso imediato, mas cobra um preço cada vez maior", afirma a Kinea.
E é essa conta do passado que a Kinea teme que volte a aparecer com mais força nos preços dos ativos ao longo de 2026.
Brasil: ninguém dorme em ano eleitoral
Na avaliação da Kinea, a temporada eleitoral começou com mais incerteza e ainda sem uma direção clara para os mercados.
A volatilidade aumentou e o investidor estrangeiro, sem a obrigação de acompanhar a novela até o fim, reduziu sua exposição ao Brasil para eventualmente voltar mais tarde.
A gestora também avalia que a disputa nas eleições pode ser mais competitiva do que sugerem hoje os agregadores de pesquisas, especialmente devido à abstenção, que pode ganhar peso no dia da votação.
Isso, porém, não significa que a gestora esteja apostando em uma troca de presidente. A Kinea ainda considera Lula ligeiramente favorito por duas razões.
A combinação entre eleição e cenário fiscal também reduz a visibilidade para a política monetária.
A inflação corrente e os dados de atividade têm surpreendido para baixo, o que, em condições normais, permitiria ao Banco Central continuar reduzindo os juros. Mas o câmbio mais depreciado e a incerteza sobre o período pós-eleição trabalham na direção contrária.
Por isso, a Kinea acredita que o Copom (Comitê de Política Monetária) deve interromper o ciclo de cortes. Não necessariamente por uma mudança no diagnóstico da inflação, mas para preservar margem de manobra até que fique mais claro qual será o orçamento que o país terá em janeiro.
Para 2027, a gestora espera um impulso fiscal menor, depois da forte expansão promovida neste ano eleitoral, e uma desaceleração da atividade mais intensa do que a projetada pelo mercado.
A sequência esperada é conhecida: a atividade perde força, a inflação cede e os juros voltam a cair.
O problema é que cortar juros pode aliviar o sintoma, mas não elimina a causa, destaca a gestora. Por isso, se o resultado primário continuar insuficiente, os juros necessários para financiar a dívida permanecem elevados e alimentam a própria dinâmica do endividamento.
"Enquanto essa dinâmica persistir, o endividamento continuará avançando, e o país seguirá pagando o custo de permanecer em alerta", diz a gestora.
É esse mecanismo que a Kinea quer ver interrompido — e que, na sua visão, torna a eleição deste ano tão importante para os ativos brasileiros.
EUA: o pesadelo fiscal muda de endereço
O problema fiscal, contudo, não é exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos, a trajetória da dívida pública também começa a aparecer com mais força nos mercados, principalmente na ponta longa da curva de juros.
Há ainda um segundo ingrediente: as tensões no Oriente Médio e seus efeitos sobre os preços de energia.
A inflação global voltou ao centro das atenções. A incerteza na região não desapareceu, apenas mudou de intensidade, enquanto petróleo e diesel continuam influenciando as curvas de juros.
Na economia norte-americana, a Kinea vê espaço para o Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) esperar antes de mexer novamente nos juros.
Na ponta longa, porém, a história é diferente. A economia dos EUA segue relativamente robusta, puxada pelo investimento em inteligência artificial. O consumidor permanece em condição razoável, mas é coadjuvante nesse ciclo.
Essa composição importa porque um crescimento liderado por investimento em capital exige muita infraestrutura, mas relativamente pouca mão de obra. Isso ajuda a explicar por que os salários não estão pressionando tanto a inflação mesmo com o desemprego baixo e relatos de escassez de trabalhadores.
Uma parcela crescente dos investimentos das grandes empresas de tecnologia vem sendo financiada por emissão de dívida corporativa das próprias hyperscalers, justamente em um momento em que o Tesouro norte-americano já precisa colocar grandes volumes de títulos no mercado.
Na prática, as empresas de tecnologia passaram a disputar espaço com o governo norte-americano pela poupança disponível.
O efeito aparece sobretudo na parte longa da curva. Com o Fed relativamente parado agora, os juros curtos ficam mais ancorados, enquanto a oferta crescente de títulos públicos e privados pressiona as taxas de 10 e 30 anos.
Dólar perde espaço, emergentes ganham
Diante desse cenário, a Kinea reduziu suas posições compradas em dólar. Com o Fed sem viés de alta e o diferencial de juros deixando de trabalhar tão claramente a favor da moeda norte-americana, parte do suporte que sustentava o dólar perdeu força, avalia a gestora.
Ainda assim, a posição não foi zerada. A gestora segue com uma exposição menor à divisa como proteção, principalmente porque a guerra pode afetar de forma assimétrica crescimento e juros reais na Europa.
Ao mesmo tempo, o cenário continua favorável a posições aplicadas em países emergentes com inflação sob controle.
Kinea vê oportunidades em inteligência artificial
Se o Brasil é um dos principais motivos para a Kinea permanecer na defensiva, a bolsa norte-americana representa uma das principais fontes de oportunidade.
Os resultados das grandes empresas de tecnologia trouxeram uma informação importante para a tese de inteligência artificial da Kinea.
As receitas relacionadas à IA aceleraram e aliviaram uma das principais preocupações do mercado: se os investimentos bilionários das hyperscalers estavam, de fato, começando a gerar retorno.
Os preços das GPUs da Nvidia continuam elevados, assim como os custos em diferentes pontos da cadeia. Para a gestora, esse é um indicador objetivo de que a oferta de capacidade computacional ainda não acompanhou a demanda.
Por isso, memória continua sendo a área preferida da Kinea em semicondutores. Mas a gestora também gosta dos fabricantes de equipamentos para semicondutores, já que a solução para o gargalo depende das máquinas necessárias para ampliar a capacidade de produção.
A tese é que laboratórios privados, como Anthropic e OpenAI, além dos modelos de código aberto, devem crescer múltiplas vezes em relação ao tamanho atual. A infraestrutura disponível, porém, ainda não comporta toda essa expansão.
Por isso, a Kinea mantém uma visão positiva para infraestrutura de IA de forma ampla.
Brasil: carrego enquanto a eleição não se decide
A postura é bem diferente no mercado brasileiro. A Kinea mantém exposição reduzida e prefere empresas com carrego, geração de caixa e maior previsibilidade de resultados em um ambiente ainda marcado por juros altos.
O setor de utilidades básicas (utilities), que inclui serviços como saneamento e energia, continuam atraentes pelos dividendos e pela geração de caixa.
A gestora também mantém posições ligadas ao Minha Casa Minha Vida (MCMV), menos dependentes do ciclo político de curto prazo.
Outra exceção é a Embraer (EMBR3). A carteira de pedidos firmes (backlog) recorde e o forte ritmo de vendas dão visibilidade ao crescimento nos próximos anos, enquanto o ganho de escala deve contribuir para uma melhora estrutural das margens.
A receita majoritariamente dolarizada também reduz a dependência do cenário macroeconômico brasileiro.
Nas demais posições, a orientação da Kinea é manter uma exposição neutra ao país durante o período eleitoral, evitando riscos direcionais até que o cenário comece a se definir em outubro.
Commodities entram na carteira como proteção
As commodities completam a estratégia. No petróleo, a Kinea não assume uma posição forte. O ativo funciona principalmente como proteção contra os riscos associados à guerra.
No ouro, a Kinea voltou a ter uma visão positiva. A tese é apoiada pela melhora do posicionamento, pela retomada das compras dos bancos centrais e pelo retorno dos fluxos para ETFs (fundos de índice).
Nos grãos, a gestora mantém uma visão positiva por dois motivos: a continuidade da guerra na Ucrânia, que afeta a oferta de milho e trigo, e a chegada do El Niño no segundo semestre, que aumenta o risco de perdas de produtividade.
Com os balanços já apertados, qualquer frustração de oferta pode pressionar os preços.
No boi gordo americano, a posição continua comprada. O rebanho está em níveis historicamente baixos e sua recomposição leva anos, mesmo com preços mais altos.
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