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FRED KRUEGER ESTÁ DE VOLTA?

Kinea alerta para ‘pesadelo’ fiscal no Brasil e revela onde está buscando proteção antes das eleições

Gestora mantém exposição reduzida ao risco brasileiro até as eleições e aposta em ativos no exterior para atravessar o período

Gráfico de ações e bandeira do Brasil para representar a bolsa brasileira
Bolsa Brasileira. - Imagem: iStock/Ca-ssis

O Brasil entra no último trecho antes das eleições com um velho fantasma à espreita nos mercados: a conta fiscal que foi sendo empurrada para depois. E, para a Kinea Investimentos, o problema é que algumas dessas contas não precisam de um novo susto para voltar a assombrar o investidor — basta o tempo passar. 

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É daí que vem o título da nova carta mensal da gestora: “A Hora do Pesadelo”, referência direta ao clássico de Wes Craven em que Fred Krueger persegue suas vítimas justamente quando elas dormem. 

“Nunca durma de novo”, diz a frase que abre a carta. A Kinea usa a história como uma alegoria para problemas que podem parecer adormecidos, mas continuam acumulando consequências.  

No Brasil, o principal deles é a dinâmica da dívida pública. Nos Estados Unidos, é a pressão sobre os juros longos. No mercado de commodities, são os efeitos de conflitos geopolíticos e riscos climáticos que podem reaparecer nos preços. 

Em meio a tantas incertezas, a resposta da gestora não é tentar adivinhar quando o próximo susto virá, mas manter a carteira preparada para ele. 

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Como a Kinea se posiciona com 'Fred Kruger' à espreita? 

Por isso, a Kinea segue cautelosa com o Brasil e reduziu a exposição ao dólar, enquanto mantém uma visão construtiva para a bolsa norte-americana — especialmente para a infraestrutura ligada à inteligência artificial — e para alguns mercados emergentes.  

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As commodities, por sua vez, entram como proteção diante de riscos que podem mudar rapidamente de direção. 

No Brasil, a estratégia é permanecer mais neutra ao risco eleitoral até que o cenário fique mais claro, com algumas exceções: utilities, empresas ligadas ao Minha Casa Minha Vida e Embraer (EMBR3) continuam no portfólio. 

A lógica por trás da cautela é que o problema brasileiro não está apenas no tamanho da dívida, mas no mecanismo que faz o endividamento continuar avançando enquanto decisões difíceis são adiadas.  

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"Como Krueger, a dívida age enquanto o país dorme. Não precisa de novas decisões para crescer; basta o tempo passar. Para mantê-la sob controle, pagamos um dos juros reais mais altos do mundo. É a cafeína de Nancy: evita o colapso imediato, mas cobra um preço cada vez maior", afirma a Kinea. 

E é essa conta do passado que a Kinea teme que volte a aparecer com mais força nos preços dos ativos ao longo de 2026. 

Brasil: ninguém dorme em ano eleitoral 

Na avaliação da Kinea, a temporada eleitoral começou com mais incerteza e ainda sem uma direção clara para os mercados.  

A volatilidade aumentou e o investidor estrangeiro, sem a obrigação de acompanhar a novela até o fim, reduziu sua exposição ao Brasil para eventualmente voltar mais tarde.  

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A gestora também avalia que a disputa nas eleições pode ser mais competitiva do que sugerem hoje os agregadores de pesquisas, especialmente devido à abstenção, que pode ganhar peso no dia da votação. 

Isso, porém, não significa que a gestora esteja apostando em uma troca de presidente. A Kinea ainda considera Lula ligeiramente favorito por duas razões. 

A combinação entre eleição e cenário fiscal também reduz a visibilidade para a política monetária. 

A inflação corrente e os dados de atividade têm surpreendido para baixo, o que, em condições normais, permitiria ao Banco Central continuar reduzindo os juros. Mas o câmbio mais depreciado e a incerteza sobre o período pós-eleição trabalham na direção contrária. 

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Por isso, a Kinea acredita que o Copom (Comitê de Política Monetária) deve interromper o ciclo de cortes. Não necessariamente por uma mudança no diagnóstico da inflação, mas para preservar margem de manobra até que fique mais claro qual será o orçamento que o país terá em janeiro. 

Para 2027, a gestora espera um impulso fiscal menor, depois da forte expansão promovida neste ano eleitoral, e uma desaceleração da atividade mais intensa do que a projetada pelo mercado. 

A sequência esperada é conhecida: a atividade perde força, a inflação cede e os juros voltam a cair. 

O problema é que cortar juros pode aliviar o sintoma, mas não elimina a causa, destaca a gestora. Por isso, se o resultado primário continuar insuficiente, os juros necessários para financiar a dívida permanecem elevados e alimentam a própria dinâmica do endividamento. 

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"Enquanto essa dinâmica persistir, o endividamento continuará avançando, e o país seguirá pagando o custo de permanecer em alerta", diz a gestora.  

É esse mecanismo que a Kinea quer ver interrompido — e que, na sua visão, torna a eleição deste ano tão importante para os ativos brasileiros. 

EUA: o pesadelo fiscal muda de endereço 

O problema fiscal, contudo, não é exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos, a trajetória da dívida pública também começa a aparecer com mais força nos mercados, principalmente na ponta longa da curva de juros. 

Há ainda um segundo ingrediente: as tensões no Oriente Médio e seus efeitos sobre os preços de energia. 

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A inflação global voltou ao centro das atenções. A incerteza na região não desapareceu, apenas mudou de intensidade, enquanto petróleo e diesel continuam influenciando as curvas de juros. 

Na economia norte-americana, a Kinea vê espaço para o Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) esperar antes de mexer novamente nos juros. 

Na ponta longa, porém, a história é diferente. A economia dos EUA segue relativamente robusta, puxada pelo investimento em inteligência artificial. O consumidor permanece em condição razoável, mas é coadjuvante nesse ciclo. 

Essa composição importa porque um crescimento liderado por investimento em capital exige muita infraestrutura, mas relativamente pouca mão de obra. Isso ajuda a explicar por que os salários não estão pressionando tanto a inflação mesmo com o desemprego baixo e relatos de escassez de trabalhadores. 

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Uma parcela crescente dos investimentos das grandes empresas de tecnologia vem sendo financiada por emissão de dívida corporativa das próprias hyperscalers, justamente em um momento em que o Tesouro norte-americano já precisa colocar grandes volumes de títulos no mercado. 

Na prática, as empresas de tecnologia passaram a disputar espaço com o governo norte-americano pela poupança disponível. 

O efeito aparece sobretudo na parte longa da curva. Com o Fed relativamente parado agora, os juros curtos ficam mais ancorados, enquanto a oferta crescente de títulos públicos e privados pressiona as taxas de 10 e 30 anos. 

Dólar perde espaço, emergentes ganham 

Diante desse cenário, a Kinea reduziu suas posições compradas em dólar. Com o Fed sem viés de alta e o diferencial de juros deixando de trabalhar tão claramente a favor da moeda norte-americana, parte do suporte que sustentava o dólar perdeu força, avalia a gestora. 

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Ainda assim, a posição não foi zerada. A gestora segue com uma exposição menor à divisa como proteção, principalmente porque a guerra pode afetar de forma assimétrica crescimento e juros reais na Europa. 

Ao mesmo tempo, o cenário continua favorável a posições aplicadas em países emergentes com inflação sob controle. 

Kinea vê oportunidades em inteligência artificial 

Se o Brasil é um dos principais motivos para a Kinea permanecer na defensiva, a bolsa norte-americana representa uma das principais fontes de oportunidade. 

Os resultados das grandes empresas de tecnologia trouxeram uma informação importante para a tese de inteligência artificial da Kinea. 

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As receitas relacionadas à IA aceleraram e aliviaram uma das principais preocupações do mercado: se os investimentos bilionários das hyperscalers estavam, de fato, começando a gerar retorno. 

Os preços das GPUs da Nvidia continuam elevados, assim como os custos em diferentes pontos da cadeia. Para a gestora, esse é um indicador objetivo de que a oferta de capacidade computacional ainda não acompanhou a demanda. 

Por isso, memória continua sendo a área preferida da Kinea em semicondutores. Mas a gestora também gosta dos fabricantes de equipamentos para semicondutores, já que a solução para o gargalo depende das máquinas necessárias para ampliar a capacidade de produção. 

A tese é que laboratórios privados, como Anthropic e OpenAI, além dos modelos de código aberto, devem crescer múltiplas vezes em relação ao tamanho atual. A infraestrutura disponível, porém, ainda não comporta toda essa expansão. 

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Por isso, a Kinea mantém uma visão positiva para infraestrutura de IA de forma ampla

Brasil: carrego enquanto a eleição não se decide 

A postura é bem diferente no mercado brasileiro. A Kinea mantém exposição reduzida e prefere empresas com carrego, geração de caixa e maior previsibilidade de resultados em um ambiente ainda marcado por juros altos. 

O setor de utilidades básicas (utilities), que inclui serviços como saneamento e energia, continuam atraentes pelos dividendos e pela geração de caixa.  

A gestora também mantém posições ligadas ao Minha Casa Minha Vida (MCMV), menos dependentes do ciclo político de curto prazo. 

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Outra exceção é a Embraer (EMBR3). A carteira de pedidos firmes (backlog) recorde e o forte ritmo de vendas dão visibilidade ao crescimento nos próximos anos, enquanto o ganho de escala deve contribuir para uma melhora estrutural das margens. 

A receita majoritariamente dolarizada também reduz a dependência do cenário macroeconômico brasileiro. 

Nas demais posições, a orientação da Kinea é manter uma exposição neutra ao país durante o período eleitoral, evitando riscos direcionais até que o cenário comece a se definir em outubro. 

Commodities entram na carteira como proteção 

As commodities completam a estratégia. No petróleo, a Kinea não assume uma posição forte. O ativo funciona principalmente como proteção contra os riscos associados à guerra. 

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No ouro, a Kinea voltou a ter uma visão positiva. A tese é apoiada pela melhora do posicionamento, pela retomada das compras dos bancos centrais e pelo retorno dos fluxos para ETFs (fundos de índice). 

Nos grãos, a gestora mantém uma visão positiva por dois motivos: a continuidade da guerra na Ucrânia, que afeta a oferta de milho e trigo, e a chegada do El Niño no segundo semestre, que aumenta o risco de perdas de produtividade. 

Com os balanços já apertados, qualquer frustração de oferta pode pressionar os preços. 

No boi gordo americano, a posição continua comprada. O rebanho está em níveis historicamente baixos e sua recomposição leva anos, mesmo com preços mais altos. 

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