Fenômeno das canetas emagrecedoras: o “clique” de R$ 50 bilhões que está chacoalhando a bolsa brasileira
Itaú BBA fez uma lista de ações que ganham e que perdem com a popularização do medicamento; confira o ranking

O que começou como uma tendência restrita à alta renda está se transformando em um choque de ordem estrutural para a bolsa brasileira. As canetas emagrecedoras — os medicamentos da classe GLP-1 — deixaram de ser apenas um fenômeno de busca no Google para se tornarem uma variável crítica nos modelos de avaliação de analistas e gestores.
O tamanho do salto que vem pela frente não é desprezível. Segundo um relatório do Itaú BBA, o mercado para esses fármacos no Brasil tem potencial para quintuplicar de tamanho até o fim desta década. A projeção é que o setor salte de um faturamento de R$ 10 bilhões em 2025 para R$ 50 bilhões em 2030.
O combustível para essa expansão exponencial combina dois fatores principais: a chegada agressiva de versões genéricas ao mercado e uma mudança profunda nos hábitos de consumo da população.
O efeito dominó promete ser amplo: se, por um lado, o varejo farmacêutico esfrega as mãos com o aumento do fluxo e do tíquete médio, por outro, a indústria de alimentos começa a recalcular a rota diante de consumidores que, sob o efeito da medicação, estão mudando o que — e quanto — colocam no carrinho de compras.
Para o investidor, a mensagem é clara: não se trata mais apenas de uma questão de saúde pública, mas de uma redistribuição de valor entre os setores da B3.
Farmácias lideram ganhos
O banco destaca que, hoje, a combinação de oferta restrita e preços elevados tem favorecido principalmente as grandes redes de farmácias, que concentram a maior parte das vendas e abocanham uma fatia desse crescimento.
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“O principal benefício está na captura de um mercado que cresce a taxas elevadas. Trata-se de um produto com ticket médio bastante alto”, diz o BBA.
Empresas como Pague Menos, Panvel e Raia Drogasil têm sido as principais contempladas.
Isso porque, segundo o relatório, essas companhias detêm, em média, um market share (participação de mercado) de GLP-1 cerca de duas vezes superior à sua participação no varejo farmacêutico como um todo.
“Esse é um segmento que vem aumentando, e, até o momento, quem tem capturado esse crescimento de forma mais consistente são as grandes redes”, afirma o banco.
A valorização na bolsa
Em 12 meses, as ações de Pague Menos (PGMN3) sobem 104% na bolsa, enquanto Panvel (PNVL3) avança 70% e RD (RADL3), 24%.
Mesmo com a forte valorização recente, o Itaú BBA avalia que o movimento pode estar apenas no começo.
“O GLP-1 ainda está em estágio inicial no Brasil. Hoje, o principal limitador de crescimento é a restrição de oferta, com a demanda superando a disponibilidade de produtos.”
A chegada dos genéricos
O banco aponta que a entrada de genéricos, após a queda de patente da semaglutida — princípio ativo de medicamentos como o Ozempic — tende a ampliar o público consumidor.
“Com os genéricos, esperamos que o gargalo de oferta seja gradualmente endereçado e que a potencial diminuição de preços amplie o mercado potencial”, afirma o BBA em relatório.
“Avaliamos que a chegada dos genéricos tende a destravar valor para o setor e para as farmácias sob nossa cobertura, sustentando uma boa performance das ações”, acrescenta.
Efeito nos hábitos de consumo ainda é incipiente
Embora com avanço acelerado, os impactos indiretos do GLP-1 em outros setores da economia ainda são limitados no Brasil, de acordo com o banco.
Atualmente, cerca de 1,5 milhão a 2 milhões de pessoas utilizam canetas emagrecedoras no país — um número pequeno para gerar efeitos relevantes nos supermercados, por exemplo.
“Esse é um risco, no entanto, a ser monitorado no médio e longo prazo. À medida que o tratamento se torne mais acessível e alcance um público maior, pode haver uma mudança estrutural nos padrões de consumo”, diz o BBA.
Nos Estados Unidos, os sinais já são mais claros: usuários desses tratamentos chegam a reduzir em até 40% a ingestão calórica em algumas categorias.
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As mais expostas na bolsa
Nesse cenário, o BBA aponta que empresas brasileiras como Ambev (ABEV3), M. Dias Branco (MDIA3) e Camil (CAML3) aparecem entre as mais expostas a possíveis efeitos negativos no futuro.
Isso porque seus portfólios são concentrados em alimentos que pessoas que usam canetas emagrecedoras normalmente reduzem, como:
- Bebidas alcoólicas;
- Massas e biscoitos;
- Arroz;
- Açúcar.
Na outra ponta, o setor de proteínas surge como potencial beneficiado, dado que o uso desses medicamentos pode levar à perda de massa magra, incentivando o consumo de alimentos proteicos — uma tendência já observada globalmente.
Bolsa e a nova avenida de crescimento
Do lado da saúde, a expectativa é de que empresas como Hypera Pharma (HYPE3) entrem nesse mercado por meio dos genéricos. Mas o ganho não deve ser imediato.
O BBA estima que uma contribuição mais relevante para receitas deve aparecer apenas a partir de 2026 ou 2027, considerando etapas regulatórias e a necessidade de escala.
No curto prazo, porém, a rentabilidade pode até sofrer pressão, diante dos investimentos (capex) necessários em força de vendas, visitas médicas e marketing.
“Os principais desafios são a concorrência intensa entre vários laboratórios, o tempo de aprovação regulatória e a necessidade de investir em divulgação médica para estimular prescrições”, diz o banco.
Ainda assim, o relatório aponta que o lançamento de um GLP-1 próprio em 2026 tem potencial de destravar valor para a Hypera no médio prazo, pois abre uma nova avenida de crescimento em um mercado grande e em expansão.
“Versões mais baratas podem multiplicar o número de usuários ao longo do tempo, embora isso ocorra de forma gradual, acompanhando a maior oferta e a adaptação dos preços.”
*Com informações do Money Times
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