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O Ibovespa acumula queda de 5,5% em agosto na esteira da maior saída semanal dos gringos desde 2008; analistas explicam por que o estrangeiro está cauteloso e se há oportunidades no Brasil

Imagine que você é dono de um apartamento para alugar. Durante anos, um inquilino generoso pagava em dia, elogiava o imóvel e ainda sugeria reformas para valorizá-lo. De repente, ele começa a atrasar o aluguel, reclama do bairro e ameaça ir embora. Você fica sem entender: o apartamento continua o mesmo — o que mudou foi o humor do inquilino. É mais ou menos isso que está acontecendo na bolsa brasileira.
O inquilino é o investidor estrangeiro, que está de malas prontas. Entre os dias 10 e 14 de agosto, ele retirou R$ 12,6 bilhões em ações listadas na B3 — a maior saída registrada em uma única semana desde 2008, início da série histórica de dados.
Se você tem ações, fundos de ações ou está pensando em investir em renda variável, entender esse movimento ajuda a decidir se é hora de correr também ou de aproveitar os preços mais baixos.
Os números ajudam a dimensionar a virada. Em abril deste ano, os aportes estrangeiros na bolsa brasileira bateram o pico de R$ 56,4 bilhões.
De lá para cá, os não residentes sacaram R$ 38,2 bilhões. Só em agosto, em apenas dez sessões, a saída já soma R$ 18,1 bilhões — praticamente zerando o saldo positivo do ano, que caiu para R$ 18,2 bilhões.
O resultado prático: o Ibovespa acumula queda de 5,5% no mês, tendo recuado 0,27% na última sessão, aos 166.335 pontos.
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Não existe um único vilão nessa história — é uma combinação de fatores que, juntos, deixaram o investidor de fora do país mais cauteloso.
Matheus Spiess, analista da Empiricus Research, resume o cenário. “A cautela reflete uma combinação de incerteza eleitoral, dúvidas fiscais, juros reais elevados em diversas economias e maior competição global por capital, em um ambiente avesso a risco e ainda marcado pelas tensões no Oriente Médio.”
Traduzindo para o dia a dia, são pelo menos cinco motivos entrelaçados. O primeiro é a proximidade das eleições, que deixa o investidor de fora inseguro sobre os rumos do país. O segundo são as dúvidas fiscais, ligadas às preocupações com as contas públicas brasileiras.
O terceiro é o patamar de juros reais elevados lá fora — se outros países estão pagando bem para o dinheiro ficar por lá, por que arriscar no Brasil? O quarto é a concorrência por capital, com o mundo todo está disputando o mesmo dinheiro estrangeiro.
E o quinto é a tensão geopolítica no Oriente Médio, que deixa o investidor global mais avesso a risco de forma geral.
Gabriel Mollo, analista da Daycoval Corretora, reforça que o movimento não deu trégua nem no fim de semana: os investidores não residentes retiraram mais R$ 2,5 bilhões da B3 na última sexta-feira (14), elevando a saída acumulada de agosto para os já citados R$ 18,1 bilhões.
“O cenário permanece desafiador para a bolsa no curto prazo. Além do fluxo estrangeiro negativo, o mercado precisa lidar com a combinação de juros longos elevados, incerteza fiscal e eleitoral e deterioração do ambiente externo”, afirma.
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Aqui está o detalhe que interessa a quem pensa em ações com olhar de longo prazo: mesmo fugindo, parte dos gestores estrangeiros continua enxergando valor no Brasil.
Segundo Spiess, eles destacam preços descontados, a baixa participação dos fundos locais na bolsa, a abundância de minerais críticos do país, o potencial energético e a posição relevante do Brasil nos mercados de petróleo e grãos.
A ressalva é que essa percepção positiva segue condicionada à necessidade de mais clareza sobre a trajetória da política fiscal a partir de 2027.
Mollo faz coro: investidores estrangeiros ouvidos durante a Conferência Anual do Santander no início da semana apontaram que os ativos brasileiros estão com valuations mais descontados — ainda que uma melhora estrutural dependa, principalmente, de mais responsabilidade fiscal.
“A forte correção dos ativos brasileiros começa a produzir avaliações de que alguns papéis já apresentam preços bastante descontados. A eventual melhora do ambiente externo e doméstico poderia favorecer uma recuperação, mas, neste momento, o fluxo vendedor ainda prevalece”, afirma.
Vale entender também o que está tirando a atenção do investidor global da bolsa brasileira.
Durante a 27ª Conferência Anual do Santander, realizada em São Paulo, a CIO do Santander Private Internacional, Michelle Chan, explicou que o investidor estrangeiro começou a diversificar portfólios para fora dos EUA, após anos concentrado em ativos norte-americanos, diante de um cenário de crescimento global mais sólido — a expectativa é de expansão de 2,1% neste ano, com os EUA crescendo cerca de 2% e a China entre 4,5% e 5%.
Ainda assim, o banco continua vendo os EUA como a principal oportunidade em ações. “Apesar do valuation ainda estar caro, acho que ainda tem espaço”, disse Chan durante o evento.
Fora dos EUA, o Santander enxerga oportunidades na Europa — sobretudo em setores financeiros e cíclicos — e na Ásia, com destaque para Coreia do Sul e Taiwan, vistos como formas mais baratas de se expor à narrativa de tecnologia norte-americana.
A correção recente da bolsa coreana, segundo Chan, seria uma oportunidade de compra, já que os fundamentos das empresas não mudaram, apesar da piora do posicionamento técnico.
Já na renda fixa, a busca por retorno tem levado investidores a mercados com juros mais elevados, em um momento de spreads apertados tanto em países desenvolvidos quanto emergentes.
E é aqui que o Brasil ainda entra no radar: a América Latina, incluindo o país, segue entre as regiões com taxas consideradas atrativas.
A saída recorde de estrangeiros não significa que a bolsa brasileira perdeu valor da noite para o dia — significa que, por ora, o inquilino internacional prefere pagar mais caro em outros endereços a lidar com a incerteza brasileira.
Para quem tem ações ou pensa em comprar, o recado dos analistas é de cautela no curto prazo, mas sem descartar as oportunidades: preços descontados existem, e parte do mercado já os enxerga como atrativos — desde que o país consiga dar sinais mais claros sobre o rumo fiscal.
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