Fabio Kanczuk vê chance de recessão nos EUA e aqui estão os três dados que o mercado está negligenciando com otimismo cego
Ex-diretor do Banco Central participou de conversa com jornalistas organizada pelo ASA para falar sobre impactos da macroeconomia no segundo semestre

Está em curso uma segunda onda de tarifas de importação impostas pelos EUA. Nos últimos dias, o presidente Donald Trump tem divulgado cartas em suas redes sociais, direcionadas a diferentes países — inclusive ao Brasil.
Desta vez, entretanto, as tarifas não vieram em uma leva só, anunciadas em uma cartolina. Estão sendo divulgadas aos poucos, de modo mais disperso, sendo chamadas de “acordos” pelo republicano.
Para o ex-diretor do Banco Central e atual diretor de macroeconomia do ASA, Fabio Kanczuk, esta nova versão é mais perigosa e está sendo mais negligenciada pelos agentes financeiros do que a anterior.
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A primeira onda de tarifas, no “Dia da Libertação”, em abril, teve uma reação drástica dos mercados. Investidores globais venderam ativos norte-americanos aos montes: dólares, Treasurys e ações.
Um movimento bem diferente dos últimos dias, em que as bolsas dos EUA renovaram recordes nominais e os títulos do Tesouro norte-americano não apresentaram nenhuma reação diferente da habitual.
“Ainda não deu para ver os impactos na economia dessas tarifas e isso faz com que o mercado fique tranquilo. Mas vai chegar”, disse Kanczuk em coletiva com jornalistas nesta terça-feira (15).
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Recessão nos EUA: convicção fora do consenso
Para Kanczuk, o primeiro erro dos agentes financeiros é subestimar a defasagem dos efeitos das tarifas de Trump na inflação norte-americana.
O economista acredita que o período de defasagem será maior por causa das idas e vindas do republicano. Kanczuk estima que em quatro meses a deterioração será mais perceptível.
“Eu acredito que serão impactos grandes e não entendo porque o mercado está desprezando essa possibilidade. Vejo a inflação subindo muito e a atividade econômica caindo bem”, disse na coletiva.
As projeções do ASA para os indicadores dos EUA são de inflação acelerando para 4% no acumulado de 12 meses e o Produto Interno Bruto (PIB) anualizado caindo para próximo de zero.
No caso da atividade econômica, a linha é tão tênue que Kanczuk se mostra em dúvida em torno da possibilidade de uma recessão.
“Eu brinco que a chance de recessão nos EUA é de 51%. Não é um número sério, mas acho mais provável uma recessão do que crescimento. E isso está fora do consenso”, disse.
Nesta terça, dados da inflação ao consumidor (CPI) nos EUA em junho vieram em linha com as expectativas, com avanço de 0,3% no mês, e taxa anual alcançando 2,7%. Se o cenário de Kanczuk se consolidar, implica em um aumento de preços de mais de 1% nos próximos meses.
Pessimismo do ASA
O ex-diretor do BC avalia que o pessimismo do ASA em relação à economia dos EUA se dá porque a casa está avaliando dados para além dos efeitos diretos das tarifas.
Um fator determinante que entrou na conta é o poder da incerteza.
A confiança deteriorada e a incerteza sobre o futuro faz com que empresários adiem decisões de investimento. E algo semelhante acontece com o consumidor, que deixa de gastar com itens considerados supérfluos para guardar dinheiro.
Nos próximos meses, no mesmo período em que a inflação deve apertar, o time do ASA também espera uma queda no consumo e menores investimentos pelo empresariado.
O terceiro tópico no radar de Kanczuk, mas fora do radar do mercado, são as deportações.
Anualmente, os EUA recebiam cerca de 4 milhões de imigrantes durante os anos de presidência de Joe Biden, um número que já estava caindo. Com a chegada de Trump, Kanczuk afirma que esperava um recuo maior, para algo na casa dos 400 mil.
Mas a realidade trouxe um fluxo negativo de imigrantes, com um volume de deportações bastante acima do esperado. A expectativa é de um saldo negativo de 200 mil no ano.
O impacto não deve se fazer sentir na atividade econômica, mas no mercado de trabalho.
“Estamos falando do número de pessoas no mercado de trabalho. A geração de empregos deve surpreender para baixo nos próximos meses, com números feios”, disse o diretor do ASA.
Um problema para o Fed
Diante de um mandato duplo de inflação em 2% e pelo emprego, o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) se verá em um dilema.
Kanczuk acredita que o mercado de trabalho falará mais alto e o Fed cortará juros em meados de outubro. Nada de grandioso, pequenos cortes de 25 pontos-base.
Atualmente, a taxa de juros nos EUA está na faixa entre 4,25% e 4,50% ao ano.
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