É por causa de 30 centavos? O plano da Amazon para substituir 600 mil funcionários por robôs
A gigante fundada por Jeff Bezos tem planos ambiciosos para o futuro do trabalho, automatizando as operações e reduzindo custos

Talvez você também tenha ouvido o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, falar que os empregos no país deveriam ficar para os norte-americanos. Ao que tudo indica, porém, não pareceu claro se ele falava de pessoas ou de robôs — pelo menos para a direção da Amazon.
A gigante fundada por Jeff Bezos tem planos ambiciosos para o futuro do trabalho: segundo reportagens do The Verge e do The New York Times, a empresa pretende substituir até centenas de milhares de funcionários por robôs nos próximos anos, automatizando as operações.
Na prática, a Amazon busca eliminar a necessidade de contratar novos trabalhadores para suprir a expansão das vendas — que devem dobrar no período — e reduzir custos logísticos.
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O plano é automatizar 75% de todas as operações da empresa. Essa automação permitirá à empresa evitar a contratação de mais de meio milhão de trabalhadores nos EUA.
Os documentos internos mostraram que a Amazon espera que seus robôs possam substituir mais de 600 mil empregos que teria que contratar nos EUA até 2033.
Só nos próximos dois anos, a companhia poderia deixar de criar 160 mil funções nos EUA que seriam necessárias até 2027.
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Essas medidas renderiam à Amazon uma economia de cerca de 30 centavos de dólar (R$ 1,62) em cada item que a empresa armazena e entrega aos clientes.
À primeira vista, parece contraintuitivo. Deixar de contratar para economizar menos de dois reais? Pode parecer pouco, mas considerando o volume diário de encomendas processadas, o impacto seria bilionário.
A expectativa é que os esforços de automação possam economizar US$ 12,6 bilhões para a empresa de 2025 a 2027.
A Amazon e a era dos robôs
Porém, a Amazon tenta evitar a repercussão negativa dessas ações. Nos bastidores, a companhia tem evitado o uso de termos como “automação” e “inteligência artificial”, substituindo-os por expressões como “tecnologia avançada” e “cobots” — robôs que trabalham em conjunto com humanos, segundo o NYT.
A estratégia busca suavizar a narrativa de que máquinas substituirão pessoas, reduzindo o desgaste de imagem diante da opinião pública e de governos preocupados com o emprego.
Mas a empresa negou que os executivos estivessem sendo instruídos a evitar o uso de certos termos, como vinha sendo noticiado na imprensa.
Ao The Verge, a porta-voz Kelly Nantel afirmou que os documentos vazados não refletem a política de contratação da Amazon, mas apenas a análise de uma equipe específica.
“Documentos internos muitas vezes oferecem um retrato incompleto e enganoso dos nossos planos, e esse é o caso aqui. Estamos contratando ativamente em nossas unidades e abrindo 250 mil vagas temporárias para a temporada de festas”, declarou.
Em comunicado divulgado nesta semana, a Amazon apresentou uma versão mais otimista de seu avanço tecnológico.
A empresa destacou o robô Blue Jay, descrito como “um par extra de mãos” capaz de movimentar até 75% dos itens armazenados, e o Projeto Eluna, um sistema de IA que atua como assistente virtual, ajudando a reduzir a carga de trabalho mental dos funcionários.

“O verdadeiro destaque não é sobre robôs, mas sobre pessoas — e o futuro do trabalho que estamos construindo juntos”, disse Tye Brady, diretor de tecnologia da divisão Amazon Robotics.
Menos funcionários, mais eficiência
Apesar do discurso de parceria entre humanos e máquinas, o próprio CEO Andy Jassy admitiu, em carta aos funcionários em junho, que a automação deve reduzir parte da força de trabalho corporativa nos próximos anos.
“Precisaremos de menos pessoas realizando algumas tarefas que são executadas hoje, e mais pessoas realizando outros tipos de trabalho”, escreveu.
“É difícil saber exatamente onde isso se refletirá ao longo do tempo, mas, nos próximos anos, esperamos que isso reduza nossa força de trabalho corporativa total, à medida que obtivermos ganhos de eficiência com o uso extensivo da IA em toda a empresa”, acrescentou o executivo, à época.
A empresa defende que, ao longo da última década, nenhuma companhia criou mais empregos nos EUA do que a Amazon, mas reconhece que os ganhos de eficiência obtidos com a inteligência artificial devem alterar a estrutura de trabalho no grupo.
Um choque com os planos de Trump?
Os planos da Amazon também vão na contramão do discurso do presidente Donald Trump, que tenta reforçar a geração de empregos no país.
Há meses, o republicano tem pressionado o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), Jerome Powell, a cortar juros, alegando que os custos elevados de crédito travam contratações e desestimulam a indústria.
O economista Daron Acemoglu, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2024, alertou ao New York Times que a mudança liderada pela Amazon pode desencadear um movimento mais amplo de automação no setor privado.
Para ele, assim que a Amazon encontrar uma forma de automatizar as operações que seja lucrativa, isso se espalhará para outras empresas.
“Um dos maiores empregadores dos Estados Unidos se tornará um destruidor líquido de empregos, não um criador líquido de empregos”, disse Acemoglu.
*Com informações do The Verge e do New York Times.
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