Retorno da Petrobras (PETR3, PETR4) à distribuição é ‘volta a passado não glorioso’ e melhor saída é a privatização, defende Adriano Pires
Especialista no setor de energia que quase assumiu o comando da petroleira na gestão Bolsonaro critica demora para explorar a Margem Equatorial e as MPs editadas pelo governo para tentar atrair data centers ao país

O mundo mudou, e o slogan ‘o petróleo é nosso’ já está ultrapassado, bem como o modelo de capital misto da Petrobras (PETR3, PETR4), que a cada quatro (ou oito) anos muda radicalmente de acionista majoritário. A saída seria a privatização, como foi feito com a Eletrobras há 3,5 anos. Quem defende isto é o especialista em energia Adriano Pires, sócio-fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) e que quase assumiu o comando da petroleira no governo de Jair Bolsonaro.
Em entrevista exclusiva ao Seu Dinheiro, Pires afirma que a decisão de voltar à distribuição de combustíveis é inteiramente de cunho político, sem a menor “racionalidade econômica”, prejudica o pequeno acionista e só reforça sua ideia de que privatizar é a melhor saída.
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Pires critica, ainda, a demora para iniciar as campanhas exploratórias na Margem Equatorial, sabendo que o pré-sal já se encaminha para seu ponto de saturação, e vê problemas nas medidas provisórias editadas pelo governo para tentar atrair data centers para o Brasil.
Confira, a seguir, os principais trechos da conversa:
Seu Dinheiro: Vamos falar primeiro da decisão da Petrobras de voltar ao setor de distribuição. Como o senhor avalia esse anúncio?
Adriano Pires: Olha, eu acho que é muito ruim para o acionista da Petrobras. Essa intenção que a estatal declarou de voltar ao mercado de distribuição, tanto de combustível líquido quanto de gás GLP, é uma decisão de cunho político.
São setores que não têm sentido para uma empresa do tamanho da Petrobras, uma petroleira que tem investimentos gigantes no pré-sal, que pretende agora investir, se Deus quiser, na Margem Equatorial.
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É você tirar dinheiro de um negócio que tem uma taxa de retorno muito maior para um setor que no Brasil não precisa da Petrobras, o privado dá conta. Por isso que eu digo que não é uma decisão que tem racionalidade econômica, é uma decisão política.
Inclusive, chamam a atenção as declarações da presidente da Petrobras em relação ao GLP: “o setor hoje está com margens muito altas, então eu vou entrar para reduzir a margem”. Você conhece algum investidor que entra num setor para reduzir margem? Se a margem dele está alta porque está tendo prática de oligopólio, de monopólio, quem tem que ir lá olhar é o Cade [Conselho Administrativo de Defesa Econômica].
Volto a repetir: eu acho que é uma volta ao passado da Petrobras, que não é um passado glorioso. A gente vai repetir o erro outra vez. É aquela coisa de você gerenciar uma empresa olhando pelo retrovisor, e a gente tem que olhar para o para-brisa.
Seu Dinheiro: Podemos dizer que aumentou ou tem aumentado a intervenção política na Petrobras?
Adriano Pires: Eu não tenho a menor dúvida quanto a isso. Inclusive, desde a sua última campanha, o presidente Lula declarou, de uma maneira muito política, que a Petrobras era uma empresa que precisava ajudar o Brasil. Quando Lula ganhou a eleição, legitimamente, a gente sabia o que esse governo pensa da Petrobras. Então, o aumento da intervenção política e sindical não é nenhuma surpresa, porque isso aí é o que o atual acionista majoritário pensa da Petrobras.
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Este é um dos problemas, porque é uma empresa que muda de acionista majoritário a cada quatro ou oito anos. E quando muda, muda para valer mesmo. Eu acho que esse modelo de empresa de capital misto, Estado sendo acionista majoritário, e privado sendo minoritário, já há algum tempo não faz mais sentido. O mundo é outro… o mundo das décadas de 50 ou 60, a tecnologia, o pensamento das pessoas, todo aquele slogan de “o petróleo é nosso” é uma coisa que já ficou meio velha.
A grande discussão que a gente deveria ter é sobre privatizar a Petrobras. Qual seria o modelo de privatização? Eu não sei te dizer, tem várias opções. Acho que a gente tem que discutir coisas que façam o país criar musculatura, atrair investimento. Quando eu vejo a Petrobras declarar a intenção de voltar para a distribuição, defendo mais ainda que está na hora de discutir a privatização.
Seu Dinheiro: Falando agora de pré-sal, ainda é uma grande aposta ou já está chegando num ponto de saturação?
Adriano Pires: Eu acho que continua sendo uma grande aposta. Agora, evidentemente, a gente está chegando também ao ponto de saturação. Petróleo é como a gente: nasce, cresce e morre. Somos hoje o sétimo maior país produtor de petróleo do mundo e caminhamos para sermos o quinto com a produção do pré-sal. Mas, a partir de 2030, começa a ter uma queda do pré-sal, e a produção vai caindo ao longo do tempo.
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A racionalidade de uma empresa de petróleo é sempre estar aumentando as suas reservas. Daí a gente estar preocupado com a Margem Equatorial. Ela é a grande aposta para ser a substituta da bacia de Santos com o pré-sal, assim como a bacia de Santos substituiu a bacia de Campos. Então, se você não começa, a partir de agora, uma campanha exploratória na Margem Equatorial, você pode, lá na frente, voltar até a ser importador de petróleo.
A gente tem que entender que entre uma campanha de exploração ser iniciada e o petróleo ser produzido, vão cinco, seis, sete anos. O risco está na mesa, o governo deveria se atentar. A gente está brincando com um assunto sério. O primeiro leilão que foi feito na Margem Equatorial foi em 2013. Então, estamos há 12 anos sem dar licença ambiental [por lá].
Seu Dinheiro: E a estratégia de diversificação da Petrobras para fontes renováveis, como o senhor avalia?
Adriano Pires: Eu também não gosto. Eu acho que o privado tem todas as condições de investir em fontes renováveis, não precisa da Petrobras. Em qualquer setor da economia em que a Petrobras entra, principalmente num governo que olha a Petrobras de uma forma eleitoreira, ela distorce o mercado, porque ninguém consegue competir com ela. A empresa chega lá, abaixa o preço, sobe o preço, porque o poder dela é muito grande. Então, eu acho que é outro erro que a Petrobras está cometendo.
Seu Dinheiro: Mudando um pouco de tema, temos visto um alto consumo de energia atualmente por conta da inteligência artificial e do uso de data centers. O que o senhor acha que o país deveria fazer para estar bem posicionado para competir nesse cenário?
Adriano Pires: Há hoje duas Medidas Provisórias (MPs) no Congresso, a 1.307 e a 1.318, sobre o data centers. E essas duas MPs cometem um erro básico: elas falam que o data center vai ter que consumir só energia renovável. A energia renovável tem coisas que são boas e coisas que não são boas, como tudo na vida.
Cada energia tem um atributo. O atributo das fontes eólica e solar é que elas beneficiam o meio ambiente. O atributo do gás natural, da energia nuclear, do próprio carvão, é que essas fontes dão segurança energética. O data center, em particular, precisa de segurança energética, porque ele é uma unidade que consome energia 24 horas por dia, 365 dias no ano. Não pode faltar energia, nem ter quedas de frequência.
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Eu acho que é preciso fazer um mix. Se a gente fizer uma política que mostre para o investidor que a gente conhece o assunto e que o Brasil é um dos poucos países que tem uma diversidade energética fabulosa, o país seria imbatível. Esse é o primeiro ponto para se atrair investidores.
O segundo ponto é que a gente precisa reduzir a tarifa de energia no Brasil. A gente tem uma energia barata e uma tarifa cara. É um contrassenso. Por que acontece isso? Porque tem muita distorção na política do setor, a principal sendo uma quantidade gigante de subsídios. Então, a gente tem que limpar essa conta e direcionar subsídios para setores que realmente merecem.
Aqui no Brasil, as pessoas, as indústrias sempre acham que subsídio é uma coisa permanente. Subsídio é uma coisa que você dá por um determinado período para incentivar, depois não precisa mais. No caso clássico do setor elétrico, as energias eólica e solar não precisam mais do subsídio. Mas continua a ter um subsídio gigante.
Seu Dinheiro: O senhor avalia positivamente as mudanças que vêm sendo feitas na gestão da Eletrobras após a privatização?
Adriano Pires: Eu acho que é uma empresa que tem um potencial gigante. A empresa virou uma corporation, não é uma empresa que tem um acionista majoritário. Há acionistas relevantes, e a empresa está com uma gestão profissional. É uma companhia que vai dar muita alegria para o acionista nos próximos anos.
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