Nas trincheiras do varejo: o que esperar do Mercado Livre (MELI34) no 3T25 com a guerra cada vez mais escancarada no setor?
Entre frete grátis, cupons e margens espremidas, o Mercado Livre (MELI34) chega ao 3T25 no centro da guerra que redesenha o e-commerce brasileiro. Veja o que esperar dos resultados de hoje

As gigantes do e-commerce no Brasil — nenhuma brasileira de nascença, diga-se de passagem — estão vivendo uma guerra aberta para aumentar seus respectivos pedaços no nosso mercado e o Mercado Livre (MELI34) é um dos que mais têm colocado poder de fogo nessa batalha.
Cortando preço mínimo para frete daqui… investindo cada vez mais pesado em logística dali… a lógica do setor como um todo mudou com o acirramento da concorrência, principalmente asiática.
Segundo o BTG, nos últimos anos, a abordagem dos grandes players tinha se afastado de uma lógica de crescimento a qualquer custo para um foco orientado pela monetização — capítulo no qual os nomes brasileiros, como Casas Bahia (BHIA3) e Magazine Luiza (MGLU3), ainda estão.
No entanto, esse jogo já virou para players de fora — como Meli, Amazon e Shopee —, que agora estão dispostos a investir pesado no país, mesmo que isso afete a lucratividade.
Tanto é que esse movimento separou de vez as forças do varejo aqui no país.
As novas castas do varejo brasileiro
De um lado, os poderosos estrangeiros, com poder de fogo para bancar investimentos pesados por mais espaço no mercado: frete grátis para compras baratinhas, cada uma com sua data comemorativa própria e caminhões de dinheiro investidos em cupons de desconto e marketing, construção de cada vez mais centros de distribuição (CDs) e assim por diante.
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Do outro, estão as brasileiras que ainda precisam escolher bem onde pisar, se recusando a comprar essa briga, com foco em rentabilidade na venda de produtos de ticket mais elevado, como eletrodomésticos.
Ou seja, não faz mais sentido, por exemplo, comparar diretamente Meli com Casas Bahia ou Magalu. A briga do argentino (e brasileiro de coração) agora é com Shopee, Amazon e Temu.
É nesse cenário que chegamos à temporada de balanços do terceiro trimestre, inaugurada pelo hermano, que divulga seus resultados nesta quarta-feira (29), depois do fechamento dos mercados.
O que esperar do balanço que o Mercado Livre divulgará hoje
Essa dinâmica competitiva já havia afetado os resultados do segundo trimestre do Mercado Livre, que viu suas margens vindo bem abaixo do esperado pelo mercado graças aos investimentos pesados que a plataforma de e-commerce precisou fazer por aqui.
Para o terceiro trimestre, a expectativa do BTG é que os resultados sigam pressionados por esses investimentos — em especial, o frete grátis —, mas que haja um impulso nas vendas vindos dessas iniciativas.
“Esperamos um crescimento de 31% ano a ano na operação do Meli no Brasil (em real), com o volume geral de vendas (GMV) consolidado em dólar aumentando 21%”, escreveram os analistas do banco em relatório.
O Bank of America (BofA) compartilha da mesma visão. “Esperamos que os investimentos do Meli em frete grátis, cupons e marketing acelerem o volume de itens vendidos e o GMV no Brasil, mas pressionem as margens”, afirma o time de análise.
No Citi, a expectativa é bem parecida. Os analistas esperam que o GMV no Brasil em real avance 32%, em linha com os comentários da administração da empresa, que destacou uma aceleração em junho para 34% no crescimento de itens vendidos, assumindo que o padrão de crescimento se manteve constante.
No entanto, o banco reconhece o impacto “amplamente conhecido” da redução do valor mínimo para frete grátis e da diminuição das tarifas de envio cobradas dos vendedores.
Segundo o Citi, a receita com frete, que representa cerca de 20% do GMV no Brasil (em pedidos com valor entre R$ 79 e R$ 200), deve cair entre 40% e 50%. O banco calcula que essa queda possa gerar um impacto anual de 90 a 100 pontos-base (bps) no GMV, considerando que os demais fatores permaneçam estáveis.
Sobre a redução no limite de preço mínimo para frete grátis, o banco estima que entre 10% e 20% do GMV do Brasil deve sofrer um impacto moderado nas receitas de frete, parcialmente compensado por maiores tarifas de antecipação de recebíveis. Segundo o relatório, essa combinação deve reduzir em torno de 30 a 40 pontos-base (bps) o GMV, já que o Mercado Livre passou a cobrar menos dos compradores.
Além disso, o Citi espera uma compressão de 130 bps na take rate do marketplace (3P) no Brasil em relação ao ano anterior.
- Take rate é a fatia que o Mercado Livre retém sobre cada venda feita na plataforma. Quando essa taxa cai significa que a empresa está ganhando menos por transação, mesmo com o aumento das receitas com anúncios ajudando a compensar parte da perda.
“Esse efeito deve ser parcialmente compensado por um efeito positivo de 40 bps proveniente do aumento das receitas de publicidade como percentual do GMV. Para comparação, estimamos um impacto de aproximadamente 60 bps no segundo trimestre (cerca de 30 bps líquidos após considerar o efeito dos anúncios)”.
Confira as estimativas compiladas pela Bloomberg para o Mercado Livre no 3T25:
- Lucro líquido: US$ 488.65 milhões
- Receita líquida: US$ 7.23 bilhões
- Ebitda: US$ 942.63 milhões
E a Argentina?
Em meio a todo esse contexto no Brasil, a Argentina foi o destaque positivo do balanço da companhia no trimestre passado.
No entanto, não dá para esperar muito do país no balanço de hoje, algo que o Citi e o BofA enxergam. Isso é reflexo da rápida deterioração da confiança do consumidor por lá, resultado do aumento da incerteza política, acompanhado pela desvalorização do peso argentino.
Segundo o Citi, o GMV na terra dos hermanos deve desacelerar consideravelmente, para 48%, ante 75% no resultado correspondente aos três meses anteriores.
“Fizemos mudanças limitadas, principalmente na Argentina (crescimento em dólares), o que levou à redução de 3% a 4% no GMV estimado para 2026 e 2027. Nossa projeção de lucro líquido foi reduzida em 4% para 2026, excluindo maiores perdas cambiais”, diz o relatório do banco.
Isso porque a percepção de risco na Argentina cresceu, pesando sobre o custo de capital — o que motivou a revisão do preço-alvo do banco para a ação.
“Nosso preço-alvo, calculado a partir de uma combinação entre fluxo de caixa descontado (DCF) e múltiplos de mercado, foi reduzido de US$ 2.850 para US$ 2.700, em razão de um menor valor obtido pelo modelo de DCF. A revisão reflete o aumento do risco-país na Argentina, que passou de 5% para 11%, ainda que parte desse efeito tenha sido compensado por uma queda na taxa de juros livre de risco”.
No México, a expectativa é de crescimento em moeda local de 33,5%, uma ligeira aceleração em relação aos 32% do segundo trimestre, refletindo uma tendência de aceleração no volume de itens vendidos.
O Mercado Pago
O BofA projeta que o braço financeiro da companhia deve manter um ritmo excepcionalmente forte no terceiro trimestre, impulsionado pelo avanço do crédito, dos meios de pagamento e da carteira digital.
Apesar do bom desempenho operacional, o resultado líquido deve vir pressionado por fatores contábeis.
As despesas com remuneração baseada em ações, que refletem o pagamento de executivos com opções e ações, e as perdas cambiais decorrentes da desvalorização do peso argentino, tendem a pesar sobre o balanço do trimestre. Assim, mesmo com expansão robusta nas operações, a unidade deve registrar prejuízo líquido, de acordo com o banco.
Para o Citi, a receita da fintech continuará sendo impulsionada principalmente pela carteira de crédito.
“Estimamos que a carteira de crédito cresça 66% na comparação anual (alta de 7% em relação ao trimestre anterior), impulsionada principalmente pelo Brasil e mantendo o ritmo de crescimento de dois anos observado no segundo trimestre, de cerca de 190%”, diz o relatório.
Os analistas ressaltam que a administração tem demonstrado confiança crescente na qualidade dos modelos de risco, citando não apenas melhorias que permitiram acelerar a emissão de novos cartões, mas também maior rentabilidade das carteiras de crédito no Brasil.
Em relação aos meios de pagamento, o Citi tem uma postura mais conservadora, especialmente na Argentina, mesmo com o Mercado Pago ganhando participação de mercado. O motivo é a redução dos valores transacionados.
“No Brasil, projetamos uma trajetória positiva e consistente para o Mercado Pago no segmento de pagamentos, com crescimento em torno de 30% no volume total processado (TPV) durante o trimestre — sustentado pelo aumento contínuo no número de usuários ativos mensais (MAU)”, concluem os analistas.
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