Mercado Livre (MELI34) vai aniquilar a concorrência com investimento de R$ 34 bilhões no Brasil? O que será de Casas Bahia (BHIA3) e Magalu (MGLU3)?
Aposta bilionária deve ser usada para dobrar a logística no país e consolidar vantagem sobre concorrentes locais e globais. Como fica o setor de e-commerce como um todo?
“Praticamente o que Americanas teve de rombo, o Mercado Livre está investindo no Brasil”. É com essa brincadeira que o consultor e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Maurício Morgado, define a magnitude dos aportes anunciados pela companhia por aqui neste ano.
Na última segunda-feira (7), a empresa argentina — ou brasileira de coração — anunciou um investimento de R$ 34 bilhões no país.
Se excluirmos o efeito cambial, esse valor representa uma alta de 32% em relação ao ano anterior, quando a companhia destinou R$ 23 bilhões ao nosso mercado. É o oitavo ano consecutivo em que o Mercado Livre (MELI34) aumenta o volume de recursos investidos no Brasil.
E esse é só o começo… promessa que pode ser lida em tom de ameaça, principalmente pelos concorrentes da companhia.
Diante de um investimento dessa dimensão, como fica o cenário para o e-commerce no país? E quanto à situação de Magazine Luiza (MGLU3) e Casas Bahia (BHIA3), que já sofrem, entre outras coisas, com uma competição voraz?
E em relação à Amazon e outras concorrentes estrangeiras, como os marketplaces asiáticos?
Leia Também
Por fim: o investimento de R$ 34 bilhões só solidifica ainda mais o que já é uma realidade do setor de e-commerce no Brasil ou vai funcionar como um rolo compressor para os outros players (em especial os brasileiros ‘de sangue’)?
- VEJA MAIS: Vai declarar o Imposto de Renda pela primeira vez? GUIA GRATUITO ensina passo a passo para acertar as contas com o fisco
É só o começo para o Mercado Livre (em tom de ameaça)
Na visão de um gestor com quem o Seu Dinheiro conversou, esses R$ 34 bilhões nada mais fazem do que consolidar algo que já é realidade: o Mercado Livre é líder absoluto no país.
Esse gestor inclusive considera o Meli uma empresa brasileira. Até porque, em 2024, quase 60% da receita total da companhia veio daqui. Só no e-commerce, a receita líquida foi de aproximadamente R$ 40 bilhões.
Nesse cenário, Casas Bahia e Magazine Luiza não estão sequer brigando a mesma batalha — nem valeria a pena. Vale lembrar que o atual valor de mercado das duas juntas (pouco mais de R$ 8,3 bilhões) é bastante inferior ao total de investimentos do Meli no Brasil só neste ano.
E essa não é a primeira vez que a companhia choca com a alocação de capital por aqui, muitas vezes dobrando a aposta em decisões que chegaram a deixar os investidores receosos sobre a lucratividade da empresa.
Mas, segundo o Itaú BBA, o denominador comum desses investimentos tem sido a capacidade consistente de superar as expectativas de retorno, seguida por uma forte performance nas ações. Veja o desempenho dos papéis MELI, negociados em Nova York (Nasdaq), à medida que os investimentos da companhia evoluem:
Magalu e Casas Bahia não conseguiriam bater de frente com Meli (nem querem)
“Mercado Livre está em um grau de maturidade diferente de Magalu e Casas Bahia, que precisam focar em mostrar rentabilidade agora, enquanto o amiguinho está jogando dinheiro para cima”, Roberto Wajnsztok, sócio-diretor da Gouvêa Consulting, consultoria especializada em varejo, consumo e distribuição.
Já que não dá para brigar, elas escolhem outras lutas.
Existe um posicionamento claro: o principal foco do Meli são produtos de ticket médio a baixo — ou seja, mais baratos —, que exigem uma logística mais simples.
Enquanto os outros dois se concentram em vender eletrônicos e eletrodomésticos. É muito mais difícil entregar uma geladeira do que uma peça de automóvel.
“O Mercado Livre ocupou espaço de solucionador de problemas na cabeça do consumidor, porque lá você encontra de tudo. Já no Magalu e nas Casas Bahia você compra eletrodomésticos”, diz Morgado, consultor e professor da FGV.
Fora isso, os principais produtos vendidos por Casas Bahia e Magalu geralmente exigem parcelamento no crédito e isso gera um custo financeiro maior para a companhia, dado que prazos mais longos significam maiores despesas com juros.
Outro ponto relevante está no modelo de vendas adotado por cada empresa.
No caso do Mercado Livre, a esmagadora maioria das transações ocorrem no formato 3P — quando a plataforma apenas intermedia a venda entre vendedores terceiros e consumidores, sem assumir a posse do estoque ou a responsabilidade pelo ciclo completo de venda.
Já Magalu e Casas Bahia operam majoritariamente no modelo 1P, no qual a empresa compra os produtos, mantém o estoque e realiza a venda direta ao consumidor. Esse formato exige mais capital, já que demanda investimento antecipado em mercadorias e maior gestão operacional.
Com o juros elevados, empresas com operações mais intensivas em capital acabam sendo mais impactadas. Assim, o diferencial do Meli ficou ainda mais evidente.
Para o gestor com quem o Seu Dinheiro conversou, Casas Bahia e Magazine Luiza enfrentam uma conjuntura que dificulta o crescimento, enquanto o Mercado Livre segue sendo a empresa com maior potencial de expansão no varejo brasileiro.
Um aspecto relevante também é a estratégia de diversificação de portfólio adotada pela dupla nascida e criada aqui.
“Eles foram para um caminho de ecossistema, estão tentando seguir menos focados na pessoa física e sim na prestação de serviços”, diz Wajnsztok.
O Magazine Luiza, por exemplo, tem investido em tecnologia e serviços financeiros com o objetivo de construir um ecossistema digital robusto que atende negócios de diversos portes.
Por fim, a omnicanalidade — ou seja, presença física e digital — conta como uma vantagem para as varejistas brasileiras, dado que a penetração online na América Latina ainda é baixa, cerca de 12%. No Brasil, esse número chegou a 10% em 2024, segundo dados da pesquisa E-shopper barometer.
Em outras palavras…
Não, os investimentos de R$ 34 bilhões do Mercado Livre não significam a aniquilação completa da concorrência brasileira. Aqui, o setor caminha cada vez mais para ter líderes de categoria, com Meli jogando um jogo e Magalu e Casas Bahia jogando outro.
Mas o papo é diferente quando o assunto são as rivais estrangeiras. Em especial, a Amazon, que é a principal concorrente de Mercado Livre no Brasil.
E é por isso que essa bolada deve representar uma baita vantagem competitiva para o Mercado Livre. Se eles querem continuar no topo, têm que investir.
“Eles colocam cada vez mais lenha na fogueira porque sabem que quem vem atrás também tem muita bala na agulha”, diz Wajnsztok, da Gouvêa Consulting.
A verdadeira batalha do Mercado Livre
Nesse sentido, o dinheiro deve intensificar os esforços em entregar cada vez mais rápido, porque esse é justamente o “X” da questão no e-commerce hoje, em especial no segmento em que o Meli tem predominância.
O consumidor tem levado o preço cada vez menos em consideração. Agora, o foco é no tempo que o produto leva para chegar na porta de casa. Tanto é que na plataforma do Mercado Livre você já pode filtrar suas compras assim.
Nesse sentido, a preocupação com a Amazon ganha profundidade. Até porque não dá para esquecer que a companhia norte-americana também vem investindo pesado no Brasil.
De acordo com o líder-global da companhia em uma entrevista à Exame, já foram investidos R$ 33 bilhões no Brasil nos últimos anos, e a previsão é que isso continue.
Hoje, a empresa fundada por Jeff Bezos tem 12 centros de distribuição no Brasil, espalhados por São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Ceará, Pernambuco e Distrito Federal.
Já o Mercado Livre conta com 10 centros — nós inclusive já visitamos um deles. A empresa pretende dobrar esse número com parte do valor anunciado em investimentos.
Com a expansão, 63% deles estarão fora de São Paulo, em Estados como Rio Grande do Sul, Pernambuco, Ceará, Bahia, Paraná e Rio de Janeiro, além do Distrito Federal.
Seis estão sendo construídos ao longo deste ano, e cinco estão previstos para o ano que vem. Segundo Fernando Yunes, vice-presidente sênior e líder do Mercado Livre no Brasil, serão do tamanho de 120 estádios de futebol.
“É no last mile [entrega de última milha] que essa guerra acontece. Quem entrega mais rápido vende mais. Vence a batalha quem substituir completamente a necessidade de o consumidor sair de casa para comprar produtos”, complementa Wajnsztok.
E as varejistas chinesas?
De acordo com a analista da Empiricus, Larissa Quaresma, os marketplaces chineses — como Shopee, Aliexpress e Temu — até podem se tornar um problema sério para o Mercado Livre, mas primeiro precisam se livrar da imagem atrelada a “tranqueiras”.
Maurício Morgado, professor da FGV, concorda: “acho que elas ainda não venceram essa barreira”.
A logística também é um problema. Em relatório, o BTG Pactual já destacou isso no caso da Shopee: “seria preciso desenvolver uma estrutura mais robusta em um território de dimensões continentais como o Brasil”.
Para enfrentar isso, a empresa inaugurou, em meados de 2024, seu primeiro centro de distribuição no país. A estrutura se soma a uma rede já formada por 11 centros de cross-docking, cerca de 150 hubs regionais e o apoio de aproximadamente 20 mil transportadoras terceirizadas.
O TikTok Shop é realmente uma ameaça?
O Mercado Livre entrou para o centro de uma discussão estratégica após a chegada do TikTok Shop, braço de e-commerce da rede social, na América Latina.
Segundo um relatório do Santander, a plataforma pode movimentar até R$ 39 bilhões no Brasil até 2028, o que representaria até 9% do setor.
As projeções para o avanço são baseadas no sucesso do TikTok Shop em países como Indonésia, onde atingiu 5% do mercado em um ano. Globalmente, o volume de vendas saltou de US$ 4,4 bilhões em 2021 para US$ 32,6 bilhões em 2024.
Nós somos o terceiro maior mercado da plataforma no mundo, com 111 milhões de usuários ativos, atrás apenas dos Estados Unidos — onde a rede social enfrenta problemas com o governo — e da Indonésia.
Para Morgado, trata-se de uma ameaça real: “ninguém fica navegando no aplicativo do Mercado Livre como fica no do TikTok. É como se fosse um novo Polishop. Eu mesmo fico mais tempo do que deveria na rede social, se tivesse como comprar lá, já teria gastado uma grana”.
Larissa Quaresma concorda: “estamos falando do aplicativo mais usado pela Geração Z, que será o maior público consumidor do mundo em breve. Então de fato é algo a se monitorar”.
Mas o Santander enxerga uma faca de dois gumes. A infraestrutura robusta do Meli, que inclui logística, pagamentos e serviços para vendedores, o posiciona como um parceiro natural do TikTok Shop na região”, pontuam os analistas.
Nesse sentido, a grande vantagem para o Mercado Livre pode estar na logística. Isso porque o modelo de negócios do TikTok Shop depende de entregas rápidas e confiáveis para os produtos descobertos via vídeo.
Se todo mundo acha que é uma bolha, não é: veja motivos pelos quais o BTG acredita que a escalada da IA é real
Banco aponta fundamentos sólidos e ganhos de produtividade para justificar alta das empresas de tecnologia, afastando o risco de uma nova bolha
Produção de cerveja no Brasil cai, principalmente para Ambev (ABEV3) e Heineken (HEIA34); preço das bebidas subiu demais, diz BTG
A Ambev aumentou os preços de suas marcas no segundo trimestre do ano, seguida pela Heineken, em julho — justamente quando as vendas começaram a encolher
Vale (VALE3) desafia a ordem de pagar R$ 730 milhões à União; mercado gosta e ações sobem mais de 1%
Em comunicado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a mineradora alega que a referida decisão foi proferida em primeira instância, “portanto, seu teor será objeto de recursos cabíveis”
De seguro pet a novas regiões: as apostas da Bradesco Seguros para destravar o próximo ciclo de crescimento num mercado que engatinha
Executivos da seguradora revelaram as metas para 2026 e descartam possibilidade de IPO
Itaú com problema? Usuários relatam falhas no app e faturas pagas aparecendo como atrasadas
Usuários dizem que o app do Itaú está mostrando faturas pagas como atrasadas; banco admite instabilidade e tenta normalizar o sistema
Limpando o nome: Bombril (BOBR4) tem plano de recuperação judicial aprovado pela Justiça de SP
Além da famosa lã de aço, ela também é dona das marcas Mon Bijou, Limpol, Sapólio, Pinho Bril, Kalipto e outras
Vale (VALE3) fecha acima de R$ 70 pela primeira vez em mais de 2 anos e ganha R$ 10 bilhões a mais em valor de mercado
Os papéis VALE3 subiram 3,23% nesta quarta-feira (3), cotados a R$ 70,69. No ano, os ativos acumulam ganho de 38,64% — saiba o que fazer com eles agora
O que faz a empresa que tornou brasileira em bilionária mais jovem do mundo
A ascensão de Luana Lopes Lara revela como a Kalshi criou um novo modelo de mercado e impulsionou a brasileira ao posto de bilionária mais jovem do mundo
Área técnica da CVM acusa Ambipar (AMBP3) de violar regras de recompra e pede revisão de voto polêmico de diretor
O termo de acusação foi assinado pelos técnicos cerca de uma semana depois da polêmica decisão do atual presidente interino da autarquia que dispensou o controlador de fazer uma OPA pela totalidade da companhia
Nubank (ROXO34) agora busca licença bancária para não mudar de nome, depois de regra do Banco Central
Fintech busca licença bancária para manter o nome após norma que restringe uso do termo “banco” por instituições sem autorização
Vapza, Wittel: as companhias que podem abrir capital na BEE4, a bolsa das PMEs, em 2026
A BEE4, que se denomina “a bolsa das PMEs”, tem um pipeline de, pelo menos, 10 empresas que irão abrir capital em 2026
Ambipar (AMBP3) perde avaliação de crédito da S&P após calote e pedidos de proteção judicial
A medida foi tomada após a empresa dar calote e pedir proteção contra credores no Brasil e nos Estados Unidos, alegando que foram descobertas “irregularidades” em operações financeiras
A fortuna de Silvio Santos: perícia revela um patrimônio muito maior do que se imaginava
Inventário do apresentador expõe o tamanho real do império construído ao longo de seis décadas
UBS BB rebaixa Raízen (RAIZ4) para venda e São Martinho (SMTO3) para neutro — o que está acontecendo no setor de commodities?
O cenário para açúcar e etanol na safra de 2026/27 é bastante apertado, o que levou o banco a rever as recomendações e preços-alvos de cobertura
Vale (VALE3): as principais projeções da mineradora para os próximos anos — e o que fazer com a ação agora
A companhia deve investir entre US$ 5,4 bilhões e US$ 5,7 bilhões em 2026 e cerca de US$ 6 bilhões em 2027. Até o fim deste ano, os aportes devem chegar a US$ 5,5 bilhões; confira os detalhes.
Mesmo em crise e com um rombo bilionário, Correios mantêm campanha de Natal com cartinhas para o Papai Noel
Enquanto a estatal discute um empréstimo de R$ 20 bilhões que pode não resolver seus problemas estruturais, o Papai Noel dos Correios resiste
Com foco em expansão no DF, Smart Fit compra 60% da rede de academias Evolve por R$ 100 milhões
A empresa atua principalmente no Distrito Federal e, segundo a Smart Fit, agrega pontos comerciais estratégicos ao seu portfólio
Por que 6 mil aviões da Airbus precisam de reparos: os detalhes do recall do A320
Depois de uma falha de software expor vulnerabilidades à radiação solar e um defeito em painéis metálicos, a Airbus tenta conter um dos maiores recalls da sua história
Os bastidores da crise na Ambipar (AMBP3): companhia confirma demissão de 35 diretores após detectar “falhas graves”
Reestruturação da Ambipar inclui cortes na diretoria e revisão dos controles internos. Veja o que muda até 2026
As ligações (e os ruídos) entre o Banco Master e as empresas brasileiras: o que é fato, o que é boato e quem realmente corre risco
A liquidação do Banco Master levantou dúvidas sobre possíveis impactos no mercado corporativo. Veja o que é confirmado, o que é especulação e qual o risco real para cada companhia
