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Após erros estratégicos e trimestres de sufoco financeiro, a rede de oncologia estuda sucessão de Bruno Ferrari no comando e busca novos executivos para a diretoria
As mudanças na Oncoclínicas (ONCO3) estão longe de chegar ao fim. Depois de trimestres marcados por decisões estratégicas mal calibradas, sufoco financeiro e ações em queda livre, a rede de oncologia se prepara para uma reformulação profunda no comando da companhia.
Segundo apuração do Seu Dinheiro, a companhia trabalha com planos concretos para uma sucessão do CEO e passou a buscar, de forma ativa, executivos de fora do grupo para oxigenar o alto escalão. A empresa não se manifestou sobre o tema até o momento.
Os planos preveem uma dança das cadeiras corporativas que inclui até a posição do fundador e atual presidente da Oncoclínicas, Bruno Ferrari. A expectativa é que ele deixe a posição executiva no dia a dia para assumir um papel mais estratégico no conselho de administração.
A ideia é atender a uma demanda antiga dos acionistas: dar início a um novo ciclo de governança, que seja capaz de sustentar o processo de recuperação da empresa.
Uma fontes próxima à companhia afirma que o processo de sucessão está “com certeza” nos planos e deve acontecer já no curto prazo, embora o nome do novo CEO ainda não esteja fechado e deva ser anunciado apenas nas próximas semanas.
A empresa já contratou uma consultoria, a Spencer Stuart, para o recrutamento do novo diretor-presidente. A expectativa é que o novo executivo assuma o cargo até janeiro de 2026.
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A discussão, no entanto, não se limita ao cargo executivo. Todas as posições da alta diretoria estão na mira — ainda que nem todas resultem, necessariamente, em mudanças.
A prioridade inicial é trazer executivos de mercado, com experiência em reestruturações e gestão de crises. “Todas as posições na alta direção estão sendo discutidas. E a preferência, inicialmente, é por nomes de fora da empresa”, afirmou uma fonte de mercado próxima às conversas.
Fundada em 2010 pelo médico oncologista Bruno Ferrari, em Belo Horizonte, a Oncoclínicas cresceu rapidamente, ancorada em uma estratégia agressiva de aquisições e expansão.
A ambição da alta gestão levou a companhia a se tornar um dos maiores grupos de oncologia da América Latina — e incluiu movimentos ousados, como a entrada no segmento hospitalar e parcerias agressivas com pagadores arriscados como a Unimed-Rio.
O problema é que parte dessa estratégia se mostrou equivocada e acabou levando à deterioração das finanças da empresa e a uma forte destruição de valor para o acionista. As ações ONCO3 acumulam perdas expressivas na bolsa, de 85% em relação à estreia na B3, em 2021.
Agora, a Oncoclínicas tenta reverter o quadro com um plano estratégico focado em estancar a queima de caixa, reorganizar a operação e restaurar a confiança do mercado. Esse esforço incluiu um novo aumento de capital bilionário — o terceiro em apenas três anos — e iniciativas de desinvestimentos e renegociações para reduzir o endividamento e a recuperar geração de caixa.
No auge da crise, gestores especializados em ativos estressados, como a Starboard Asset, tentaram uma intervenção mais dura. A proposta previa conversão de dívidas em ações, um aumento de capital de pelo menos R$ 800 milhões e mudanças profundas na governança, incluindo a saída do fundador do comando direto da empresa.
Junto ao novo CEO, a Starboard também previa a contratação de um novo membro ao alto escalão: um diretor de reestruturação (CRO), que trabalharia ao lado do diretor financeiro (CFO) e deveria ser nomeado pela gestora.
A Oncoclínicas, porém, logo rejeitou a proposta. Como antecipado pelo Seu Dinheiro, a companhia não gostou dos termos apresentados. Para conter rumores que circulavam no mercado à época, a empresa reforçou publicamente que Bruno Ferrari permaneceria no comando.
“A Oncoclínicas esclarece que não houve qualquer mudança em sua administração, que continua com o Bruno Lemos Ferrari como Diretor Presidente, e o Conselho de Administração da Companhia reitera seu apoio”, escreveu a empresa, em comunicado divulgado em setembro.
Para o mercado, contudo, a avaliação foi bem menos reconfortante. Um gestor ouvido pelo Seu Dinheiro à época afirmou que a companhia vivia uma confusão operacional — e que a manutenção do fundador no cargo representava um mau negativo para investidores.
“O Bruno Ferrari já não é mais consenso, nem no mercado de oncologia, nem no mercado financeiro. Ele perdeu a mão da operação. Manter o Bruno não é saudável. A companhia já perdeu o DNA do passado e vai precisar se reinventar”, disse o gestor.
Em entrevistas à imprensa especializada naquele período, Ferrari chegou a fazer uma espécie de mea-culpa. Ao NeoFeed, o executivo afirmou que a empresa havia feito “um desvio de rota que não funcionou”, mas garantiu que não deixaria o cargo após o aumento de capital.
“Isso nunca foi ventilado. O conselho confiou em mim para liderar esse processo de volta às origens da companhia. Confiaram em mim, e eu vou entregar”, disse o fundador, no fim de setembro.
Na visão de pessoas envolvidas no processo, a reestruturação da governança da Oncoclínicas (ONCO3) é uma consequência direta do recente aumento de capital realizado na empresa.
A injeção de recursos redesenhou o mapa acionário da companhia, diluindo investidores relevantes como Banco Master, Goldman Sachs e a gestora de private equity Centaurus.
Ao mesmo tempo, novos acionistas passaram a integrar o capital da empresa e estariam “muito interessados em contribuir com o futuro da empresa” e em participar ativamente no processo de recuperação da companhia.
“Nada mais natural do que um conselho que seja consequência desse aumento de capital e que reflita a entrada de novos acionistas na estrutura da empresa”, disse um executivo próximo à operação.
Segundo ele, o desempenho das ações ONCO3 na bolsa acabou funcionando como um termômetro implacável para a avaliação dos conselheiros que estão de saída ou não estão sendo reconduzidos. “O preço da ação se autoexplica”, resumiu.
De acordo com informações reveladas ao Seu Dinheiro, a recente proposta de troca do conselho de administração é apenas a primeira etapa de um processo mais amplo de renovação da governança, desejado por parte relevante dos acionistas.
O objetivo final seria uma reformulação completa do alto escalão, incluindo a posição de CEO, hoje ocupada por Ferrari.
No fim de novembro, um grupo de acionistas liderado pela gestora Latache — que detém cerca de 14% do capital da Oncoclínicas — solicitou formalmente a destituição dos atuais conselheiros e a eleição de uma nova chapa. Confira aqui os detalhes.
Pelos termos apresentados, Ferrari deveria assumir, em um primeiro momento, a posição de presidente do conselho (chairman). Ainda assim, fontes ouvidas pela reportagem afirmam que o desenho final prevê o afastamento gradual do fundador da liderança direta da Oncoclínicas.
Um gestor de crédito afirma que o movimento seria saudável para a companhia, desde o novo CEO fosse “alguém capaz, sem conflitos de interesse e com autonomia” para não apenas servir a um dos acionistas de referência.
Procurada pela reportagem, a Oncoclínicas não retornou o contato até o momento de publicação desta matéria. O espaço segue aberto.
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