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Dependente de arrendamentos e com caixa pressionado, braço de alimentos é peça central na estratégia da Fictor para evitar o colapso da holding. Mas será que isso faz sentido?
Com um pedido de recuperação judicial em aberto e ações da subsidiária despencando na bolsa, a única coisa ‘no verde’ atrelada à Fictor Holding no momento parece ser a camisa do Palmeiras, time do qual a empresa é patrocinadora.
A companhia pediu para entrar em RJ ontem (1) com dívidas de R$ 4 bilhões, alegando que a subsidiária Fictor Alimentos (FICT3) é o mais importante e “principal eixo operacional do grupo”, além de ser o grande motor de faturamento da companhia, respondendo pela quase totalidade do faturamento projetado.
Em outras palavras, a divisão de alimentos parece ser vista pela empresa como o “ás” na manga para tentar reverter a situação delicada na qual se encontra.
Por esse motivo, a empresa-mãe defende, no pedido de recuperação judicial, que a divisão de alimentos fique fora do processo, assim como outras frentes do grupo — como o braço de real estate —, sob o argumento de que sua inclusão poderia comprometer a própria recuperação do conglomerado. Em última instância, podendo gerar a falência do grupo.
No entanto, apesar de a Fictor Alimentos ser pintada como esse grande trunfo para a companhia, o balanço da subsidiária parece contar uma história diferente.
A última divulgação de resultados da companhia mostra uma empresa menos animadora. Primeiro que a companhia enfrenta um problema essencial com o pedido de recuperação judicial: a empresa não tem ativos imobilizados próprios, apenas arrendamentos.
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Ou seja, as plantas industriais onde a empresa produz as carnes que são vendidas (e são o ganha-pão da companhia) não são dela, são ativos “alugados” de outras companhias — no caso, da Mellore Alimentos, que atualmente está em recuperação judicial.
Essas informações estão disponíveis no balanço da companhia do terceiro trimestre de 2025, o mais recente divulgado, e desde então não existem informações sobre nenhuma aquisição imobiliária.
O problema disso é: a empresa só consegue produzir enquanto mantém o direito de uso das plantas industriais. Esse modelo, que em condições normais pode funcionar, se torna especialmente frágil quando o grupo entra em crise e a situação passa a ser analisada pela Justiça.
Sob o risco de a Fictor Alimentos também entrar com um pedido de recuperação judicial ou ser envolvida no processo da holding — possibilidades bastante factíveis segundo a apuração do Seu Dinheiro nesta reportagem — as coisas começam a ficar ainda mais feias
Em um cenário de recuperação judicial, caso a Justiça entenda que a empresa não teria capacidade de honrar esses pagamentos, poderia autorizar a rescisão dos contratos de arrendamento.
Se isso ocorrer, o impacto é imediato: sem os contratos, a Fictor Alimentos perde o acesso aos frigoríficos, deixa de produzir, não gera receita e, na prática, deixa de ter um negócio operacional.
É justamente esse risco — de a empresa perder a base operacional e, com ela, a geração de caixa — que figura entre os principais temores do grupo e sustenta o esforço para manter a subsidiária fora do processo de recuperação judicial.
A empresa chegou ao fim de setembro do ano passado com um prejuízo de quase R$ 3 milhões e um caixa líquido negativo em R$ 10,4 milhões. O caixa operacional, por sua vez, também ficou no negativo, em R$ 15,2 milhões.
O consumo de caixa operacional esteve ligado principalmente ao aumento de estoques, contas a receber, adiantamentos e despesas iniciais da operação industrial, indicando que a atividade principal ainda não gera caixa de forma consistente.
Esse desequilíbrio foi compensado por um aumento de capital de R$ 70 milhões, realizado no final do ano passado, que reforçou a liquidez e levou a companhia a encerrar o período com R$ 52,7 milhões em caixa e equivalentes.
No entanto, cabe lembrar que a própria holding subscreveu quase a totalidade do aumento de capital, aportando R$ 60 milhões, o equivalente a cerca de 85% da oferta. Sem esse aporte, a situação de liquidez seria significativamente mais pressionada.
Na prática, o movimento reforçou a dependência da subsidiária em relação à controladora e alimentou dúvidas no mercado sobre o grau de autonomia operacional e financeira da empresa — um ponto sensível quando se discute a exclusão ou não da companhia do processo de RJ.
A receita líquida consolidada somou R$ 31,1 milhões. No entanto, esse faturamento está relacionado ao início das atividades da controlada Fictor Alimentos Betim — justamente a responsável pelo arrendamento das plantas industriais e que ficaria praticamente sem ter de onde tirar dinheiro caso esse contrato fosse desfeito em meio a uma eventual RJ.
A Fictor Alimentos também fechou o período com dívida líquida consolidada de cerca de R$ 28,8 milhões.
Em resumo: o desempenho financeiro da companhia ainda depende fortemente da execução do plano industrial e da capacidade de transformar escala em rentabilidade nos próximos trimestres.
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