Bolsa barata em ano eleitoral: mito ou verdade? Estudo mostra histórico e ações pechincha com maior potencial de valorização em 2026
Do rali dos 150 mil pontos ao possível tombo: como aproveitar a bolsa nos próximos meses, com caixa ou compras graduais?

O Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, vem renovando recordes e já chegou a superar os 147 mil nas negociações intradiárias algumas vezes. Os 150 mil pontos parecem cada vez mais próximos, mas o desafio está no cenário: eleições à frente e ambiente macroeconômico adverso. O que acontece depois?
Existe uma crença de que, em ano eleitoral, a bolsa brasileira fica barata e oferece grandes descontos em ações. Mas será mito ou realidade? E, se for verdade, o melhor é comprar agora ou esperar a proximidade das eleições?
O Seu Dinheiro testou a teoria em um estudo sobre os últimos cinco ciclos eleitorais (2002-2022). O levantamento exclusivo de Fábio Sobreira, sócio e analista da Rocha Opções de Investimentos, comparou o desempenho do Ibovespa nos 12 meses antes do pleito eleitoral com os 36 meses anteriores ao mesmo mandato. Foram analisados três critérios: valuation (múltiplo preço/lucro), volatilidade e retorno anualizado. Os dados são da Economatica.
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A conclusão é que não há regra universal de desconto nas eleições, mas uma tendência que depende do contexto. Em 3 dos 5 ciclos, o Ibovespa teve desempenho pior, maior volatilidade e valuation mais baixo.
“O fator decisivo não é a eleição em si, mas a natureza da incerteza. Quando o pleito sugere mudança para um modelo econômico de maior risco, a tendência de desconto se confirma. Mas quando aponta continuidade ou melhora diante de crise maior, a bolsa barata pode ser neutralizada ou até revertida”, afirma Sobreira.
Como o Ibovespa se comportou nas últimas 5 eleições?
Eleição 2022: Lula vs. Jair Bolsonaro (vencedor: Lula)
| Métrica | Período de mandato (36 meses) | Ano eleitoral (12 meses) |
|---|---|---|
| Datas | Out/2018 a Set/2021 | Out/2021 a Set/2022 |
| Valuation (P/L) | Média P/L: 11,5x | Mínimas P/L: 4,8x (Mais barato) |
| Volatilidade | Média: 22% | Picos: 30% (mais volátil) |
| Retorno anualizado | +6,5% a.a. | -4,0% a.a. (pior) |
O que aconteceu neste período? Alta agressiva da Selic, risco fiscal elevado e polarização política extrema.
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Eleição 2018: Jair Bolsonaro vs. Fernando Haddad (vencedor: Bolsonaro)
| Métrica | Período de mandato (36 meses) | Ano eleitoral (12 meses) |
|---|---|---|
| Datas | Out/2014 a Set/2017 | Out/2017 a Set/2018 |
| Valuation (P/L) | Picos P/L: acima de 20x (crise) | Média P/L: 12,1x (similar) |
| Volatilidade | Média: 24% | Picos: 35% (mais volátil) |
| Retorno anualizado | +10,0% a.a. | +6,0% a.a. (pior) |
O que aconteceu neste período? Mandato pós-impeachment de Dilma e recessão. Ano eleitoral com incerteza política máxima e crises, como a greve dos caminhoneiros.
Eleição 2014: Dilma Rousseff vs. Aécio Neves (vencedor: Dilma)
| Métrica | Período de mandato (36 meses) | Ano eleitoral (12 meses) |
|---|---|---|
| Datas | De Out/2010 a Set/2013 | De Out/2013 a Set/2014 |
| Valuation (P/L) | Média P/L: 9,7x | Mínimas P/L: 8,5x (mais barato) |
| Volatilidade | Média: 19% | Picos: 25% (mais volátil) |
| Retorno anualizado | -6,4% a.a. | -9,0% a.a. (pior) |
O que aconteceu neste período? Perda de confiança na “Nova Matriz Econômica”, auge da crise no ano eleitoral, com mercado reagindo às pesquisas.
Eleição 2010: Dilma Rousseff vs. José Serra (vencedor: Dilma)
| Métrica | Período de mandato (36 meses) | Ano eleitoral (12 meses) |
|---|---|---|
| Datas | Out/2006 a Set/2009 | Out/2009 a Set/2010 |
| Valuation (P/L) | Média P/L: 10,2x | Média P/L: 11,8x (mais caro) |
| Volatilidade | Picos: acima de 50% (crise) | Média: 21% (menos volátil) |
| Retorno anualizado | +2,9% a.a. | +23,0% a.a. (melhor) |
O que aconteceu neste período? Mandato absorveu a crise global de 2008. Ano eleitoral foi oposto, com otimismo, crescimento forte e certeza de continuidade.
Eleição 2006: Lula vs. Geraldo Alckmin (vencedor: Lula)
| Métrica | Período de mandato (36 meses) | Ano eleitoral (12 meses) |
|---|---|---|
| Datas | Out/2002 a Set/2005 | Out/2005 a Set/2006 |
| Valuation (P/L) | Média P/L: 7,5x | Média P/L: 9,8x (mais caro) |
| Volatilidade | Picos: acima de 35% (crise) | Média: 23% (menos volátil) |
| Retorno anualizado | +37,5% a.a. | +28,0% a.a. (pior) |
O que aconteceu neste período? Mandato promoveu forte recuperação após crise de confiança inicial, consolidando a melhora.
Eleição 2002: Lula vs. José Serra (vencedor: Lula)
| Métrica | Período de mandato (36 meses) | Ano eleitoral (12 meses) |
|---|---|---|
| Datas | Out/1998 a Set/2001 | Out/2001 a Set/2002 |
| Valuation (P/L) | Média P/L: 9,0x | Mínimas P/L: 4,5x (mais barato) |
| Volatilidade | Média: 25% | Picos: acima de 40% (mais volátil) |
| Retorno anualizado | -15,0% a.a. | -17,0% a.a. (pior) |
O que aconteceu neste período? Fim de ciclo de governo, com crise de confiança e o ápice do “Risco Lula”.
Qual padrão 2026 deve seguir?
No levantamento, 2022, 2014 e 2002 mostraram uma bolsa mais barata em ano eleitoral. Para Sobreira, há sinais de que 2026 repita o comportamento de 2014 e 2022, com ambiente desafiador para ativos domésticos.
Três fatores sustentam essa visão: 1) deterioração fiscal, que tende a se acelerar em anos eleitorais; 2) incerteza política e polarização, que colocam em dúvida a continuidade do modelo econômico atual e geram desconfiança; e 3) riscos externos, como tarifas de Trump e juros altos ao redor do mundo, que reduzem o apetite por emergentes.
Segundo Sobreira, esse conjunto deve levar investidores a exigir mais desconto para aplicar no Brasil, barateando ativos ao pagar menos pelo lucro futuro. Apesar das máximas recentes, ele lembra que o P/L do Ibovespa está em 9,6 vezes, abaixo da média histórica de 11 vezes, o que confirma a bolsa ainda barata.
Vai ter rali da bolsa antes disso?
Com o Ibovespa perto dos 150 mil pontos, surge a dúvida: haveria um rali eleitoral na bolsa seguido de um tombo do índice em 2026?
Para Jayme Simão, sócio-fundador do Hub do Investidor, a alta recente não se deve apenas às eleições, mas a fatores como corte de juros nos EUA, dólar fraco atraindo capital estrangeiro e maior alocação em emergentes.
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Sobreira acrescenta que a aproximação entre Lula e Trump poderia trazer efeitos positivos no curto prazo, além da possível queda da Selic no próximo ano, o que pode favorecer o Ibovespa a atingir 150 mil pontos ainda em 2025. Mas alerta: “A melhora externa não muda os problemas internos em 2026, a incerteza fiscal e a polarização política, que são verdadeiros vetores do risco doméstico.”
Ele projeta 2026 parecido com 2014 e 2022: rali em 2025, seguido de volatilidade elevada quando o cenário interno voltar a pesar mais que o externo.
Mesmo se conquistar os 150 mil pontos, a bolsa seguirá barata: o P/L do Ibovespa está abaixo da média histórica e, em dólar, vale 28 mil pontos frente ao pico de 44 mil em 2008, 35% mais barata para o investidor estrangeiro. Em termos reais, descontada a inflação, o índice está no mesmo nível de 2010 — ante a inflação, praticamente não saiu do lugar em 15 anos.
Pesquisas eleitorais podem alongar o rali se indicarem troca de governo, e há espaço para surpresas positivas após o pleito eleitoral. Felipe Miranda, sócio-fundador da Empiricus, lembra 2002 na sua coluna: o ano teve descontos, mas a guinada de Lula da extrema esquerda ao pragmatismo econômico levou o Ibovespa a multiplicar quase seis vezes o capital entre 2002 e 2007, pulando de 11.268 pontos para 63.886 pontos.
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O que geralmente fica barato na bolsa em ano eleitoral?
O estudo de Sobreira mostra que, nos anos de maior desconto do Ibovespa (2014 e 2022), as ações mais afetadas foram estatais e empresas ligadas à economia doméstica. Em 2014, Petrobras (PETR4), Eletrobras (ELET6), Banco do Brasil (BBAS3), Usiminas (USIM5), Gol (GOLL4), Cemig (CMIG4), Bradesco (BBDC4) e MRV (MRVE3) estavam entre as mais descontadas.
Em 2022, o movimento atingiu principalmente Magazine Luiza (MGLU3), CVC (CVCB3), Gol (GOLL4), Azul (AZUL4), IRB Re (IRBR3), Americanas (AMER3), Casas Bahia (BHIA3) e Sabesp (SBSP3).
Segundo o analista, estatais sofrem risco político direto, com possível intervenção do governo em preços, dividendos e investimentos, o que justifica o desconto. Já varejistas, construtoras e aéreas dependem de juros baixos e confiança do consumidor, corroídos em períodos eleitorais.
“Em ciclos eleitorais, estatais concentram os maiores descontos, pela incerteza com políticas públicas, mas podem destravar valor se houver expectativa de governança melhor ou políticas pró-mercado”, afirma Simão.
O padrão oposto são empresas resilientes, que funcionam como porto seguro. Algumas têm receita dolarizada, protegendo contra a desvalorização do real, como Suzano (SUZB3), Vale (VALE3) e Weg (WEGE3). Outras atuam em setores de utilidade pública ou saúde, com receitas estáveis e menos sensíveis a ciclos econômicos, como Isa Energia (ISAE4), Equatorial (EQTL3), RD Saúde (RADL3) ou segmento financeiro, tais como Itaú (ITUB4) e BB Seguridade (BBSE3).
O estudo revelou que, em 2014, as ações mais resilientes foram Ambev (ABEV3), Weg (WEGE3), Klabin (KLBN11), Itaú (ITUB4), RD Saúde (RADL3), Equatorial (EQTL3) e Engie (EGIE3). E, em 2022, Suzano (SUZB3), Vale (VALE3), Weg (WEGE3), Itaúsa (ITSA4), BB Seguridade (BBSE3), ISA CTEEP (TRPL4) — atual ISA Energia (ISAE4) —, Equatorial (EQTL3) e RD Saúde (RADL3).
O que pode ficar barato em 2026?
Para 2026, analistas já mapeiam ações com potencial de valorização ligadas, direta ou indiretamente, ao cenário eleitoral.
Marco Saravalle, estrategista-chefe da MSX Invest, aponta que, em ciclos eleitorais, costumam ter potencial de valorização papéis pagadores de dividendos e com certa previsibilidade. Ou ações que sofreram com endividamento e têm um perfil menos agressivo.
Simão, do Hub do Investidor, vê Petrobras (PETR4) e Banco do Brasil (BBAS3) como opções óbvias, com potencial de ganhos de capital de 30% a 40%, além dos dividendos.
“A Petrobras negocia a 4 vezes lucro e paga dividendos de 10%, mas carrega dúvidas sobre capex (investimentos) e o preço do petróleo. Qualquer sinal de disciplina nesses pontos poderia levar à reprecificação”, diz.
No BB, a inadimplência do agro ainda pressiona, mas sinais positivos podem aparecer no fim de 2025. Ele recomenda compras até R$ 35 (PETR4) e R$ 22 (BBAS3) para que haja margem de segurança para valorização.
Sobreira cita Suzano (SUZB3), Marcopolo (POMO4) e Isa Energia (ISAE4). A Suzano protege contra a desvalorização do real e tem receita dolarizada, a Marcopolo tem forte receita externa, imune ao risco Brasil e às tarifas de Trump.
Já a Isa Energia oferece segurança e receita regulada corrigida pela inflação. “Não é uma empresa de alto crescimento, a valorização é mais limitada a 15% sem considerar os dividendos, mas oferece segurança e renda”, diz Sobreira.
Ele ainda recomenda ficar de olho em Petrobras, Banco do Brasil e Sabesp, mas sem compras imediatas, aguardando preços promocionais no ano eleitoral.
Para quem não é muito fã de eleições, mas quer pechincha, Fernando Bresciani, analista do Andbank, sugere setores menos sensíveis ao pleito e que não sofrem com governos de direita ou esquerda, como petróleo, energia elétrica, carnes, bancos e seguradoras.
Entre os papéis, Bresciani cita Itaú (ITUB4), Bradesco (BBDC4), Eletrobras (ELET6), Copel (CPLE6), Prio (PRIO3), Porto Seguro (PSSA3) e BB Seguridade (BBSE3). “O desconto nesses casos não está ligado à política”, afirma.
Fora do Ibovespa, Saravalle destaca a holding Simpar (SIMH3), sensível aos juros de longo prazo e efeito indireto das eleições. “A companhia aumentou receita e lucro operacional, mas não o lucro líquido. Com queda nas despesas financeiras, o lucro dispara e as ações também”, diz. Ele vê o papel negociando até R$ 7,50.
Veja abaixo as ações que podem ficar baratas pelo ano eleitoral
| Ação | Preço-alvo | Preço-teto | Potencial de valorização | Recomendação | Quem recomenda |
|---|---|---|---|---|---|
| Petrobras (PETR4) | R$ 40 | R$ 35 | 30% a 40% | Compra | Hub do Investidor |
| Petrobras (PETR4) | R$ 31,20 | R$ 22,50 a R$ 24 | 25% a 30% | Neutra | Rocha Opções de Investimentos |
| Banco do Brasil (BBAS3) | R$ 24 | R$ 22 | 30% a 40% | Neutra | Hub do Investidor |
| Banco do Brasil (BBAS3) | R$ 21,88 | R$ 16,50 a R$ 17,50 | 20% a 25% | Neutra | Rocha Opções de Investimentos |
| Suzano (SUZB3) | R$ 68 | R$ 56,50 | 20% ou mais | Compra | Rocha Opções de Investimentos |
| Marcopolo (POMO4) | R$ 10,50 | R$ 8,40 | 25% ou mais | Compra | Rocha Opções de Investimentos |
| Isa Energia (ISAE4) | R$ 30 | R$ 26 | 15% ou mais | Compra | Rocha Opções de Investimentos |
| Sabesp (SBSP3) | R$ 131,25 | R$ 98 a R$ 105 | 20% a 25% | Neutra | Rocha Opções de Investimentos |
Preço-teto: preço máximo indicado para compra pelos analistas
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Compra agora ou faz caixa?
Com 2026 apontando para bolsa barata, a dúvida é: guardar dinheiro em renda fixa e esperar a queda ou começar a comprar de forma fracionada a partir de agora?
Para Sobreira, o ideal é iniciar no fim de 2025 uma rotação gradual de carteira, reduzindo exposição a ativos domésticos e aumentando ações defensivas e dolarizadas.
“Não espere até a eleição para comprar tudo. O ideal é fazer compras parciais ao longo de 2026, aproveitando momentos de pânico para montar posições com preços atrativos”, diz. Ele reforça que manter caixa no Tesouro Selic dá munição para aproveitar oportunidades.
Simão, do Hub do Investidor, concorda e alerta que buscar o “momento perfeito” pode significar perder o rali de valorização do principal índice da bolsa. “Para quem busca descontos eleitorais, faz mais sentido começar gradualmente agora do que esperar um sinal que pode não aparecer”, aconselha.
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