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Ricardo Gozzi

É jornalista e escritor. Passou quase 20 anos na editoria internacional da Agência Estado antes de se aventurar por outras paragens. Escreveu junto com Sócrates o livro 'Democracia Corintiana: a utopia em jogo'. Também é coautor da biografia de Kid Vinil.

ELEIÇÕES NOS EUA

De ameaça a cabo eleitoral: como os erros do governador da Flórida jogam as primárias republicanas no colo de Donald Trump

Saída de Ron DeSantis deixa Nikki Haley como única alternativa a Trump nas primárias do Partido Republicano nos EUA

Ricardo Gozzi
22 de janeiro de 2024
10:07 - atualizado às 8:07
O presidente dos EUA, Donald Trump, parado em frente a um púlpito
O presidente dos EUA, Donald Trump - Imagem: Shealah Craighead/Casa Branca

Quando o governador da Flórida, Ron DeSantis, anunciou a intenção de concorrer nas primárias do Partido Republicano, ele era visto como a principal ameaça interna à candidatura do ex-presidente Donald Trump.

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Agora Trump não precisa mais se preocupar com De Santis. O governador da Flórida anunciou na noite de domingo (21) que desistiu da disputa pela indicação do partido para a disputa da Casa Branca.

Mas não só. Além de desistir, DeSantis declarou apoio à candidatura de Trump. A decisão veio à tona dias depois de uma dura derrota do governador nos caucuses de Iowa e às vésperas das primárias em New Hampshire.

Com a desistência de DeSantis, a ex-embaixadora norte-americana na ONU Nikki Haley restou como a única alternativa a Donald Trump dentro do Partido Republicano.

Os erros que levaram DeSantis a acabar como cabo eleitoral de Trump

O estilo combativo e o conservadorismo exacerbado de Ron DeSantis o posicionaram rapidamente como principal ameaça a Trump dentro de um Partido Republicano dividido.

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O governador da Flórida chegou a liderar pesquisas de intenção de voto dos eleitores republicanos com vistas às primárias.

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Mas o protagonismo durou pouco. O apoio a ele começou a minguar antes mesmo do início do processo.

Analistas políticos apontam alguns erros de estratégia que podem explicar o resultado.

Primeiro, Ron DeSantis tentou apelar ao mesmo tempo aos trumpistas mais fanáticos e aos republicanos que não podem ver o ex-presidente nem pintado de ouro.

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Ninguém disse que seria fácil.

De um lado, Trump é apontado como o grande responsável por uma divisão profunda no Partido Republicano.

O ex-presidente e seus seguidores costumam se referir aos correligionários contrários da Trump como “rinos”, acrônimo para algo como “republicanos de fachada”.

De outro, pesquisas indicam que mais de 70% dos filiados ao partido têm uma visão positiva sobre Trump.

DeSantis, por sua vez, não conseguiu se impor como uma alternativa aceitável para os admiradores do ex-presidente nem se apresentar como o “anti-Trump”.

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Ao mesmo tempo, DeSantis teria entrado tardiamente na campanha, dizem aliados. A situação o teria deixado ainda mais exposto à conhecida língua ferina de Trump.

O governador da Flórida também torrou rapidamente o dinheiro arrecadado com facilidade ao lançar sua candidatura. Isso o forçou a terceirizar uma parte da campanha e descontentou os financiadores de primeira hora.

Seu maior erro, porém, talvez tenha sido outro.

Em diversos momentos da pré-campanha, DeSantis expôs uma falha fatal para qualquer político com ambições maiores: a falta de tato no trato com eleitores de outras regiões dos Estados Unidos.

Sobrou para Nikki Haley?

Com a saída de DeSantis, caberá a Nikki Haley o papel de desafiar Trump em uma estrutura partidária há anos dominada pelos interesses pessoais do ex-presidente.

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Para alguns analistas, trata-se de uma missão quase impossível para a ex-embaixadora de Trump na ONU.

Sondagens indicam que a maioria dos partidários de DeSantis têm Trump como segunda opção de voto nas primárias.

No frigir dos ovos, o próprio DeSantis lançou-se como cabo eleitoral de Trump.

“Ele tem o meu apoio porque não podemos voltar à velha ordem republicana de corporativismo requentado que Nikki Haley representa”, disse o governador da Flórida.

Há quem considere que a decisão joga as primárias republicanas no colo de Trump.

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No entanto, o confronto direto com o ex-chefe é a situação ambicionada por Nikki Haley desde o lançamento de sua pré-candidatura.

Enquanto ela nega qualquer possibilidade de sair como vice de Trump com vistas às eleições de novembro e o acusa pelas derrotas do partido em 2020 e 2022, o ex-presidente agora elogia um DeSantis subjugado e mira exclusivamente na ex-embaixadora.

Segundo ele, Nikki Haley protagoniza uma “aliança profana” com liberais.

Trump lidera pesquisas em New Hampshire

O próximo confronto está marcado para amanhã, quando o Partido Republicano promove eleições primárias em New Hampshire.

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O problema para Nikki Haley é que, embora as primárias estejam apenas começando, ela corre contra o tempo para convencer os republicanos de que o partido precisa de uma alternativa ao personalismo de Donald Trump.

Depois de uma vitória retumbante em Iowa, Trump lidera as pesquisas em New Hampshire com 50% das intenções de voto, segundo a CNN. Nikki Haley tem 39% da preferência.

Realizada antes da desistência de DeSantis, a sondagem ainda mostra o governador como a opção de 6% dos eleitores republicanos do Estado.

No curtíssimo prazo, porém, analistas políticos olham para as primárias na Carolina do Sul, Estado-natal de Nikki Haley, em 24 de fevereiro.

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Uma eventual derrota "em casa" teria o potencial de sepultar precocemente as pretensões da pré-candidata.

*Com informações da Reuters e da CNN.

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