Como investir em Treasuries, os títulos do Tesouro americano – e quando é melhor que comprar dólar ou fundos cambiais
Com juros elevados nos EUA, investimento em Treasuries se tornou mais atrativo, mas sempre há espaço na carteira para os títulos do Tesouro americano; veja como investir

Uma carteira de investimentos bem diversificada deve ter uma parcela no exterior e/ou atrelada ao dólar. Investidores em geral começam essa diversificação internacional pelos fundos cambiais, mas há uma forma que pode ser ainda mais interessante para se expor à moeda americana: os Treasuries, títulos do Tesouro americano.
Os Treasuries são títulos públicos emitidos pelo governo dos Estados Unidos, o que significa que estão entre os investimentos de menor risco do planeta. São títulos que podem muito bem compor a parcela de renda fixa internacional da sua carteira, proporcionando proteção cambial e minimizando a volatilidade do seu portfólio.
Para essas posições estratégicas, que sempre devemos ter na carteira de olho no longo prazo, o investimento em Treasuries é mais interessante do que em fundos cambiais atrelados ao dólar.
Isso porque, além da proteção cambial, os títulos do Tesouro americano ainda pagam juros, o que incrementa o ganho do investidor ou minimiza as suas perdas diante da variação da cotação da moeda americana.
Essa alocação só não faz tanto sentido, segundo especialistas, quando estamos falando de posições mais táticas – apostas momentâneas na alta do dólar ou investimentos de curto e médio prazo, para fazer uma viagem, por exemplo.
Eu falo um pouco mais sobre as vantagens dos Treasuries em relação aos fundos cambiais e à compra direta de dólares nesta outra matéria.
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Como investir em Treasuries
Os títulos do Tesouro americano se mostram especialmente atrativos no momento, dadas as altas taxas de juros nos Estados Unidos e a perspectiva de que não haja novas elevações.
Como esses títulos se comportam de forma parecida com os nossos prefixados, o melhor momento para se posicionar neles é quando os juros estão elevados e não devem subir mais. Eu também falo um pouco mais sobre isso nesta outra matéria.
Embora o investimento em Treasuries tenha se tornado substancialmente mais acessível às pessoas físicas nos últimos anos, a compra direta desses títulos por brasileiros ainda é para poucos, em razão do alto valor inicial do investimento.
Entretanto, há outras duas maneiras de se expor indiretamente ao desempenho dos títulos do Tesouro americano, e uma delas é bastante acessível ao público em geral.
Em todas elas, porém, a liquidez é grande, então o investidor consegue vender a sua posição rapidamente e resgatar seus recursos quando desejar.
Vamos a elas:
ETFs e BDRs de ETFs
A forma mais acessível para a pessoa física investir em Treasuries, em termos de valor de aplicação inicial, é por meio de ETFs, fundos com cotas negociadas em bolsa que replicam o desempenho de índices de mercado.
Neste caso, o investidor deve recorrer a ETFs que sigam índices de Treasuries. Para investir nesses fundos, é preciso ter conta numa instituição financeira que dê acesso ao investimento nas bolsas americanas.
É o caso da já mencionada corretora Avenue, da conta em dólar Nomad, da plataforma de investimentos globais do banco Inter e da conta global de investimentos do C6 Bank. Eu falo um pouco mais dessas contas nesta outra matéria.
Outra forma de aplicar em ETFs gringos é por meio de BDRs, os Brazilian Depositary Receipts, recibos que representam ativos estrangeiros na bolsa brasileira. Para isso, uma conta em qualquer corretora de valores que permita ao investidor operar na B3 serve.
Em ambos os casos pode ser necessário pagar taxas para a negociação, mas há corretoras que oferecem, por exemplo, corretagem e custódia zero, tanto para investimentos locais quanto globais.
Existem hoje oito ETFs de Treasuries geridos pela BlackRock (série iShares) com BDRs na bolsa brasileira, como você pode ver na lista a seguir. O último da tabela é recomendado na série Os Melhores Fundos de Investimento, da Empiricus: o iShares US Treasury Bond ETF (BGOV39), que tem uma taxa de administração de apenas 0,08% ao ano.
| Nome do ETF | Código de negociação na B3 |
| iShares 0-3 Month Treasury Bond ETF | BSGO39 |
| iShares 1-3 Year Treasury Bond ETF | BSHY39 |
| iShares 20 Year Treasury Bond ETF | BTLT39 |
| iShares 3-7 Year Treasury Bond ETF | BIEI39 |
| iShares 7-10 Year Treasury Bond ETF | BIYT39 |
| iShares Short Treasury Bond ETF | BSHV39 |
| iShares Treasury Floating Rate Bond ETF | BTFL39 |
| iShares US Treasury Bond ETF | BGOV39 |
Investimento direto nos títulos do Tesouro americano
Outra forma de investir em Treasuries é a compra direta dos títulos por meio de uma corretora que dê acesso a investimentos de renda fixa nos Estados Unidos, como a Avenue.
O problema dessa modalidade é o valor de investimento inicial: por volta de US$ 50 mil, o equivalente hoje a cerca de R$ 250 mil. Não é todo mundo que tem esse valor disponível apenas para diversificação no exterior.
Uma das grandes vantagens de investir diretamente em títulos do Tesouro americano, no entanto, é que alguns deles pagam cupom, isto é, uma remuneração periódica, quase sempre semestral, o que pode ser interessante para quem gostaria de receber uma renda em dólar.
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Investimento via fundos de renda fixa estrangeiros que aplicam em Treasuries
Finalmente, é possível investir em títulos do Tesouro americano via fundos de renda fixa globais que tenham exposição a esse tipo de ativo. Estamos falando agora de fundos abertos, do tipo que permite aplicações e resgates, e não de fundos fechados como os ETFs, que têm cotas negociadas em bolsa.
Atualmente, diversas plataformas de investimento de corretoras e bancos brasileiros já têm fundos estrangeiros nas suas prateleiras. Infelizmente, porém, esses ativos ainda são restritos a investidores qualificados, pois investem 100% do seu patrimônio lá fora.
Isso irá mudar a partir de outubro deste ano, quando entram em vigor novas regras para fundos de investimento que abrem fundos globais para o público geral.
Além do BDR de ETF BGOV39, a Empiricus também tem uma recomendação de fundo aberto de Treasuries, que pode ser encontrado na plataforma de investimentos do Itaú. Trata-se do Itaú Tesouro Americano USD 10 anos FIC Multimercado.
Embora restrito a investidores qualificados, seu valor de aplicação inicial é de apenas R$ 1, e a taxa de administração é de 0,5% ao ano.
De olho no Leão!
É preciso levar em conta que cada modalidade de investimento citada nesta matéria é tributada de uma forma, e isso pode fazer diferença dependendo do quanto você pretende investir e com que frequência movimentaria sua aplicação em Treasuries.
No caso dos fundos globais oferecidos em plataformas brasileiras, a tributação é a mesma dos fundos de investimento brasileiros de multimercados e renda fixa, que segue aquela tabela regressiva cujas alíquotas variam de 22,5% a 15% a depender do prazo de aplicação (de menos de seis meses a mais de dois anos). Não há, portanto, hipótese de isenção.
Já os Treasuries e os ETFs comprados diretamente lá fora seguem a tributação para investimentos no exterior. O envio de recursos para fora do Brasil para investir requer uma conversão cambial sujeita a um IOF de 0,38%.
Os lucros com a venda dos Treasuries e cotas de ETFs, bem como os juros recebidos na forma de cupom, são considerados ganhos de capital e estão sujeitos à cobrança de imposto de renda.
Isso significa que vendas de um mesmo tipo de ativo inferiores ao equivalente a R$ 35 mil por mês são isentas, mas acima deste valor a tributação é, geralmente, de 15%. O recolhimento do IR é de responsabilidade do próprio investidor.
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A partir do ano que vem, porém, essa regra deve mudar. Passarão a ficar isentos somente os rendimentos (não mais as vendas) inferiores ao equivalente a R$ 6 mil no ano. Acima desse valor, os lucros serão tributados em 15% (até R$ 50 mil) ou 22,5% (acima de R$ 50 mil). Mais detalhes sobre isso aqui.
Finalmente, os BDRs são tributados de forma muito mais parecida com as ações negociadas na B3, embora sem aquela isenção para vendas inferiores a R$ 20 mil num único mês.
Isto significa que lucros com a venda de BDRs são sempre tributados, e a alíquota é de 15% para as operações comuns e 20% para as operações day trade (quando a compra e a venda ocorre no mesmo dia). O recolhimento também é de responsabilidade do investidor.
Mas aqui entra uma vantagem que as demais modalidades não têm: a possibilidade de abater prejuízos dos lucros tributáveis de forma a pagar menos IR, desde que os ganhos e as perdas tenham sido gerados por ativos de bolsa tributados da mesma maneira. No caso dos BDRs, ações, ETFs e derivativos também seguem as mesmas regras de tributação.
Atenção para os riscos!
Antes de investir é preciso ter em mente que há dois fatores que podem fazer o seu investimento em títulos do Tesouro americano oscilar: a variação cambial, isto é, a flutuação do dólar ante o real; e a marcação a mercado – afinal, se os papéis podem se valorizar quando há perspectivas de queda nos juros, eles também podem se desvalorizar diante de uma expectativa de alta nos juros.
Ou seja, apesar de ser um investimento de renda fixa, isso não significa que seus títulos vão apenas apresentar variações positivas. Haverá flutuação no dia a dia conforme variáveis de mercado como câmbio e juros.
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