A realidade fala mais alto: considerações geopolíticas e econômicas sobre o futuro do petróleo
Os movimentos recentes nos mercados financeiros globais sinalizam que o preço do barril de petróleo deve ficar elevado por mais tempo

Não adianta espernear e gritar para o céu que o petróleo tem seus dias contados e que será substituído no futuro.
A grande verdade é que a realidade fala mais alto, principalmente no curto prazo.
Sim, a transição energética é real e, muito provavelmente, caminhamos para uma sociedade menos dependente de combustíveis fósseis e predominantemente renovável.
Até lá, porém, a jornada é longa.
Justamente por isso somos hoje e seremos por algum tempo tão associados ao mercado de petróleo.
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O corte de produção de petróleo pela Opep+
Mais recentemente, por exemplo, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo e Aliados (Opep+) tornou o trabalho das autoridades monetárias globais mais difícil depois dos cortes inesperados na produção de petróleo.
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Com isso, apesar de todo o foco em desacelerar os ganhos dos preços ao consumidor, alguns fatores estão fora do controle dos bancos centrais, inclusive do todo poderoso Federal Reserve, dos EUA.
Foi também um lembrete de que nem todos estão indo na mesma direção. As nações produtoras de petróleo, principalmente a Arábia Saudita, têm pouco tempo, se é que têm algum, para dar espaço à luta contra a inflação.
Os preços do petróleo parecem estar se estabilizando por enquanto, mas as consequências do corte da OPEP+ já estão definidas para tornar a tarefa de reduzir a inflação um pouco mais difícil.
Ainda assim, não se trata de um desastre.
Afinal, nos níveis atuais, os preços do petróleo seguem abaixo de onde estavam no ano passado.
Vivemos hoje em um mundo no qual o preço do barril deverá permanecer acima de US$ 80, conforme veremos na figura a seguir.
Esse tipo de preço pode apontar para taxas de juros em diferentes regiões mais altas por mais tempo.
O Fed há muito enfatiza a necessidade de monitorar os dados, mas também enfrenta fatores externos, como o estresse bancário e os preços do petróleo agora mais altos.
Note o rali recente da faixa dos US$ 70 por barril até os atuais US$ 85. O movimento foi fruto do corte de produção em mais de um milhão de barris por dia a partir do mês de maio.
Sim, é bem abaixo dos US$ 120 com que flertou logo depois do estouro da guerra na Ucrânia, mas ainda é um nível importante. Agora, com os preços do petróleo subindo novamente após o anúncio do corte na produção, o sentimento pode mudar.
EUA precisam recompor reservas estratégicas de petróleo
Ao mesmo tempo, os EUA têm que abastecer novamente a Reserva Estratégica de Petróleo após a venda de 180 milhões de barris no ano passado para debelar a inflação, ainda que artificialmente.
A secretária de Energia, Jennifer Granholm, disse em março que pode levar anos para atingir esse objetivo, sendo que o patamar atual de preço pode dificultar a recompra de petróleo este ano.
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Influência do Ocidente sobre a Opep está em baixa
Em um mundo de alianças geopolíticas em constante mudança, a Arábia Saudita estabeleceu os níveis de produção de petróleo em coordenação com a Rússia.
Eles também recorreram à China para intermediar um acordo para aliviar as tensões com o rival regional Irã.
Tudo serve para mostrar que a influência ocidental sobre a Opep+ está em seu ponto mais baixo em décadas.
Aliás, a geopolítica do petróleo sofreu uma reviravolta nos últimos três anos, com o surgimento de um elo entre Arábia Saudita e Rússia com o potencial de causar uma série de problemas para a economia dos Estados Unidos e seus aliados.
O movimento da Opep+ aponta a trajetória provável dos preços do petróleo nos próximos anos.
Em outras palavras, a maior conclusão é que a Arábia Saudita está se afastando da órbita de Washington.
Quem ganha e quem perde com o petróleo
A maioria dos analistas agora antecipa que os preços do petróleo ficarão em média acima de US$ 80 o barril nos próximos anos, bem acima dos US$ 58 observados entre 2015 e 2021.
Para a economia global, a oferta de petróleo mais baixa e os preços mais altos são más notícias. Os grandes exportadores são os grandes vencedores, claro.
Para os importadores, como a maioria dos países europeus, a energia mais cara é um golpe duplo – arrastando o crescimento mesmo com o aumento da inflação. Algo curioso é que os EUA ficam em algum lugar no meio.
Como grande produtor, ela se beneficia quando os preços sobem. Mas esses ganhos não são amplamente compartilhados, principalmente por conta da inflação.
Com isso, vejo espaço para manutenção de três vetores nas carteiras dos investidores. O primeiro é o de inflação, por meio de títulos indexados ao IPCA+, para capturar a manutenção de preços elevados por mais tempo.
O segundo se baseia em montar posição em exportadoras de petróleo, que ainda se mostram um bom veículo nesse patamar de preço do barril.
Por fim, gosto de ouro em ambientes mais inflacionários, principalmente pelo crescente risco de recessão nos países centrais (bom mecanismo de proteção).
Tudo isso, claro, feito sob o devido dimensionamento das posições, conforme seu perfil de risco, e a devida diversificação de carteira.
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