Em busca de um porto seguro: Como o ouro pode proteger seus investimentos em meio a uma crise bancária global
Medo de recessão, expectativa pelo fim do aperto monetário nos EUA e crise bancária induzem novo movimento de compra do metal precioso

Vivemos um momento paradigmático do ponto de vista histórico. A realidade pós-pandêmica nos impactou tremendamente em diferentes sentidos, sendo o mais destacado deles a inflação, que demandou uma postura bem contracionista de diferentes autoridades monetárias ao redor do mundo.
Como consequência, há um grande temor de que estejamos nos aproximando de uma recessão, uma vez que as condições financeiras estão cada vez mais restritivas.
Caminhar para uma crise não seria o problema, a dificuldade está em saber o início dela, bem como sua profundidade e duração. Aqui reside a grande interrogação.
O ouro reluz em março
Em momentos de muita incerteza, os investidores costumam recorrer ao que chamamos de "safe havens" (portos seguros, em tradução livre) tradicionais, dos quais chamou a atenção o ouro de novembro do ano passado para cá, especialmente neste mês de março que já caminhamos para o final.
A volatilidade do ouro
Antes, vale a pena recapitular um pouco.
Desde janeiro de 2020, os preços do ouro têm estado relativamente voláteis, com vários eventos e fatores influenciando seus movimentos.
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No primeiro trimestre de 2020, os preços do ouro experimentaram uma alta acentuada à medida que os investidores buscavam ativos portos-seguros em meio ao surto da pandemia de Covid-19. Os preços continuaram a subir até pelo o final de 2020, quando começaram a experimentar mais volatilidade.
Em 2021, preocupações com a inflação e mudanças na política monetária do Federal Reserve dos EUA alteraram o comportamento do ouro.
Com a pressão, os preços do ouro atingiram seu menor patamar em seis meses, por volta de US $ 1.680 por onça, em março de 2021, antes de se recuperar um pouco na segunda metade do ano. Ao final de 2021, os preços do ouro voltaram ao patamar de US$ 1.800 a onça.
Por fim, em 2022, a coisas se complicaram bastante. Normalmente, o ouro tem uma relação íntima com o yield (taxa de rendimento) das Treasuries americanas (título do Tesouro dos EUA) e com o dólar. Quando a taxa sobe ou o dólar se fortalece, o ouro se enfraquece. O contrário também é verdadeiro.
Bem, no ano passado, as duas coisas aconteceram. O Federal Reserve começou a subir os juros, o que fortaleceu o dólar. Assim, o ouro perdeu atratividade relativa e foi buscar o patamar de US$ 1.650 por onça entre setembro e novembro.
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Contudo, as coisas mudaram bastante de dezembro para cá.
O medo de uma recessão, a expectativa pelo fim do aperto monetário nos EUA e a recente crise dos bancos estrangeiros (nas últimas duas edições desta coluna, tive a oportunidade de conversar um pouco com vocês sobre a crise bancária que aflige os EUA e a Europa) provocaram um novo movimento de compra do metal precioso, que voltou a flertar com patamares próximos de US$ 2.000 por onça.

Em outras palavras, o ouro recuperou o ímpeto de alta após uma queda do Índice do Dólar (mede a força da moeda americana), que coloca a moeda dos EUA contra uma cesta de seis principais concorrentes que incluem o euro e o iene.
Como o Fed pode ajudar o ouro
Paralelamente, o Federal Reserve elevou os juros em mais 25 pontos como esperado em sua reunião de março, reiterando seu compromisso de reduzir a inflação e não cortar as taxas pelo menos neste ano.
Entretanto, após a crise bancária dos EUA que abalou os mercados financeiros nas últimas duas semanas, o banco central também sugeriu uma possível pausa em seu ciclo de alta, provocando especulações de que poderia fazer apenas mais uma alta.
O Fed aumentou a taxa de juros nove vezes nos últimos 12 meses, acrescentando 475 pontos-base às taxas, que foram reduzidas para apenas 25 pontos-base após a pandemia de coronavírus, que eclodiu em março de 2020.
Uma pausa nos aumentos do Fed pode significar um momento de maior fragilidade para o dólar e ser extremamente positivo para o ouro.
Com isso, o ouro parece posicionado para encontrar uma casa acima do nível de US$ 2.000 por onça. Uma corrida para registrar tal território não está tão longe e pode acontecer se as preocupações com a estabilidade financeira não diminuírem.
Tenho trabalhado com a chance de o metal poder buscar algo entre US$ 2.100 e US$ 2.200 por onça no cenário otimista, podendo eventualmente corrigir para US$ 1.800 em um contexto mais pessimista (depois do rali recente, correções, ainda que breves, são possíveis).

Setor bancário em crise
Autoridades dos EUA e da Europa alertaram no fim de semana que o setor bancário estava sendo monitorado de perto quanto a qualquer sinal de uma possível crise de crédito.
A mais recente fonte de preocupação do mercado veio do Deutsche Bank, cujas ações despencaram na semana passada, depois que o CDS (seguro contra calote para credores) do banco disparou para perto da máxima em cinco anos.
Os mercados estão temerosos com o colapso de qualquer banco europeu depois que o Credit Suisse foi adquirido pelo UBS em um acordo de emergência intermediado por reguladores.
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Para piorar, nos últimos dias, o presidente do Fed de Minneapolis, Neel Kashkari, disse que ainda é muito cedo para avaliar que tipo de impacto uma crise bancária terá na economia e como isso pode influenciar as decisões sobre as taxas de juros. Uma crise bancária provavelmente resultará em menor crescimento e inflação.
O ouro e outros metais preciosos se recuperaram nas últimas semanas, à medida que os temores de uma crise bancária aumentaram as apostas de menos aperto nas políticas monetárias neste ano.
Por isso, é provável que o ouro permaneça sustentado nos próximos dias em meio a temores persistentes de uma crise bancária.
Tudo isso, claro, feito sob o devido dimensionamento das posições, conforme seu perfil de risco, e a devida diversificação de carteira, com as respectivas proteções associadas.
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