Por que o dono da rede de supermercados Sonda se sente traído por Neymar e vai levar o jogador ao tribunal
O magnata do varejo Delcir Sonda investe no futebol por paixão, mas agora busca US$ 35 milhões em processo contra Neymar por considerar que foi enganado na época da venda do jogador para o Barcelona

Às vésperas da Copa do Mundo, Neymar está prestes a sentar no banco dos réus de um tribunal espanhol, encarando até mesmo uma pena de prisão.
Começa, nesta segunda-feira (17), o julgamento de uma ação movida por Delcir Sonda, magnata do varejo brasileiro que também faz as vezes de investidor no mundo da bola.
Aos 74 anos, o dono da rede de supermercados gaúcha Sonda considera que foi enganado por Neymar, em quem investiu ainda no início da carreira.
Agora, o empresário busca ao menos US$ 35 milhões em reparações, além de penas de prisão para Neymar, seus pais e uma série de executivos envolvidos na venda do jogador para o Barcelona.
Apesar da soma gorda, porém, Delcir Sonda alega que a questão não é o dinheiro, mas sim a busca da verdade no caso. Uma longa reportagem do jornal The New York Times publicada neste domingo (16) conta a história da rusga do empresário com Neymar e sua família - para quem lê bem em inglês, aliás, o texto vale muito a pena.
Aposta em Neymar
Além do varejo supermercadista, Delcir Sonda também investe em jogadores de futebol por meio da empresa DIS, que fundou junto com seu irmão Idi. A diversificação também foi uma forma que o empresário encontrou de aliar os negócios a uma de suas paixões.
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Sonda viu Neymar jogar em São Vicente, no litoral paulista, muito antes de o jogador ser descoberto pelo Santos, e soube imediatamente que um dia o garoto seria uma estrela. Anos depois, o empresário teve a oportunidade de fazer uma aposta no jovem prodígio do futebol.
Era 2009, e o Santos buscava uma forma de manter Neymar no clube, com medo de perdê-lo para algum time europeu. O arranjo encontrado foi oferecer a Neymar o controle de 40% dos seus direitos econômicos. Sonda, então, ofereceu ao jogador e sua família R$ 5 milhões - na época, o equivalente a cerca de US$ 2 milhões - pela fatia.
A negociação não foi fácil, mas Neymar e seu pai acabaram assinando o contrato. Ao investimento se seguiram anos de convivência entre o empresário, o jogador e sua família, mas o clima começou a azedar quando o atleta passou a ser assediado por outros agentes e clubes.
Pressão para vender sua fatia
Na época, diz Sonda, ele começou a ser pressionado pelo pai de Neymar para vender de volta os direitos econômicos do filho. Neymar pai chegou a ofertar 8 milhões de euros pela fatia que o empresário detinha.
Observando as reportagens que alegavam que times europeus estavam dispostos a pagar até 70 milhões de euros pelo jogador, Sonda não estava disposto a ceder às pressões.
Porém, o Santos acabou concedendo a Neymar pai uma carta que lhe dava o direito de negociar o preço de transferência do seu filho com outros clubes.
Dessas negociações surgiu um acordo com o Barcelona que Sonda e o Santos desconheceram por anos, em que o clube catalão concordava em pagar 10 milhões de euros aos pais de Neymar e mais 30 milhões de euros quando o jogador assinasse com o time no fim do seu contrato com o Santos, em 2013.
A DIS chegou a entrar em contato com o Barcelona para saber se os rumores sobre seu negócio com Neymar eram verdadeiros, mas o clube negou.
Em 2013, o Santos concordou em vender os direitos de Neymar para o Barcelona por 17,1 milhões de euros. Mas a Justiça Espanhola suspeita que o valor da transferência do jogador tenha, na verdade, superado os 80 milhões de euros, espalhados por diferentes contratos.
Seja como for, a questão é que a quantia recebida por Sonda ao final do negócio não contemplava os pagamentos feitos "por fora". No final, a DIS ficou com apenas 6,8 milhões de euros, e agora o empresário está disposto a ir atrás do que considera que lhe é de direito.
'Ele não é Pelé'
A reportagem do The New York Times tentou contato com o Barcelona e os advogados de Neymar, mas não obteve resposta. A defesa, no entanto, alega que a corte espanhola não tem jurisdição para julgar o caso, uma vez que a negociação ocorreu no Brasil, entre brasileiros.
Em uma audiência preliminar em Madri, em 2016, Neymar chegou a alegar que não conhecia Sonda, o que, segundo o empresário, doeu, lembrando que ambos tiveram uma convivência próxima.
Ainda segundo a reportagem, o Barcelona chegou a tentar resolver a disputa e entrar num acordo com Sonda, ao longo dos anos, mas o empresário recusou. "Eu poderia ter aceitado o dinheiro deles, mas isso não é importante. Eu preciso saber o que aconteceu", disse ao NYT.
Neymar deverá comparecer ao tribunal pelo menos no primeiro dia. Sobre o fato de o julgamento estar ocorrendo às vésperas da Copa do Mundo, Delcir Sonda disse não ser ele o responsável por decidir o tempo da Justiça e acrescentou: "eu não acho que eles [a Seleção Brasileira] vão sentir falta do Neymar. Se ele fosse o Pelé, seria um problema. Mas ele não é o Pelé."
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