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Conheça também os principais candidatos a Sociedade Anônima de Futebol e para que tipo de clube ela pode ser mais interessante
Houve quem dissesse que Ronaldo Fenômeno pagou caro pelo Cruzeiro ao desembolsar R$ 400 milhões pelo clube que o revelou para o futebol. Também há quem diga que o R9 pagou pouco.
Ainda é cedo para saber se ele vai ganhar muito dinheiro ou arcar com um grande prejuízo. O mesmo vale para John Textor, o empresário norte-americano que comprou o Botafogo.
Isso porque estamos diante de casos até agora sem paralelo. Cruzeiro e Botafogo foram os primeiros clubes brasileiros a aderirem à chamada Sociedade Anônima do Futebol (SAF).
Por se tratar de uma lei vigente há menos de um ano e de as SAFs ainda se encontrarem em estágio embrionário, restam mais dúvidas do que certezas.
Será que o Fenômeno enlouqueceu? Será que é um negócio lucrativo? Só gente muito rica pode investir? E a reação dos torcedores? Como fica para o clube?
Em uma tentativa de achar respostas para essas e outras dúvidas, o Seu Dinheiro foi atrás de mais informações sobre as SAFs.
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Na primeira delas, especialistas procurados pelo repórter Ricardo Gozzi explicaram quem pode - e quais as condições para - investir em uma SAF.
Na segunda, eles explicam por que o tamanho do clube faz toda a diferença na hora de se decidir pela possibilidade de transformação em Sociedade Anônima de Futebol.
A resposta é sim. “Não há nada na legislação que impeça um investidor pessoa física de colocar seu dinheiro numa Sociedade Anônima de Futebol”, diz Eduardo Perazza, sócio do Machado Meyer Advogados.
No caso dos clubes brasileiros, a maioria é formada por instituições sem fins lucrativos. Por isso, a lei exige que o Conselho Deliberativo de um clube aprove a cisão entre a área social e o departamento de futebol.
Feita a cisão, pessoas físicas e jurídicas e fundos de investimento estão habilitados a participarem de uma SAF.
Também não há nada que impeça um grupo de torcedores-investidores ou integrantes de uma torcida organizada de se cotizarem para comprar o departamento de futebol de seu clube de coração.
“É preciso aparecer com dinheiro e com um projeto convincente, tanto no âmbito esportivo como no de negócio”, resume o sócio do Machado Meyer. Afinal, será preciso persuadir o Conselho Deliberativo de que o clube terá mais a ganhar do que a perder se aprovar a cisão.
Um exemplo disso é a Chapecoense. O clube catarinense atravessa dificuldades financeiras desde a tragédia aérea que resultou na morte de atletas, membros da comissão técnica e dirigentes em novembro de 2016.
No fim de 2021, os conselheiros da Chape aprovaram por unanimidade a cisão da área social e do departamento de futebol, abrindo caminho para a formação de uma SAF. O que não há até o momento é um investidor interessado.
Quando surgir esse investidor, será colocada à prova a única ressalva feita pelos conselheiros do clube: a de que qualquer proposta seja submetida à apreciação do conselho deliberativo.
Uma das principais inovações da lei é a debênture fut. Em resumo, a SAF terá a possibilidade de emitir dívida para levar seus projetos adiante.
Pode ser a construção de um centro de treinamento ou a contratação de jogadores que levem o time a ôto patamá.
“A exigência é que os recursos sejam empregados nas atividades da SAF”, explica Perazza, da Machado Meyer.

Em caso de interesse nas debêntures, bastará à SAF registrar a emissão na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), informou a autarquia ao ser consultada pelo Seu Dinheiro.
Quando tudo estiver ajustado, o clube poderá recorrer ao mercado de capitais e qualquer pessoa ou empresa poderá entrar no negócio e tornar-se credora da SAF.
Enquanto a debênture fut é um instrumento financeiro admitido pela legislação que criou a figura jurídica da SAF, não há clareza sobre a possibilidade de emissão de ações - ainda que a lei não contenha nenhuma restrição a essa hipótese.
Grandes clubes europeus abriram o capital no decorrer das últimas décadas. Para muito além dos resultados operacionais e dos lucros, os papéis dos times de futebol têm um fator adicional de risco e volatilidade: os resultados em campo.
“A SAF é hoje uma sociedade anônima fechada”, diz Perazza. “A lei não aborda nenhum regime específico para emissão de ações”, acrescenta.
O sócio do Machado Meyer Advogados considera que a abertura de capital está no radar. Mas há uma série de adequações necessárias para tornar possível a emissão de ações no mercado financeiro, a começar pela conversão da SAF em companhia de capital aberto — como uma Vale ou um Itaú.
Em relação à abertura de capital na bolsa, a principal questão é se esta seria uma possibilidade verossímil. O sócio responsável pela área de Esporte Total da BDO, Carlos Aragaki, acredita que, no momento atual, não é o caso.
Segundo ele, tanto as emissões de dívida quanto de ações demandariam algumas condições que seriam atendidas somente por clubes de massa e grande fluxo de caixa.
“Emitir debêntures e ações agora é só um sonho”, afirma Aragaki. “Qual vai ser a promessa mágica da SAF aos acionistas?”, questiona.

Na avaliação de Aragaki, no cenário atual do futebol brasileiro, o espaço para crescimento de receita é muito restrito. “Poucos clubes estariam em condições, hoje, de abrir o capital”, afirma.
Para o executivo, tanto a emissão de dívida quanto a de ações tendem a ficar restritas a clubes de grande torcida E eles não seriam necessariamente os principais interessados no mecanismo da SAF.
Pequeno, médio ou grande? O porte dos clubes brasileiros faz diferença na hora de se decidir pela possibilidade de transformação em Sociedade Anônima do Futebol.
Os especialistas consultados pelo Seu Dinheiro acreditam que sim.
À medida que mais informações sobre as SAFs vêm à tona, fica mais claro que a cisão entre a área social e o departamento de futebol é mais interessante para clubes pequenos e médios do que para os grandes.
“Ainda é um mercado novo, mas, neste primeiro momento, a transformação em Sociedade Anônima de Futebol parece um caminho mais vantajoso para os clubes pequenos e médios, principalmente se a finalidade do investidor for o lucro.”
Carlos Aragaki, sócio responsável pela área de Esporte Total da BDO
Apesar de, até o momento, os negócios confirmados envolverem dois dos mais tradicionais times do futebol brasileiro, a única outra negociação confirmada em andamento entre os grandes tem o Vasco como protagonista.
Nas transações envolvendo os grandes, o que eles parecem ter em comum é uma situação financeira periclitante aliada a uma grande dificuldade de geração de caixa.
“Quem bate primeiro na porta são os que precisam de reestruturação”, diz Eduardo Perazza, sócio da área de contencioso do Machado Meyer Advogados. “Os dirigentes dos outros clubes estão monitorando a situação, principalmente a reação dos torcedores.”
Um fator relevante de preocupação dos dirigentes que se veem hoje na posição de observadores é a reação das torcidas.
Exemplo disso foi a resposta do diretor financeiro do Corinthians, Wesley Melo, ao ser questionado sobre a possibilidade de o clube adotar o modelo.
“A torcida do Corinthians é muito peculiar. E do ponto de vista financeiro e estratégico, não vejo nenhuma necessidade neste momento. Vamos ver o que vem de experiência para os próximos anos”, declarou ele durante entrevista coletiva no início da temporada de 2022.
No Cruzeiro de Ronaldo, a dispensa do goleiro Fábio desencadeou protestos ruidosos entre os torcedores. Nos corredores do clube, a demissão de funcionários com décadas de trabalho dedicado à Raposa também causou mal-estar.
“O clube ter um dono pode ser muito complicado para os dirigentes atuais. Mesmo com altas dívidas, se o clube tiver liquidez, pra que lidar com isso agora? No fim do dia, a transformação em SAF por si não vai fazer milagre.”
Eduardo Perazza, sócio da área de contencioso do Machado Meyer Advogados
É esse entendimento que mantém dirigentes de clubes como Corinthians, Santos, São Paulo, Fluminense, Grêmio e Bahia na posição de observadores.
Diversos clubes pequenos e médios já se movimentam para cindir suas respectivas áreas sociais do departamento de futebol.
A Chapecoense já deu esse passo. Também causou surpresa o fato de o Juventus estar perto de ser convertido em SAF.
Símbolo do futebol-raiz na cidade de São Paulo, o conselho deliberativo do Moleque Travesso prepara-se para votar o tema. E já conta com uma empresa interessada. É o grupo italiano Almaviva, do setor de tecnologia da informação.
A cada dia que passa, a lista de clubes convertidos ao novo formato de gestão do futebol ganha novos nomes.
América-MG, Chapecoense, Coritiba, Figueirense e Gama já alteraram seus respectivos estatutos para cindir a área social do departamento de futebol e agora buscam investidores.
Com Juventus e Vasco preparando-se para votar a conversão em SAF, outros times mencionados na imprensa esportiva como possíveis candidatos à mudança são Avaí, Londrina, Joinville, Portuguesa e Tupi-MG.
Além deles, um clube que sempre atrai comentários quando se fala em inovações no modelo de gestão é o Athletico Paranaense.
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