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A divulgação da inflação mais alta para o mês de março em 28 anos assustou os investidores e pode fazer com que a Selic termine 2022 bem acima dos 12,75% ao ano prometidos pelo Banco Central
Depois de semanas se ajustando aos sinais de que o Banco Central brasileiro deve encerrar em breve a sua trajetória de alta da Selic, o mercado financeiro brasileiro tomou um bom banho de água fria. Mesmo com a atuação agressiva do BC nos últimos 12 meses, a inflação segue mais forte do que o esperado.
Com alta expressiva nos preços de combustíveis e no segmento de alimentação no domicílio, o índice de preço ao consumidor amplo (IPCA) avançou 1,62%, bem acima da mediana das expectativas dos analistas de 1,35%.
O indicador de difusão, que mede o percentual de produtos e serviços em crescimento ou queda, foi de 76%. Em outras palavras, o índice captou o que você sente quando vai ao supermercado: o preço de quase tudo está aumentando, e esse é um sinal de descontrole inflacionário.
A reação no mercado financeiro foi imediata. Para muitos economistas, o Copom não conseguirá concretizar o plano desenhado na última reunião e interromper o ajuste da Selic em “apenas” 12,75% ao ano no próximo encontro. Na última sexta-feira (08), a curva de juros teve uma sessão de grande pressão.
Se antes da divulgação do indicador os investidores olhavam para os eventos internacionais com algum distanciamento e desconfiança, isso agora não é mais possível. A crise no leste europeu e a iminente aceleração da alta do juro nos Estados Unidos são ameaças reais.
Depois que o susto com a inflação foi absorvido, conversei com alguns especialistas do mercado sobre o que muda no cenário – Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos; Marcio Schalch, gestor de multimercados da Neo Investimentos; Licinio Neto, gestor da Ajax Investimentos e Gustavo Arruda, do BNP Paribas.
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Alguns especialistas acreditam que podemos estar perto de ver uma mudança de postura e atuação do Banco Central brasileiro. Mas não na reunião de maio. O BC deve seguir com a alta contratada de 1 ponto percentual no último comunicado e ganhar mais tempo para decidir o que fazer.
Confira cinco razões que podem levar o BC a elevar ainda mais a Selic e uma que pode manter o plano de voo como está.
O primeiro ponto a ser considerado sobre a política monetária atual é que ela foi anunciada muito recentemente e em meio a uma grande onda de incertezas. O BC fez isso abrindo mão das formas tradicionais de calcular as variáveis macroeconômicas e optou por adotar um cenário alternativo como base.
Quando o BC brasileiro sinalizou que poderia encerrar o ciclo de ajuste, no dia 16 de março, a guerra na Ucrânia não havia completado um mês de existência e o Federal Reserve ainda dava sinais vagos sobre o caminho que seguiria para conter a inflação que também preocupa nos Estados Unidos.
O principal ponto do cenário alternativo adotado pela entidade é o preço do barril de petróleo a US$ 100, mas não é o fator que mais preocupa a economista Carla Argenta. Existem outras questões a serem levadas em conta para manter o panorama imaginado em pé.
O Relatório Trimestral de Inflação (RTI) mencionou que o BC espera que o Fed termine o ano com uma taxa de juros de 1,75%. O que parece improvável depois dos últimos esclarecimentos do BC americano e os sinais de que o conflito no leste europeu está longe de ter um desfecho positivo, por mais que as últimas semanas tenham envolvido negociações bilaterais.
De olho na inflação nos Estados Unidos, a ata da última reunião do Federal Reserve deixou claro que a maior parte dos dirigentes defendem o fim das compras de títulos de forma mais abrupta. Eles também querem uma elevação mais rápida dos juros, o que deve levar a taxa acima da casa dos 2% ao ano, longe do cenário-base do BC.
Para defender o cenário alternativo como base para a tomada de decisões, o Banco Central também fez ajustes nas expectativas de inflação de curto prazo.
Em vez de acompanhar as projeções colhidas pelo boletim Focus, o BC adotou uma margem de segurança. No Relatório Trimestral de Inflação, ficou indicado que a expectativa para os meses de março, abril e maio era superior ao esperado pelos analistas. Mas não foi o suficiente.
A surpresa no mês de março também pegou o Banco Central e superou a projeção em mais de 0,60 ponto percentual, deixando um espaço pequeno para os próximos meses.
Carla Argenta, da CM Capital, acredita que mesmo com a revisão da bandeira inflacionária, que deve ser absorvida nos números de abril e maio, a defasagem com relação à realidade pode levar a um reajuste de planos.
A alta do IPCA de março trouxe duas surpresas assustadoras para os economistas – o número bruto foi muito superior ao esperado e os detalhes mostram uma grande pressão inflacionária que deve persistir nos próximos meses.
Quando as expectativas de inflação para 2022 começaram a ser desenhadas, havia o entendimento de que o repasse da alta dos custos para o consumidor final seria limitado pela queda na demanda. Mas não foi isso que aconteceu.
Após os dois primeiros anos da pandemia, a inflação do setor de serviços passou a ser inevitável. Mesmo com o baixo consumo, o que os economistas esperavam como contenção inflacionária acabou não funcionando.
Com a renda deteriorada, a procura caiu, mas os profissionais não conseguem mais manter os preços sem ajustes significativos. Um dos exemplos mais preocupantes foi o do setor de educação, que segue pressionando de forma negativa o IPCA mesmo após o período clássico de reajuste de preços.
Em outras palavras, diversos grupos e itens seguem pesando negativamente no indicador, mostrando que a inflação tem resistido a se comportar de forma previsível, mostrando uma dinâmica própria de atuação. Então, para conter o avanço da doença, o BC pode se ver obrigado a aumentar a dose do remédio — ou seja, de juros.
O boletim Focus divulgado toda segunda-feira pelo Banco Central serve não só para calibrar a expectativa do mercado para as principais variáveis macroeconômicas, mas também para alimentar os modelos matemáticos do BC que ajudam a traçar o plano de voo ideal para a condução da política monetária do país.
A divulgação do boletim está sendo impactada pela greve de servidores federais que atinge diversos órgãos, como o Tesouro Nacional e a Comissão de Valores Mobiliários. Ou seja, a bússola do BC está quebrada.
Assim, o represamento dos ajustes na percepção do mercado pode levar a uma surpresa negativa no futuro, sem aviso prévio.
Com a adoção de um cenário alternativo como base, o BC assumiu o risco de um possível desencontro de expectativas.
Na visão de alguns analistas, se isso de fato ocorrer, o Copom se verá obrigado a abandonar o caminho escolhido e voltar a centralizar suas decisões no cenário real, já que uma Selic em 12,75% se provará insuficiente para ancorar as expectativas do mercado – e quanto mais perto estamos de 2023, menos tempo a política monetária tem para agir.
Ao redor do mundo, o que se vê é um grande choque de preços de commodities agrícolas, energéticas e metálicas, mas o Brasil foi parcialmente poupado do impacto dos preços. Isso se deve à valorização de quase 19% do real frente ao dólar no ano, mas muitos especialistas acreditam que o câmbio abaixo de R$ 5 como vemos no momento não é sustentável.
Para Carla Argenta, da CM Capital, a apreciação vista da moeda brasileira não é nem de longe suficiente para represar eternamente a elevação dos preços.
Com eleições no radar e o cenário internacional incerto, não dá para contar com uma blindagem eterna dos preços. Embora ainda existam pressões que podem fortalecer o real no curto prazo, o mercado segue precificando um encerramento de 2022 na casa dos R$ 5.
Embora a leitura de que o IPCA de março trouxe uma surpresa desagradável seja unânime, nem todo mundo aposta que o Banco Central irá correr para mudar a postura adotada na condução da política monetária que foi anunciada recentemente.
Para Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos, o BC adotou um compromisso ao alterar a comunicação na última reunião.
A autoridade monetária reforçou o posicionamento em dois documentos relevantes e de grande importância: a ata do encontro do Copom e o Relatório Trimestral de Inflação (RTI).
Para a economista, o mais provável é que o comunicado da próxima reunião traga observações sobre a inflação corrente em patamar mais elevado. Por outro lado, o BC também deve destacar a descompressão que a retirada da bandeira de escassez hídrica pode ter nos indicadores de abril e maio.
Além disso, Abdelmalack não vê uma revisão agressiva nas expectativas do mercado para o IPCA de 2022 e 2023, mesmo com a surpresa recente.
Esse ponto é reforçado por Gustavo Arruda, chefe de pesquisa econômica para América Latina do BNP Paribas, que diz que a surpresa de março apenas reforça a projeção para o ano.
Mario Schalch, gestor de multimercados da Neo Investimentos, aponta que apenas os dados de inflação de março não deveriam ser suficientes para uma mudança imediata. Até a próxima reunião do Copom, também serão conhecidos os dados de inflação preliminares (IPCA-15) de abril.
Embora parte do mercado tenha passado a precificar uma Selic terminal acima dos 12,75% ao ano, Schalch acredita que o BC tem condições de assumir o risco de esperar para ver o efeito da sua atuação do último ano na economia real, já que não existem dúvidas sobre o comprometimento da instituição com a meta de inflação.
Outro ponto importante é que o petróleo, uma das variáveis descritas no novo cenário-base para tomada de decisões, tem se mantido dentro dos patamares esperados. Isso abre uma margem de manobra para que o BC ganhe tempo, ainda que uma pausa temporária no aperto monetário não fique tão bem no currículo.
“Mesmo se parar agora, estamos falando de bastante juros. Estamos falando de um ajuste fino de política monetária. O mercado vai conseguir conviver bem com isso”.
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