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Incentivos corretos não fazem mal a ninguém: saiba como ganhar dinheiro sem ter que migrar de um fundo de investimento para outro

O dilema dos prisioneiros é o problema mais clássico da Teoria dos Jogos, desenvolvida em 1928, e se faz presente em diversos pontos da atualidade, inclusive nos investimentos; entenda

11 de março de 2022
13:25 - atualizado às 13:17
Imagem mostra jogo de xadrez com simulações de gráficos
Imagem: Shutterstock

Dois homens foram condenados a dois anos de prisão cada pelo mesmo delito leve. O promotor, no entanto, acredita que eles também cometeram, juntos, outro crime mais grave, sem provas concretas.

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Ele propõe um trato: se o prisioneiro A confessar a participação da dupla, mas B permanecer em silêncio, A será absolvido de qualquer punição e a pena de B aumentará para dez anos — e vice-versa. 

Se ambos confessarem, entretanto, pegarão cinco anos de prisão cada.

Confiança e traição

Sem dúvida, o resultado ótimo para os dois, de apenas dois anos de punição, é não “caguetar”, mas não há a possibilidade de combinarem o jogo nem tanta confiança assim um no outro.

O risco de ser traído é muito elevado. Se A e B sabem que a melhor decisão coletiva é ficar em silêncio, por que não denunciar logo o outro e ter a chance de sair da prisão?

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Dilema dos prisioneiros

“Pensando bem, qual é a vantagem de eu ficar em silêncio? Se o outro também se cala, pego dois anos; se ele confessa, pego dez. Por outro lado, ao confessar, minhas alternativas são, respectivamente, zero e cinco anos”, conclui cada um dos personagens racionais desse problema.

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O promotor, inteligentíssimo, conseguiu que ambos confessassem o crime mais grave e pegassem uma pena ainda maior, embora não fosse desejo de nenhum dos dois prisioneiros que isso ocorresse.

O dilema dos prisioneiros é o problema mais clássico da Teoria dos Jogos, desenvolvida em 1928 pelo matemático húngaro John von Neumann para estudar a estrutura de incentivos e a tomada de decisões estratégicas de pessoas e instituições que interagem entre si.

Dilema em Guerra Fria

Nos anos 1950, John Nash — aquele do filme “Uma Mente Brilhante” — foi o responsável pela evolução acadêmica do tópico e pela aplicação prática na Guerra Fria no contexto de uma ameaça nuclear. 

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O governo americano precisava avaliar os interesses e incentivos da União Soviética para saber se e quando “valeria a pena” para os russos ultrapassar algum limite e reagir com antecedência. Qualquer semelhança com o momento atual não é mera coincidência.

No dilema dos prisioneiros, confessar é estritamente dominante em relação a se calar. Independentemente do que o outro faça, o resultado menos pior neste caso sempre será admitir a participação no crime de maior gravidade.

“No-brainer”, como diriam os americanos. Uma decisão óbvia, fácil de ser tomada.

Incentivos em fundos de investimento

Há dois problemas principais de estrutura de incentivos na indústria de fundos de investimento: um já conhecido dos três leitores desta newsletter e de alguns outros da série Melhores Fundos, e outro, pouco conhecido, que acontece especificamente quando o mercado vai mal. 

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Felizmente, ambos convergem para a mesma solução, que coloca mais dinheiro no bolso do investidor.

Remuneração de distribuidores

O primeiro é o formato tradicional de remuneração de distribuidores, ainda vigente em alguns bancos e muitos escritórios de agentes autônomos.

A verdade é que o fundo multimercado ou de ações “2 com 20”, que cobra 2% ao ano de taxa de administração e 20% sobre o que exceder o benchmark de taxa de performance, não custa isso. Você paga, mas ele não custa isso.

Um percentual relevante dessas taxas — entre 20% e 50%, na média — fica com o distribuidor. Se o rebate é de 50%, o gerente ou agente autônomo pode levar 1% ao ano daquele fundo renomado que você comprou, um pedaço do mesmo tamanho do próprio gestor.

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Tudo bem, remunera-se por acesso e relacionamento; todos precisam colocar comida no prato das crianças e não há nada de errado nisso, especialmente no âmbito individual.

Assimetria e seleção adversa

A estrutura de incentivos, porém, é perversa com o investidor. Ora, se existem dois fundos igualmente bem avaliados e um deles devolve ao vendedor 1% de taxa, enquanto o outro devolve 0,6%, será mesmo que o primeiro fundo, que te foi indicado, é o melhor?

Aliás, o contrário parece ser mais provável. Se o gestor precisa pagar mais para vender seu fundo, há tanto a possibilidade de ele não ser tão bom assim quanto o risco de a estratégia ficar grande demais no curto prazo.

Quando há assimetria de informação na Teoria dos Jogos, pode existir a seleção adversa. Em outras palavras, quando o vendedor sabe mais do que o comprador, pense bem antes de comprar.

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Reforço: é assim na grande maioria dos bancos, corretoras e private banks, com raras exceções inseridas na indústria 3.0.

Migração de fundos

Precisamos falar sobre o segundo problema, ainda mais grave e que impacta especificamente os investidores de bons fundos multimercados e fundos de ações que atravessam períodos desafiadores.

Indo direto ao ponto, você pode estar recebendo a recomendação de migrar de um fundo para outro apenas para remunerar melhor seu gerente ou agente autônomo.

Exemplo de situação

Imagine que a cota de um fundo de ações tenha saído de 100 para 120 no primeiro semestre de 2021, período positivo para os mercados. Naquele instante, você e todos os outros cotistas pagaram a taxa de performance ao gestor pelo bom desempenho.

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No segundo semestre, o Ibovespa caiu 17% e, dado que o índice tem maior peso em bancos e commodities, imagine que seu fundo tenha caído 25%, levando a cota para 90.

Neste cenário, você só voltaria a remunerar o gestor pela performance do fundo no momento futuro em que a cota ultrapassasse 120, valor do último pagamento, o que é conhecido como linha d’água do fundo.

Gestor e viés de longo prazo

O gestor é compreensivo. Faz parte do jogo um período ruim e ele tem viés de longo prazo, sabe que as chances de seu fundo se recuperar e entregar um bom dinheiro são razoáveis. 

Seu patrimônio está investido no mesmo fundo dos cotistas e ele só vai voltar a ganhar taxa de performance quando recuperar a rentabilidade. Justo, certo?

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Mas o distribuidor não é o gestor, não tem seu patrimônio pessoal investido no mesmo fundo, e a estrutura de incentivos o favorece. 

Caso exista outro fundo igualmente bom ao que você está investido e que tenha passado exatamente pela mesma situação em 2021, o que aconteceria se você resgatasse do primeiro fundo e investisse no segundo?

Taxa de performance

Voilà! O cálculo da taxa de performance no segundo fundo seria zerado para você, investidor, e caso a cota do seu novo investimento se recupere de 90 para 120, você já terá que pagar taxa de performance — ao gestor e ao distribuidor. Se esse fundo tiver um rebate ainda mais gordo do que o primeiro, melhor.

Repare que não é uma narrativa conceitualmente errada do ponto de vista de alocação de carteira ou referente ao caráter do vendedor. 

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Os dois fundos podem ser os dois melhores da indústria, com desempenhos 100% iguais e, mesmo assim, a estrutura de incentivos é desenhada para que você migre de um para o outro.

Já vimos isso acontecer em outros períodos de perda no passado e temos recebido dúvidas de investidores sobre essa prática nos últimos meses.

Soluções para os problemas

As soluções para os dois casos: i) educação financeira e ii) uma estrutura de incentivos alinhada com o investidor.

A primeira para te ajudar a identificar o que faz um fundo estar entre os melhores da indústria e as poucas situações em que um resgate faz sentido, se a decisão inicial de alocação foi correta.

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E a segunda para garantir que as recomendações de seu banco ou corretora sejam alinhadas aos seus interesses, sem a intermediação de vendedores que levem uma grande parte do lucro gerado pelo gestor e devido ao investidor.

Cashback sem conflitos

Entre as instituições da indústria 3.0 que têm um programa de cashback das taxas de administração e performance, o da Vitreo é, até este momento, o único que fixa a remuneração recebida de rebates de fundos em 0,2% ao ano e devolve todo o restante ao investidor.

O mesmo fundo, a mesma estratégia, o mesmo gestor e a possibilidade, desde 2020, de portar fundos fora da previdência. Está aí mais um exemplo de uma estratégia estritamente dominante sobre todas as outras.

Cashback sem conflitos é mesmo um conceito poderoso.

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Afinal, por que você ainda paga “2 com 20” mesmo?

Um abraço,
Bruno Mérola

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